O Arquivo Histórico Regional guarda em seu porão preciosidades, ávidas por algum curioso que as interprete e as traga ao público com devido reconhecimento. Há um livro esquecido, pouco citado e pesquisado que só lá pude conhecer. Como quem esbarra numa oferta de um sebo, um dia busquei na prateleira os poemetos serranos de Lacerda de Almeida Junior, publicados em 1925. Imagino a “inquietação daquele volume precioso”, passados mais de 80 anos de anonimato, até a tarde em que assinei presença no livro de pesquisadores naquele verão de 2007.
Lembro o momento quando puxei, entre lombadas puídas de nomes como Passo Fundo, Tchê e Coletânea gauchesca: versos xucros, uma capa amarelada com o título: O puchirão do Gé Picaço. Estava freqüentando o AHR diariamente, no período de veraneio, dedicado a finalizar minha pesquisa sobre o gauchismo em Passo Fundo, imerso na historiografia municipal. Mal sabia que encontraria uma chave importante de minha dissertação.
Justifico o valor do livro para mim, naqueles anos mestrando na UPF, pesquisador do regionalismo sul-rio-grandense. Pois O puchirão do Gé Picaço se propunha a desvendar um tipo humano pouco conhecido no país, o caboclo serrano do Rio Grande do Sul. Lá na década de 1920, em pleno florescer regionalista brasileiro, Passo Fundo compunha a grande região serrana, por denominação geográfica. Só mais tarde seria denominada Planalto Médio.
Assinando com o codinome Julio Simão, o autor afirmava logo no prefácio que a campanha e a fronteira eram vasculhadas e estudadas em seus costumes e tradições. Referia-se ao gaúcho. Mas quanto a serra, havia um certo descaso e ignorância sobre a terra e o homem, o que o autor lastimava.
Então Passo Fundo é terra de gente boa? É de gaúcho ou de caboclo? Imaginem meu entusiasmo, tal um paleontólogo que encontra o elo perdido. Para Almeida Junior, o caboclo era o componente mais importante do povo passo-fundense, e viria a se misturar em outro processo de miscigenação com as correntes imigrantes do século XX. Ou seja, a identidade gentílica da cidade deveria emergir dos traços predominantes do caboclo. Essa versão é sustentada atualmente pelo historiador Tau Golin, meu orientador na pesquisa.
Mas à revelia da posição pioneira de Almeida Junior, as obras mais referidas e estudadas nas escolas são as do chamado “pai da história” do município, Francisco Antonino Xavier Oliveira. Seus escritos e pesquisas historiográficas mesclam-se com poemas que glorificam políticos rio-grandenses e outros de causos gauchescos.
Fica evidente a disparidade entre os dois autores na escolha do tipo humano a ser tomado como referência gentílica. É relevante considerar que Xavier Oliveira pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico do RS, que consolidou o que se convencionou chamar de “historiografia tradicional gaúcha”, tributária, em grande medida, dos relatos produzidos pelos cronistas do período colonial, e que serviu de suporte para a mitificação do gaúcho e das histórias da campanha.
A seguir, em um quadro de crescente urbanização no estado, com notável transformação sócio-cultural, o gaúcho continuou alimentando o imaginário. Passo Fundo também “colou” sua representação ao gauchismo, num processo contemporâneo, baseado na mídia e num aparato institucionalizado pelos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs). O fenômeno Teixeirinha, sucesso na venda de discos e no cinema na década de 1970, foi determinante para a edificação do imaginário do “Gaúcho de Passo Fundo”, título de música e filme seus.
O poder público municipal contribui até hoje para que o gauchismo seja a principal e às vezes única expressão cultural da cidade. Desde 1980, quando aprovado o projeto “Passo Fundo, Tchê”, a Prefeitura e a Câmara de Vereadores passaram a promover sistematicamente festivais, mostras e rodeios. Apesar de estes eventos não abrangerem a pluralidade cultural local, os políticos não encontram problemas para justificar volumosos investimentos públicos nos mesmos.
Para finalizar, recomendo o AHR aos pesquisadores e curiosos, que, de férias ou não, sentem uma coceira na ponta dos dedos quando entram num lugar cheio de livros. Acreditem, há nele um título incrível esperando por cada um, não ouso adivinhar há quantos anos. Vamos começar um puchirão, que revele nossa história regional com mais nitidez.
João Vicente Ribas
Jornalista, Mestre em História
Fonte: Acervo do AHR
* Os artigos expressam a opinião de seus autores.
Arquivo Histórico Regional – UPF
R. Paissandu, 1576 – Centro
Fone: 3316 8516 – e-mail: ahr@upf.br – site: www.upf.br/ahr
Doações de documentos são recebidas o ano inteiro.
Dos muitos pequenos tesouros guardados no Arquivo Histórico Regional, os milhares de processos criminais estão entre os mais importantes. Não que os casos tenham envolvido pessoas famosas ou gerado repercussão nacional (talvez alguns tenham – muito do material ainda está por ser estudado). Na verdade, a sua importância histórica se dá exatamente pelo motivo oposto: envolver gente comum. Lendo seus depoimentos e histórias de vida e prestando atenção aos detalhes, é possível descobrir informações valiosas sobre a vida cotidiana, a mentalidade, as relações sociais e muitas outras coisas que dificilmente se encontram em outros documentos do passado. Para alegria dos pesquisadores, alguns dos casos, além de ricos em informações, também fornecem boas histórias. Eis uma delas, derivada de um processo criminal.
O ano era 1966. O lugar, o interior da pequena e recém-emancipada Fontoura Xavier. Um agricultor, ao passar na casa de um amigo, encontrou ali outro visitante, que logo descobriu ser um “curandeiro”, conhecido por seus remédios de chás e ervas. Isso veio a calhar para o agricultor, pois sua mulher sofria de uma doença de pele. Ele pediu para que o homem ajudasse sua esposa. O convite foi aceito e o curandeiro empregou seus remédios habituais, que surtiram algum efeito, terapêutico ou psicológico: enquanto ele esteve ali, ela não sentiu sintomas de sua doença. O casal, agradecido, hospedou em sua casa e pagou suas despesas para que ele morasse ali, continuando o tratamento. Ele havia adquirido seus dois primeiros seguidores.
Nos meses seguintes, o curandeiro, um homem de meia idade e analfabeto, expandiu suas ambições. Praticamente mandava na casa, criando desavenças entre o casal e jogando um contra o outro. Começou a dizer que era um servo de Deus, que “havia sido enviado para apartar o bem do mal”. Com uma roupa que misturava trajes de médico e padre, começou a realizar consultas para os moradores da região, fazendo um sucesso considerável: de acordo com um depoimento, ele chegava a realizar até quarenta consultas por dia. Algumas vezes cobrando a consulta, outras vezes apenas os remédios, estava ganhando bem com suas curas. A vida estava agradável para o curandeiro, e poderia ter continuado assim se um outro lado de suas atividades não tivesse sido descoberto.
O casal que o hospedava tinha uma filha adolescente, com o casamento já marcado para o início do ano seguinte. O “servo de Deus” havia sido convidado como padrinho, mas recusou, dizendo que ele mesmo tinha capacidade para realizar o casamento e até mesmo batizados. A confiança de todos da casa no suposto homem de Deus era tamanha que ninguém viu problema em deixar a adolescente a seu serviço todos os dias para ajudar na preparação dos remédios. Isso é, ninguém viu problema até o dia em que seus pais descobriram que ela estava grávida de três meses. Havia sido seduzida pelo curandeiro, que dizia precisar de uma “profetisa”. Ela queria ter contado antes o que acontecera, mas ele ameaçou matar toda a família, dizendo ter poderes sobrenaturais e ser capaz de eliminar uma pessoa sem encostar nela.
Foi o fim das curas do “servo de Deus”. O agricultor explicou a situação à polícia, que prendeu o curandeiro ao tentar fugir para Barros Cassal, onde morava com sua família: era casado e pai de oito filhos. Ele tentou se defender de todas as formas possíveis, claro: disse que nada tinha acontecido entre ele e a jovem; que não cobrava por seus remédios e apenas estava realizando seu dever de caridade como espírita. Foi em vão, pois o curandeirismo era crime, como continua sendo até hoje, se aproveitar de uma menor era ainda mais grave e as provas contra ele eram convincentes. Recebeu pena de quase cinco anos de prisão, sendo chamado pelo juiz de “pretenso místico explorador da boa fé e crendice exagerada” da população rural, que vivia em estado de abandono social. Como o juiz poderia saber que, quase cinquenta anos depois, o curandeirismo estaria ainda vicejando no campo e nas cidades?
Emannuel Reichert
Mestrando em História/UPF
Fonte: Acervo do AHR
* Os artigos expressam a opinião de seus autores.
“Hoje é a vez de Brizola” - assim iniciava a reportagem anunciando a vinda do político à Passo Fundo em 1° de novembro de 1989. Para seus partidários, como Airton Dipp, então prefeito municipal, a visita daquele líder entraria para a história da cidade. Eram esperadas mais de 50 mil pessoas para sua carreata e comício.
A época era muito conturbada em função do período eleitoral, na qual concorriam para a presidência da República, além de Leonel Brizola (PDT), Paulo Maluf (PDS), Fernando Collor (PRN), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), entre outros. Brizola vinha enfrentando muitas críticas, como em toda sua carreira política. Maluf, por exemplo, o acusava de ser favorável ao comunismo e reforçava sua posição repetindo que comunistas seriam pessoas sem religião (O Nacional, 31de outubro de 1989), aumentando o coro dos críticos de direita lançadas àquele expoente da política nacional. Além disso, o líder do PDT vinha enfrentando muitos problemas com a Igreja Católica, pois era favorável ao divórcio e porque se colocava contra a instituição que, em sua opinião, manipularia o setor educacional no país.
A loucura Brizolista, terminologia de Argeu Santarém, seria confirmada no dia 1° de novembro de 1989 e entraria para a história de Passo Fundo como o maior comício político do município. Naquele dia a chegada de Brizola estava prevista para as 19 horas e 30 minutos. A essa altura as ruas do centro de Passo Fundo estavam tomadas por partidários, simpatizantes e uma multidão que simplesmente admirava Brizola, em especial, no Altar da Pátria localizado na GARE, onde o povo cantava hinos da campanha. Brizola teria sido recebido por uma longa queima de fogos às 21 horas, segundo relata Santarém.
Antes do discurso Brizola percorreu um longo percurso em carreata aberta, acompanhado por Airton Dipp, Éden Pedroso, Augusto Trein e vereadores do PDT. Brizola chegou ao Altar da Pátria às 22 horas para proferir suas palavras. Em sua fala ressaltou a emoção de estar novamente em Passo Fundo e relembrou da escola Fagundes dos Reis, onde estudou quando jovem.
Brizola também concedeu uma entrevista para a imprensa no dia 2 de novembro, sem meios termos, pois em sua fala evidenciou seu vigor político e reforçou que “não levava desaforo para casa”. Nessa entrevista, publicada em O Nacional do dia seguinte, o petebista caracterizou seus adversários de “intelectóides” e disse que muitos dele eram “filhos da Ditadura”. Brizola apontava o favoritismo de Collor, mas para enfatizava que este era invenção da mídia e que o povo era inocente demais para perceber tais manobras e acabava aliando-se ingenuamente. Collor sagrou-se vencedor do pleito mas em Passo Fundo aqueles foram dias de Brizola. A receptividade e o destaque que o mesmo recebeu da imprensa evidenciaram a força do político pelas suas propostas, lutas e conquistas.
Virginia Soldá Tamborena
Acadêmica do Curso de História/UPF
Fonte: Acervo do AHR
Arquivo Histórico Regional – UPF
R. Paissandu, 1576 – Centro
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Dezembro de 1959. Alguns dias após o Natal é publicada em forma de crônica uma critica ao que seriam as falsas verdades do Natal, apresentando outra visão da tradicional festa cristã. O artigo fora divulgado no jornal O Nacional por TêDeCê, pseudônimo do autor. Sua descrição sobre o evento natalino teria partido da observação de dois garotos ricos que disputavam quem tinha ganhado o melhor presente e, simultaneamente, da visão de outro garoto que mendigava algumas moedas. Esta leitura causou certo desconforto na sociedade passo-fundense e resultou na ida deste jovem a Porto Alegre. Seria apenas a primeira publicação polêmica na carreira de Tarso de Castro, que desde os doze anos trabalhou no jornal de seu pai, Mucio de Castro.
O jovem jornalista chegou a capital gaúcha e logo teria se identificado com Samuel Wainer, por ser “um revolucionário no jornalismo brasileiro”, segundo o próprio Tarso. Samuel, mais tarde, se tornaria grande amigo, além de seu chefe no jornal Última Hora. Em 1963, Tarso tornou-se editor e criador d’O Panfleto. Esse jornal - porta-voz do movimento criado por Brizola e conhecido por Grupo dos Onze – defenderia as bandeiras das chamadas reformas de base (bancária, fiscal, universitária, administrativa e, principalmente, urbana e agrária). Este jornal seria um dos primeiros a publicar charges humorísticas e de conteúdo critico no Brasil e viria a ser censurado pelo governo ditatorial com o Ato Inconstitucional N°5, que exacerbava as disposições antidemocráticas e inaugurava o período mais arbitrário e repressivo do período militar.
Neste contexto, onde quase tudo era censurado pela ditadura e o controle das manifestações culturais deveria caber exclusivamente ao Estado, a explosão de ironia e irreverencia que surgiam dos textos de Tarso começaram a esboçar o que viria a ser um dos periódicos de maior expressão contra ditadura militar brasileira: O Pasquim. Já vivendo no Rio de Janeiro, TêDeCê se tornou parceiro de ideias e de boemia das principais personalidades da época, tais como Sergio Cabral, Jaguar, Ziraldo, Nelson Rodrigues, Vinicius de Morais e muitos outros.
Criado como um panfletário semanal, não apenas para questionar o sistema de governo, mas para reverter o jornalismo “sério” de forma inteligente, O Pasquim teve como fundadores principais Jaguar e Tarso de Castro. A pretensão inicial era atingir apenas o bairro carioca de Ipanema, onde a chamada “Patota” – os redatores e colaboradores da publicação – frequentava bares e discutia as pautas do próximo número. Desde sua criação, em 1969, o jornal mostrou-se polêmico e inovador em entrevistas e declarações, o que repercutiu em vendagens e abrangência de distribuição. O Pasquim chegou a inesperada tiragem de 200 mil exemplares. Com esta repercussão, o Governo considerou-o “um instrumento de grupo subversivo, com o objetivo de destruir a família brasileira”, tendo sido censurado diversas vezes. Muitos dos autores que publicavam no periódico tiveram que deixar o país e outros, como o próprio Tarso, foram presos, na tentativa do governo de silenciar este grupo do jornalismo. Tarso se manteve n’O Pasquim até 1971. Sua saída seria resultado de inúmeras divergências e discussões entre membros da Patota. O jornal fora publicado até novembro de 1991.
Tarso de Castro, escritor polêmico, é lembrado até hoje como um homem que tinha coragem e irreverencia nas palavras, mulherengo assumido e boêmio incondicional. Sua atitude de questionar o corriqueiro Natal na Passo Fundo de 1959 iniciou um legado intelectual que culminaria na criação d’O Pasquim, evidenciando a força de sua atuação jornalística e política, para além das avaliações sobre sua vida privada, que tem preponderado em avaliações sobre o autor. TeDeCê, tornou-se um dos maiores nomes da luta contra a linha dura no período militar brasileiro. Boêmio, mulherengo e político, eis elementos marcantes de Tarso de Castro que evidenciam suas múltiplas facetas mas que não diminuem a força de sua obra e atuação.
Emanuel A. Machado da Silva
Acadêmico do Curso de História/UPF
Fonte: Acervo do AHR
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