Depois de dias sofrendo com o calor desse verão insano, eis que resolvo mostrar minha face húmida. E como é bom sentir-se caindo por sobre seu corpo. E ela sabia o quanto isso lhe fazia bem. Todas as suas energias ficavam recarregadas. E os dias de calor e suor podiam surgir nos dias seguintes que nada iria atrapalhar.
Nem sempre consigo tocar o corpo dela. E isso não é problema. Mas quando nos vemos, meus toques são sutis. Constituídos de uma leveza refrescante e quase angelical. Nunca trocamos palavras, quiçá olhares. Apenas nos encontramos e nos fundimos em um com a leveza de um sopro do vento. Quando chego, ela me aceita. E tudo isso apenas com um sorriso. Tal qual uma criança feliz que acaba de descobrir mais um dos milhares de prazeres que a vida propicia ao longo de nossa singela existência.
Nunca tivemos melindres. Somos apenas duas explosões de sentidos dando prazer um ao outro. E como ela fica linda quando eu chego. Seus belos pés cor de mármore se desvencilham dos sapatos para ganhar a liberdade do gramado molhado. Seus brincos e anéis deixam de existir para que eu possa banhar suas lindas mãos recém pintadas com aquele esmalte vermelho que tanto amo. Através da sua roupa, ela transpira beleza e tranquilidade. E tudo isso enquanto escorro minhas terminações nervosas por sobre aquela pele lisa, cheirosa, macia, lânguida e cheia de gostos que mudam a cada encontro nosso.
Não importam os homens da vida dela. Não importa se eles chegam ou se eles partem. Indiferentemente deles, nossos momentos são únicos. E apenas nosso. Seja de dia ou de noite, nunca ninguém nos perturbou ou se incomodou. Apenas nos sentimos para que possamos experimentar algo muito maior do que o simples toque carnal entre dois corpos amantes. Quando juntos somos maiores do que tudo já visto na Terra. Derrubamos muralhas. Desarmamos bombas. Impedimos holocaustos. Destrinchamos lugares remotos sem precisarmos sair do lugar.
Seus cabelos se desmancham quando me aproximo. Aquelas madeixas escuras viram rios de vertigem que lavam a alma e elevam seu ser ao posto de Deusa da perfeição. E isso que nem consigo me conter quando molho seus lábios. A tez avermelhada e carnuda de sua boca se abre em risadas puras enquanto nos chocamos com intensidade e beleza. E não importa a distância e nem mesmo a velocidade do impacto, pois a sensação de ter aquele contato é como se levássemos um leve choque de estática; é como uma descarga elétrica singela, que surge do nada e se transforma na força motriz de toda a nossa natureza.
E tudo isso dura apenas alguns eternos segundos. A sua dança da chuva me evoca desde a plenitude dos céus para que simplesmente ela se refresque. E como em um passe de mágica, todas as coisas da vida desaparecem. E eu ganho a forma da silhueta de seu belo corpo para automaticamente penetrar por entre o solo e fazer germinar a existência de tudo o que é belo e vivo.
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