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Colunistas


O adeus ao 3D? (Já vai tarde)

Sábado, 21/04/2018 às 07:00, por Fábio Rockenbach

Há alguns anos, quando a primeira sala 3D foi inaugurada em Passo Fundo, fui convidado por O Nacional para dar um depoimento sobre o formato. Provavelmente não fui a melhor opção porque na época já mostrava o quanto ele me desagradava. Comentei, na ocasião, que o 3D estava sendo valorizado demais. Poucos cineastas faziam ideia de como usar o formato, e a quantidade enorme de filmes sendo convertidos para 3D depois de lançados mostrava o quanto a indústria do cinema via a tecnologia apenas como um enfeite de bolo. Pior: o público, entorpecido pela novidade, comprava a ideia e pagava mais caro.

Pior, ainda, é o fato de o 3D ser uma distração: elementos importantes da linguagem cinematográfica poderiam se perder – para que o 3D funcione, é preciso que haja uma grande profundidade de campo, ou seja, quando tudo que aparece no plano esteja em foco, principalmente o fundo. Cenas em que haja pouca profundidade – com desfoque atrás dos personagens no primeiro plano – são inúteis em termos de 3D. Adaptar um filme pronto a ele, portanto, é saber que muitas partes do filme simplesmente não mudarão. Scorsese, em A Invenção de Hugo Cabret e Alfonso Cuarón, em Gravidade, são dois dos raros diretores que pensaram nisso ao filmar já pensando no 3D – e por isso seus filmes são considerados modelos, junto com Avatar, de Cameron (que também comete pecados com a profundidade de campo).

De minha parte, sempre fui contra, também, pelo desconforto, pela dor de cabeça - principalmente com legendas - o que também fez aumentar a oferta de filmes dublados para se adequarem melhor ao formato, ou seja, um duplo prejuízo - pelos óculos ruins e, no caso local, por deixar mais escura ainda a projeção. Ah, claro, e pelo preço.

A novidade (boa), publicada nessa semana num dos principais blogs de mercado de home video do Brasil, o blog do Judão, é a constatação de que os filmes 3D estão indo para o buraco. O CEO da IMAX Entertainment, Greg Foster, afirmou recentemente que a demanda por filmes 2D está começando a ultrapassar a de 3D nos EUA, menos filmes são feitos no formato e os lucros com ele diminuem - nos últimos dois anos, ele caiu quase 20%.  TVs com tecnologia 3D estão deixando de ser produzidas como eram na febre do formato. Não significa que de uma hora para outra os filmes no formato deixarão de ser oferecidos por aqui, principalmente depois do investimento em salas equipadas para o formato – obviamente que o Brasil demora a assimilar o comportamento do restante do mundo. Aqui, como se ninguém olhasse para a tendência externa, as salas aumentaram de 2016 para cá, apesar dos problemas de qualidade do serviço e do preço. Porém, só de antever um cenário que dê preferência ao velho, bom e salutar 2D, que permite ver com clareza cada aspecto da produção – e não apenas “sentir” e “reagir” – minha fé em retomar com mais frequência a visita às salas aumenta. 

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Para quem anda decepcionado – como comentei na semana passada – com os rumos de The Walking Dead e seu ritmo arrastado há três temporadas, a boa notícia é que, surpreendentemente, a nova temporada de Fear The Walking Dead começou MUITO boa.

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Na semana que vem, se tudo der certo, é hora de reservar espaço apenas pra diversão e agendar a ida ao cinema para assistir a Vingadores - Guerra Infinita. Se adiante ou se prepare para as filas. A pedida é mesmo, assim que for confirmada a programação, tentar antecipar a compra.




Tolkien vs Asimov

Sábado, 14/04/2018 às 07:45, por Fábio Rockenbach

Matéria na semana passada em um jornal da capital sobre o fechamento de uma cadeia de locadoras – e infelizmente tem gente que nunca entrou em uma na nova geração – aponta para o que parece ser o futuro estabelecido do serviço de consumo de filmes: o streaming. Saem de cena os relacionamentos, os papos de balcão,  as indicações... entram em cenas algoritmos feitos para limitar o acesso do público àquilo que a empresa quer. Tenho opiniões contrárias e favoráveis ao streaming – a maior crítica que faço é quanto ao serviço estar matando a boa cinefilia, ao concentrar na oferta e na facilidade de acesso ao cliente uma quase totalidade de filmes novos, matando a história do cinema no processo e mudando até o conceito do que é “bom” ou “ruim”. Muita gente vendo filmes significa muita gente opinando sobre filmes e os indicando a outros, mas educar-se cinematograficamente em uma Netflix significa também ter muito pouco parâmetro de comparação para saber o que é bom ou mau audiovisual.
A indicação do futuro vai se comprovando a cada semana. Veio também com dois anúncios recentes: o primeiro é que a adaptação de O Senhor dos Anéis para um seriado, que está em fase de pré-produção pela Amazon para seu serviço de streaming Primevideo, teve seu orçamento ampliado de 500 milhões para 1 bilhão de dólares (e já com 5 temporadas garantidas). O medo aqui é pela participação de Peter Jackson, depois do atentado cometido por ele na trilogia O Hobbit, que é descartável. Jackson criou uma obra-prima na adaptação de O Senhor dos Anéis para as telas, mas seria interessante ver uma visão diferente desse universo na nova série.
O outro anúncio foi feito pela Apple, que vai lançar um serviço próprio de streaming para competir com a Netflix e a Amazon: a trilogia de livros de ficção Fundação, de Isaac Asimov, vai se tornar uma série para TV. Um dos pilares da moderna literatura de ficção científica, Fundação foi publicado em três livros lançados no começo dos anos 50 e ainda são referência. A Apple apenas anunciou o início do projeto, mas não o início das filmagens.
Vem briga grande entre os serviços do streaming por aí.

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O público que vai aos cinemas ver um filme de Dwayne Johnson sabe o que vai encontrar: testosterona pura ou ação com humor. Às vezes divertido, como no recente Jumanji: De Volta à Selva, às vezes horrível, como no descartável Terremoto - A Falha de San Andreas. Espere um personagem heróico e tiradas engraçadinhas em momentos inoportunos, a solução que 11 entre 10 roteiristas de ação  encontram para inserir humor em um monte de explosões e cortes rápidos. A boa novidade é que Rampage - Destruição Total tem surpreendido parte da crítica - enquanto a outra parte diz ser mais do mesmo, vai entender - por conseguir trabalhar o estereótipo do personagem em um tipo de história que é feita para ver na tela grande: experimentos do governo transformando animais em monstros gigantes. Claro que eles acabam na cidade e provocam destruição. Se há um lugar para ver esse tipo de filme, é na tela grande - até a diversão fica menor preso à televisão. Rampage tem cópias dubladas e legendadas no Centerplex. 

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Alguém mais também está com a paciência se esgotando com The Walking Dead?




De onde menos se espera...

Sábado, 07/04/2018 às 07:00, por Fábio Rockenbach

Jordan Peele construiu carreira nos Estados Unidos participando de filmes de comédia tolos, filmes infantis e séries de TV humorísticas, mas surpreendeu meio mundo (ou mais) quando assinou Corra! no ano passado. Peele roteirizou e dirigiu um dos filmes mais elogiados do ano e se tornou o primeiro diretor a ser indicado ao Oscar já em seu primeiro filme. Ninguém esperava tanto talento num gênero sem nenhuma relação com o trabalho de Peele.
John Krasinski agora é o nome da vez. Krasinski é mais conhecido por papéis em séries de TV e como coadjuvante de alguns dramas e filmes de ação. Pois ele dirige aquele que vem sendo considerado um dos melhores filmes de terror/suspense (seu filme é difícil de definir) dos últimos tempos. Em Um Lugar Silencioso, temos uma família (o próprio Krasinski, ao lado de Emily Blunt e duas crianças) que precisam viver isoladas no meio rural e em completo silêncio, pois estão cercadas de criaturas assassinas que se orientam pelo som.
Krasinski é elogiado pelo trabalho de direção e parece ter tido competência de explorar o que o roteiro melhor oferece: um plot baseado em um elemento que reverbera nas escolhas técnicas. Ao ter como elemento central do seu filme de terror a necessidade de silêncio, tem um prato cheio para desenvolver um trabalho de som que ajuda na narrativa e oferece possibilidades imensas de construir tensão apoiando as imagens. Mais do que isso: a própria ideia de que não pode haver barulho já antecipa na plateia o medo e o suspense pela simples possibilidade de acontecer qualquer coisa, antes que elas aconteçam.
O filme é a estreia da semana na sala 1 do Centerplex Bourbon, com opções dublada e legendada.

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PARA ESPERAR EM BLURAY: “Deixa a luz do sol entrar”, da diretora francesa Claire Dennis, vem arrebatando a crítica internacional e brasileira, e ainda tem a sempre maravilhosa Juliette Binoche no elenco. Como é quase certo que esse tipo de produção não é exibida em Passo Fundo, aguarde chegar nas plataformas ou no home cinema.

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A Netflix segue ampliando na sua grade suas produções originais – e se alguém não percebeu, a empresa tem feito isso para garantir o próprio futuro, já que as produtoras cujos filmes são exibidos no serviço já perceberam que ela se tornou, mais do que aliada, uma concorrente. Só que se a Netflix continuar lançando bombas como The Titan, que estreou na semana passada, vai dar com a cara na parede. A premissa até é interessante – em vez de adaptar um planeta à raça humana, tentar adaptar o ser humano às condições da lua de Saturno que a NASA pretende colonizar para a humanidade sobreviver à destruição da Terra. A premissa para, no entanto, na ideia interessante e depois se torna um típico filme onde um experimento genético dá errado e cria um monstro. Pálido como filme, patético como construção de tensão, falho no desenvolvimento, é uma tremenda bola fora.

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Tem sessão aberta neste domingo na Casa de Cultura Vaca Profana. O documentário “O Pasquim – a subversão do humor” será exibido na Casa a partir das 17h30min com entrada franca. Na trajetória do Pasquim – que teve no passo-fundense Tarso de Castro um de seus expoentes -, fundado em 1969, no auge da ditadura militar, surgem nomes como os de Jaguar, Ziraldo, Sérgio Cabral, Luiz Carlos Maciel, Marta Alencar, Miguel Paiva, Claudius, Sérgio Augusto, Reinaldo e Hubert, Angeli, Chico Caruso, Washington Olivetto e Zélio – e todos com seu espaço no documentário. A Casa fica na rua Paissandu, 180, uma quadra abaixo do Hospital da Cidade. É só chegar!




E a Netflix não vai "sentar à mesa"...

Sábado, 31/03/2018 às 09:00, por Fábio Rockenbach

A Netflix parece aquele convidado deslumbrado que quer sentar à mesa mas se nega a usar talheres e prefere usar só as mãos. Se nega a se dobrar às regras. Adorou o tapete vermelho de Cannes, mas a partir de agora, só poderá exibir filmes no festival francês fora da mostra competitiva. Todas as competições e mostras cinematográficas exigem que seus competidores sejam exibidos nos cinemas para concorrer a prêmios, mas a Netflix se recusa a exibir seus filmes fora do seu serviço de streaming.  Como resultado, o júri oficial do evento baniu a empresa da competição. Na semana passada, Steven Spielberg já havia manifestado a mesma opinião sobre a Netflix e o Oscar. "Se você produz para um formato de televisão, é um filme de TV", contou a agência ITV. “Se for bom, certamente merece um Emmy, mas não um Oscar. Eu não acredito que filmes que se qualificaram simbolicamente sendo exibidos por menos de uma semana na telona devam concorrer ao Oscar.” O debate em torno da empresa, inclusive, tem se alongado em torno de outros fatores, como a ausência de títulos clássicos e o tratamento desleixado dado a produções premiadas adquiridas pela empresa.
Não que a Netflix não produza material de qualidade: várias de suas séries e filmes são ótimos – alguns, como o recente Aniquilação e vários documentários, são provocadores – mas a quantidade de produções de qualidade duvidosa têm tomado a grade do serviço em detrimento da variedade de opções que ele detinha há alguns anos. Agora é esperar para ver se a empresa vai mudar suas regras para “entrar” no mundo das competições ou se vai optar por, quem sabe, boicotar os filmes de quem a tem criticado.

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Para quem já foi o “Peter Pan” do cinema, Steven Spielberg andava devendo. O diretor de Indiana Jones, Jurassic Park e produtor de marcos da geração jovem dos anos 80 como Goonies  Gremlins e De Volta para o Futuro há anos derrapa quando investe no público adolescente. Sua adaptação de TinTim para as gelas decepcionou muita gente, o quarto Indiana Jones é o mais fraco da série e “O Bom Gigante Amigo” é um de seus piores filmes. A julgar pela recepção, a grande estreia deste fim de semana em Passo Fundo está se saindo bem melhor. “Jogador Nº 1”  (14:15 e 21:15 na sala 1 do Centerplex Bourbon) vem sendo saudado como o retorno do diretor aos seus momentos mais inspirados. Apesar das ressalvas ao excesso de CGI, é difícil pensar que o livro de Ernest Cline ganharia as telas de outra forma. O sucesso da obra, que traz um futuro em que as pessoas imergem em um mundo digital para fugir do cotidiano opressor, reflete também o tempo em que ela é adaptada,  mais até do que quando foi escrita (o livro é de 2011).  Em tempo: sem cabines de imprensa longe das capitais, ainda é difícil alguma opinião mais concreta sobre o filme, apenas sua recepção.
Já no Arcoplex, TODAS AS SESSÕES serão tomadas pela cinebiografia de Edir Macedo – ou seja, sem espaço a outras opções para o público. Como o assunto  aqui é cinema, prefiro focar a atenção na obra de Spielberg...

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Aliás, sem contar a opção única do Bella Cittá, que é nacional, a ordem aqui continua sendo filmes dublados – inclusive no filme de Spielberg. A única opção legendada é a fraca continuação de Círculo de Fogo no Centerplex. Para quem acha que a dublagem deturpa todo o trabalho de som e interpretação originais, uma decepção.




House of Cards

Quinta-Feira, 19/03/2015 às 12:00, por Fábio Rockenbach

Serviços como o Netflix parecem se sustentar, hoje, como a mais provável direção a ser tomada por empresas distribuidoras de audiovisual. O padrão da TV Paga, se era inovador há 10 anos, hoje é insifuciente pela fome do público de ir além das já saturadas opções que elas oferecem. Há poucos dias, o Netflix liberou a seus anunciantes um dos melhores – senão o melhor – filme de 2014, “O Abutre”, antes de qualquer outro serviço. Se por um lado o cardápio de opções, apesar de vasto em séries, ainda é restrito em filmes, principalmente cults, clássicos e opções menos óbvias, é um serviço promissor por um preço tão baixo.

Outro exemplo do potencial do serviço está em “House of Cards”. Poderia ser só na série, mas está na proposta com que o Netflix inovou ao lançar a primeira temporada, três anos atrás. Nada de esperar semana após semana para o próximo capítulo: a temporada inteira é liberada de uma vez. Assista tudo em dois dias, num feriado ou fim de semana, ou assista quando puder, mas não seja mais refém do que o CEO da empresa  chamou de “administração da ansiedade”. Nada, aliás, que muitos já não façam: há quem prefira esperar os últimos episódios de uma temporada para ver uma após o outro os episódios de sua série favorita.

No caso de “House of Cards”, há outros méritos para a ousadia do Netflix em investir em produções próprias: é uma das séries mais ricas em termos visuais e sonoras. Se a história, seus personagens e tramas são envolventes, a forma como essa trama é passada ao espectador coloca a série ao lado de outras precursoras como Breaking Bad e Sopranos, e de ótimas séries contemporâneas, como The Knick, True Detective e Penny Dreadful, como uma das melhores já feitas para TV. Se há episódios que ficam apenas no “correto”, há pelo menos 3 ou 4 episódios ao longo de cada temporada que, isolados, se revelam preciosidades audiovisuais. A forma como o enquadramento expressa relações de poder, como a centralização é usada para comentar o estado de espírito de seus personagens, como o som é utilizado de forma sutil na montagem alternada e para ligar fragmentos separados de história, ampliando seu ritmo, ou como a profundidade de campo se torna mais do que um mero recurso para nos fazer prestar atenção em nosso confidente, Underwood, também podem ser explicados pela presença de gente consagrada atrás das câmeras. David Fincher deixou sua marca na primeira temporada. Joel Schumacher – vá lá, nem tão consagrado assim, autor de filmes bons e bombas monumentais – e a veterana Agniezka Holland (nessa terceira temporada) comprovam que, definitivamente, a TV deixou de ser destino dos banidos e passou a se tornar um paraíso aos profissionais do cinema.

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Programações do Ponto de Cinema sendo definidas – e provavelmente anunciadas nos próximos dias. O que dá para adiantar é que, entre cursos rápidos, mostras, ciclos, exibições livres e eventos, haverá acesso a clássicos, grandes diretores e debates sobre cinema para quem quiser na região. Não haverá desculpa, portanto. Uma das iniciativas é dedicas um mês a um grande diretor com exibição de filmes e debates em torno de sua obra, com acesso gratuito. Nomes como Orson Welles (100 anos de nascimento), Alain Resnais e Mike Nichols (falecidos ano passado) e Woody Allen (que completa 80 anos) estão na pauta do projeto para 2015. Fiquem de olho.




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