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Colunistas


Semear para colher

Sábado, 15/07/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A Igreja Católica, neste domingo, lê, medita, reza e contempla a Parábola do Semeador e a sua explicação,  conforme o evangelista Mateus, 13, 1-23. O ensinamento através de parábolas é um ensinamento contemporâneo, ainda mais vindo da boca de Jesus que “ensinava com autoridade” (Mt 7, 29).

Entre tantos aspectos da Parábola do Semeador, destacam-se a figura do semeador, a qualidade da semente, o ambiente da semeadura e os frutos colhidos. O semeador é um sujeito esperançoso. Semeia em todos os ambientes. Sob uma ótica economicista e utilitarista parece ser um sujeito irresponsável, talvez ingênuo, pois larga sementes em lugares de alto risco e sem muitas perspectivas de retorno. A qualidade da semente é inquestionável, pois aquela que caiu em terra boa produziu até 100%. É o sonho de todo semeador. Os riscos da semeadura são muitos, desde a perda total até o risco zero. E, por fim, somente colhe quem semeia, seja pouco ou muito.

Semear a boa semente do amor a Deus e para a eternidade que abre horizontes num mundo marcado pelo materialismo e o imediatismo. Colocar-se diante de quem é maior para questionar a arrogância e a autossuficiência humana.

Semear a boa semente da família. Espaço privilegiado onde os filhos honram os pais, agradecem o dom da vida e reconhecem a missão e autoridade dos pais. Também é o ambiente sagrado onde os filhos experimentam o cuidado, o calor e o aconchego dos pais.

Semear a boa semente da promoção da vida. Aprender a não matar. Diante da desvalorização da vida, da vulgarização da morte, do matar como solução de problemas, afirmar que a “vida é bonita”, como diz a canção.

Semear a boa semente da fidelidade. Casais prometem fidelidade, religiosos fazem votos, empresas fazem contratos, indivíduos empenham a palavra. Que em todas as situações o sim dado se torne fato.

Semear boa semente da honestidade. A vida oferece inúmeras oportunidades, na sua maioria pequenas e simples, que provocam e desafiam a honestidade das pessoas e das instituições. Alegrar-se cada vez que consigo ser honesto e agradecer a honestidade e a transparência do outro. Este exercício fortalece a convicção para ser honesto nas grandes oportunidades e nos grandes valores.

Semear a boa semente do respeito ao que é do outro, seja um bem público ou privado. Não cobiçar as coisas alheias. Isto é um remédio para a inveja e a ganância. Alegrar-se com o que foi conquistado com trabalho, com honestidade, mesmo que seja pouco.

Semeia quem é esperançoso, quem acredita na qualidade da semente que está lançando, quem tem paciência para esperar o germinar da semente, o crescer e o amadurecer dos frutos. Só colhe quem semeia.

“Quem tem ouvidos ouça!”, assim Jesus conclui a parábola.




Viver o presente

Sábado, 08/07/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O ano de 2017 está na metade. A sensação da maioria das pessoas é que o tempo está passando depressa. As expressões confirmam: já se foram seis meses, mais um ano de vida, ainda não consegui realizar ou não aconteceu o que tinha planejado. Enfim, cada pessoa tem sua vivência do tempo. A reflexão sobre o tempo questiona e ajuda a viver conscientemente. Onde ocupo o meu tempo? O que é importante? Do modo como vivi até aqui mudou ou acrescentou algo na minha vida e na construção do mundo?

Nos santos Evangelhos Jesus ensina, em vários momentos, sobre vigiar, estar atento, viver esperando, não ser surpreendido, viver a hora. Todos estes textos são muito provocativos e mostram que a vida precisa ser vivida intensamente no tempo presente. Se não for assim não haverá passado e nem futuro.

O pensador, filósofo cristão, matemático Blaise Pascal (1623 + 1662) refletindo sobre o tempo escreveu na obra Pensamentos. “Nunca estamos no tempo presente. Antecipamos o futuro no afã de acelerar o curso de algo que demorará muito a chegar, ou relembramos o passado na tentativa de detê-lo, como algo que passa rápido demais: somos tão ingênuos que vagamos por tempos que não são os nossos e não pensamos no único que realmente nos pertence, somos tão vãos que sonhamos com tempos que não existem e nos evadimos sem refletir sobre o único tempo que realmente temos. É que o presente costuma nos ferir. Nós o tiramos de vista quando nos aflige e nos afligimos quando ele nos faz feliz, pois o sabemos fugaz e vemos como escorre por entre nossos dedos. Tentamos sustentá-lo com o futuro e dispor das coisas que não estão ao nosso alcance, por um tempo que não temos qualquer certeza de que chegará.

Examinamos nossos pensamentos: nós os encontraremos sempre entretidos com o passado ou com o futuro. Quase não pensamos sobre o presente e, quando isso acontece, é apenas para iluminar o que virá. O presente nunca é nosso fim: o passado e o presente são os meios, e nosso fim, o futuro.

Assim não vivemos, apenas esperamos pela vida e, ao estar sempre procurando a felicidade, é inevitável que nunca a encontremos”.

Blaise Pascal afirma que o presente fere e faz sofrer. Se o momento é belo e agradável, não queremos que passe, desejamos imortalizá-lo. Se o presente é de sofrimento queremos apressar a sua passagem ou escondê-lo. São duas ações que estão fora do nosso alcance, por isso o presente fere.

Esta citação, um tanto longa, mas muito interessante de Blaise Pascal, encoraja a viver intensamente o agora que é um exercício mental e um trabalho espiritual. Vivemos no presente e somos nele. Assim como o caminhante para desfrutar do passeio precisa valorizar cada passo e não apenas o ponto de chegada. Isto requer um olhar atento para cada momento, um espírito receptivo para não escapar nenhum detalhe. Estar presente é lutar contra as duas principais formas de ausência: a do passado e a do futuro. O importante é podermos dizer que estivemos presentes.




O papa

Sábado, 01/07/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

A liturgia católica celebra no dia 29 de junho, ou no domingo seguinte, os apóstolos São Pedro e São Paulo. São dois personagens fundamentais na história do cristianismo e da Igreja. No mesmo dia, a Igreja convida os fiéis católicos a rezarem pelo papa, o sucessor de São Pedro. Além de ser um dia de oração, também é dia de reflexão sobre o serviço papal.

Onde reside a grandeza de São Pedro e São Paulo? Por que são recordados depois de tanto tempo? A distância do tempo pode levar à ilusão de que estamos diante de personagens que nasceram prontos. Porém, as poucas palavras escritas sobre suas vidas  revelam, claramente, profundas mudanças nas escolhas, na adesão ao projeto de Jesus Cristo e no exercício da missão. Ambos foram se convertendo de tal modo que Jesus Cristo se tornou o centro de suas vidas. Diante da insistente pergunta de Jesus (cf. João 21, 15-18) “Simão, filho de João, tu me amas”? Pedro responde: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo. Jesus lhe disse: cuida das minhas ovelhas”. São Paulo, depois de anos de ministério apostólico, confessa, escrevendo aos Filipenses 1,21: “Para mim, de fato, o viver é Cristo e o morrer é lucro”. Pedro e Paulo marcam a história por causa desta opção de vida.

O papa Francisco é o papa de número 266. Muitos papas foram canonizados, outros exerceram com dignidade e competência a missão e alguns não foram dignos e fiéis ao cargo. A exemplo de São Pedro e São Paulo, cada papa tem uma história de vida pessoal: uma origem familiar, uma nacionalidade, um processo formativo, um contexto histórico. Nenhum deles nasceu pronto e nenhum foi perfeito.

Tendo como referência os apóstolos Pedro e Paulo e a história da Igreja, duas características foram e são fundamentais nos papas: homens de profunda fé e de um grande zelo pastoral. Os papas que viveram deste modo, hoje são reconhecidos e elogiados. Para exemplificar, fica mais fácil falar dos papas recentes. Na agenda diária destes papas, o tempo e o espaço dedicado à oração, à celebração eucarística diária e aos exercícios espirituais não cede espaço para audiências com personalidades religiosas ou civis. Cultivam a intimidade com Deus diariamente. É só observar como os papas se comportam nas grandes celebrações públicas. Não entram como astros que atraem sobre si a atenção, pois tem consciência que devem apontar para quem é maior e a quem estão servindo.

Como segunda característica é o zelo pastoral e para exercê-lo é preciso estar com os pés no chão, no tempo presente. Conduzir a Igreja, num mundo tão vasto e plural, exige muita sabedoria e determinação. A missão fundamental da Igreja é evangelizar e esta tem inúmeros desafios internos e externos. Os papas com suas palavras e exortações apostólicas oferecem caminhos seguros. Também, o pastoreio envolve a organização estrutural da Igreja, que constantemente necessita ser revisada e corrigida. Envolve a escolha de pessoas ou a remoção de pessoas que não estão no rumo certo, tarefa sempre complexa e, muitas vezes, conflitiva. Não pode faltar a atenção e o posicionamento diante dos grandes acontecimentos e problemas do mundo.

O papa Francisco é exemplar na fé e na pastoral. Isto alegra a Igreja Católica e, certamente, muitas pessoas que comungam do mesmo ideal.




Semana do Migrante

Sábado, 24/06/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

As migrações marcam a história da humanidade. As motivações dos migrantes para saírem de seus lugares de origem e procurarem outros lugares, inclusive países, são as mais diferentes. No cenário migratório, sem dúvida, o mais traumático é aquele dos refugiados, onde indivíduos ou comunidades inteiras precisam fugir apressadamente.

A comunidade, a política, a sociedade civil e a Igreja se encontram diante deste enorme desafio. A busca de respostas, muitas vezes urgentes, é diária. Além disso, somente ações isoladas não são suficientes desafiando a criação de ações coordenadas e eficazes.

Desde o início de seu pontificado, o papa Francisco tem demonstrado uma grande preocupação com os migrantes e refugiados. Foi muito marcante a visita, quase de surpresa, a Lampedusa. Constantemente fala deste tema e a sua mensagem anual por ocasião do “Dia Mundial do Migrante e do Refugiado” é sempre muito provocativa e sugestiva.

As atitudes e falas do papa Francisco têm desafiado muito a comunidade católica. Creio, também, que provoca todas as pessoas sensíveis à questão migratória e as autoridades políticas e econômicas. No seu jeito perspicaz e prático, o papa propôs como resposta ao cenário migratório a articulação em torno de quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar.

Acolher – Acolher é atender, receber, dar crédito, dar ouvidos, aceitar. É o contraponto da rejeição e da indiferença. Antes das estruturas de acomodação, vem a acolhida das pessoas. Talvez já tenhamos alguma experiência de sermos rejeitados ou nos sentirmos estranhos e sabemos o quanto isto dói.

Proteger – Trabalhadores migrantes, refugiados, requerentes de asilo e vítimas do tráfico humano são vulneráveis à exploração, ao abuso e à violência. Pelo fato de serem seres humanos, têm direitos inalienáveis. Devem ser promovidas as garantias das suas liberdades fundamentais e o respeito pela sua dignidade.

Promover – É preciso promover o desenvolvimento humano integral, onde as ações da justiça, da paz, da educação, do desenvolvimento econômico e da proteção são fundamentais. Ao falar da promoção, o papa Francisco chama atenção dos países de origem dos migrantes e refugiados. Lá é o primeiro lugar de promoção humana para que seja resguardado o direito “a não ter que migrar”: de encontrar na própria pátria as condições que lhes permitam uma existência digna.

Integrar – O encontro de pessoas de diferentes povos, culturas, línguas, religiões desafia a todos, migrantes e nativos. O processo de integração começa com o reconhecimento da riqueza cultural do outro. Ele tem algo para ensinar. Tem um outro ponto de vista sobre a vida e outras formas de responder aos problemas diários. Deste modo torna-se possível a unidade na diversidade étnica, cultural e religiosa. A não integração gera guetos e, como nos ensina a história, com o tempo degeneram em violência.




Belos tapetes e belos gestos de solidariedade

Sábado, 17/06/2017 às 07:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O grande romancista russo Dostoiévski, num de seus romances, escreve: “O mundo será salvo pela beleza”. A solenidade de Corpus Christi nos proporcionou um breve momento para contemplar belos e coloridos tapetes e gestos de solidariedade com a doação de cobertores, roupas, alimentos, material de higiene. Foi um momento para ressaltar a capacidade humana de harmonizar e ordenar diversos elementos e cores construindo belas obras de arte em vias públicas. Corpus Christi provocou pequenas doações que resultaram em partilha e amenizaram a necessidade de algumas pessoas.

Cronologicamente foi um breve dia, mas vivencialmente foi um grande dia. Foi um dia de pausa num cotidiano onde o noticiário é recheado de tragédias, mortes violentas, corrupções e outras inúmeras cenas e atitudes “feias”. É verdade que cenas e notícias de tragédia atraem as pessoas. Talvez interessam mais que as belas e boas atitudes. Porém são cenas de destruição, de desfiguração, de desordem que destroem a beleza da vida e não edificam e nem salvam o mundo. Por isso, faz muito sentido a provocação de Dostoiévski: “O mundo será salvo pela beleza”.

Os belos tapetes, nas suas mais variadas formas e cores, proporcionaram uma compreensão e aprofundamento da presença real de Cristo, no pão e vinho consagrados. São manifestações de fé no mistério eucarístico e ao mesmo tempo torna pública e anuncia esta convicção católica. Neste sentido, é uma arte aplicada. Ela transporta ao mistério eucarístico.

A arte dos tapetes não se fecha na lógica do útil, do funcional e do dinheiro. Alguém pode questionar porque gastar tanto tempo e dinheiro para algo que tem vida breve. O evangelista Mateus conta um questionamento análogo quando uma mulher unge os pés de Jesus com um perfume caro: “Para que este desperdício? Este perfume podia ser vendido por um bom preço, e o dinheiro, dado aos pobres. Jesus respondeu e disse-lhes: Por que incomodais esta mulher? Ela praticou uma boa ação para comigo” (Mateus 25, 8-10). A vida humana não pode ser reduzida ao materialismo.

A confecção dos tapetes, normalmente, é realizada voluntária e coletivamente. É uma obra de arte feita por muitas mãos. Isto significa que as pessoas envolvidas precisam estar de acordo com o projeto, dialogarem, colocarem em comum as próprias habilidades. Torna-se uma rica oportunidade de estabelecer laços, somar forças, romper a rotina e a acomodação. É uma oportunidade de exercer o voluntariado que é tão necessário na convivência social. Igualmente são belos e grandes os gestos de doação e partilha, seja de gêneros alimentícios, de higiene, dinheiro, ou qualquer outra forma. A eucaristia faz memória da doação de Cristo para a humanidade: “Isto é o meu corpo ... Isto é o meu sangue ... dado por vós”. A solidariedade é coerência com a fé celebrada e rompe o egoísmo narcisista.

Bento XVI afirma que a liturgia tem uma ligação intrínseca com a beleza. “Na liturgia brilha o mistério pascal, pelo qual o próprio Cristo atrai a Si e chama à comunhão. A beleza não é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação... A verdadeira beleza é o amor de Deus que nos foi definitivamente revelado no mistério pascal”.




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