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Colunistas


Semana do Migrante

Sábado, 24/06/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

As migrações marcam a história da humanidade. As motivações dos migrantes para saírem de seus lugares de origem e procurarem outros lugares, inclusive países, são as mais diferentes. No cenário migratório, sem dúvida, o mais traumático é aquele dos refugiados, onde indivíduos ou comunidades inteiras precisam fugir apressadamente.

A comunidade, a política, a sociedade civil e a Igreja se encontram diante deste enorme desafio. A busca de respostas, muitas vezes urgentes, é diária. Além disso, somente ações isoladas não são suficientes desafiando a criação de ações coordenadas e eficazes.

Desde o início de seu pontificado, o papa Francisco tem demonstrado uma grande preocupação com os migrantes e refugiados. Foi muito marcante a visita, quase de surpresa, a Lampedusa. Constantemente fala deste tema e a sua mensagem anual por ocasião do “Dia Mundial do Migrante e do Refugiado” é sempre muito provocativa e sugestiva.

As atitudes e falas do papa Francisco têm desafiado muito a comunidade católica. Creio, também, que provoca todas as pessoas sensíveis à questão migratória e as autoridades políticas e econômicas. No seu jeito perspicaz e prático, o papa propôs como resposta ao cenário migratório a articulação em torno de quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar.

Acolher – Acolher é atender, receber, dar crédito, dar ouvidos, aceitar. É o contraponto da rejeição e da indiferença. Antes das estruturas de acomodação, vem a acolhida das pessoas. Talvez já tenhamos alguma experiência de sermos rejeitados ou nos sentirmos estranhos e sabemos o quanto isto dói.

Proteger – Trabalhadores migrantes, refugiados, requerentes de asilo e vítimas do tráfico humano são vulneráveis à exploração, ao abuso e à violência. Pelo fato de serem seres humanos, têm direitos inalienáveis. Devem ser promovidas as garantias das suas liberdades fundamentais e o respeito pela sua dignidade.

Promover – É preciso promover o desenvolvimento humano integral, onde as ações da justiça, da paz, da educação, do desenvolvimento econômico e da proteção são fundamentais. Ao falar da promoção, o papa Francisco chama atenção dos países de origem dos migrantes e refugiados. Lá é o primeiro lugar de promoção humana para que seja resguardado o direito “a não ter que migrar”: de encontrar na própria pátria as condições que lhes permitam uma existência digna.

Integrar – O encontro de pessoas de diferentes povos, culturas, línguas, religiões desafia a todos, migrantes e nativos. O processo de integração começa com o reconhecimento da riqueza cultural do outro. Ele tem algo para ensinar. Tem um outro ponto de vista sobre a vida e outras formas de responder aos problemas diários. Deste modo torna-se possível a unidade na diversidade étnica, cultural e religiosa. A não integração gera guetos e, como nos ensina a história, com o tempo degeneram em violência.




Belos tapetes e belos gestos de solidariedade

Sábado, 17/06/2017 às 07:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O grande romancista russo Dostoiévski, num de seus romances, escreve: “O mundo será salvo pela beleza”. A solenidade de Corpus Christi nos proporcionou um breve momento para contemplar belos e coloridos tapetes e gestos de solidariedade com a doação de cobertores, roupas, alimentos, material de higiene. Foi um momento para ressaltar a capacidade humana de harmonizar e ordenar diversos elementos e cores construindo belas obras de arte em vias públicas. Corpus Christi provocou pequenas doações que resultaram em partilha e amenizaram a necessidade de algumas pessoas.

Cronologicamente foi um breve dia, mas vivencialmente foi um grande dia. Foi um dia de pausa num cotidiano onde o noticiário é recheado de tragédias, mortes violentas, corrupções e outras inúmeras cenas e atitudes “feias”. É verdade que cenas e notícias de tragédia atraem as pessoas. Talvez interessam mais que as belas e boas atitudes. Porém são cenas de destruição, de desfiguração, de desordem que destroem a beleza da vida e não edificam e nem salvam o mundo. Por isso, faz muito sentido a provocação de Dostoiévski: “O mundo será salvo pela beleza”.

Os belos tapetes, nas suas mais variadas formas e cores, proporcionaram uma compreensão e aprofundamento da presença real de Cristo, no pão e vinho consagrados. São manifestações de fé no mistério eucarístico e ao mesmo tempo torna pública e anuncia esta convicção católica. Neste sentido, é uma arte aplicada. Ela transporta ao mistério eucarístico.

A arte dos tapetes não se fecha na lógica do útil, do funcional e do dinheiro. Alguém pode questionar porque gastar tanto tempo e dinheiro para algo que tem vida breve. O evangelista Mateus conta um questionamento análogo quando uma mulher unge os pés de Jesus com um perfume caro: “Para que este desperdício? Este perfume podia ser vendido por um bom preço, e o dinheiro, dado aos pobres. Jesus respondeu e disse-lhes: Por que incomodais esta mulher? Ela praticou uma boa ação para comigo” (Mateus 25, 8-10). A vida humana não pode ser reduzida ao materialismo.

A confecção dos tapetes, normalmente, é realizada voluntária e coletivamente. É uma obra de arte feita por muitas mãos. Isto significa que as pessoas envolvidas precisam estar de acordo com o projeto, dialogarem, colocarem em comum as próprias habilidades. Torna-se uma rica oportunidade de estabelecer laços, somar forças, romper a rotina e a acomodação. É uma oportunidade de exercer o voluntariado que é tão necessário na convivência social. Igualmente são belos e grandes os gestos de doação e partilha, seja de gêneros alimentícios, de higiene, dinheiro, ou qualquer outra forma. A eucaristia faz memória da doação de Cristo para a humanidade: “Isto é o meu corpo ... Isto é o meu sangue ... dado por vós”. A solidariedade é coerência com a fé celebrada e rompe o egoísmo narcisista.

Bento XVI afirma que a liturgia tem uma ligação intrínseca com a beleza. “Na liturgia brilha o mistério pascal, pelo qual o próprio Cristo atrai a Si e chama à comunhão. A beleza não é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação... A verdadeira beleza é o amor de Deus que nos foi definitivamente revelado no mistério pascal”.




Corpus Christi

Sábado, 10/06/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Na próxima quinta-feira, a Igreja Católica celebra solenemente o “SANTÍSSIMO SACRAMENTO DO CORPO E DO SANGUE DE CRISTO”, solenidade também conhecida com o nome latino Corpus Christi. A oração da coleta da missa do dia, que é feita antes da leitura dos textos bíblicos, reza assim: Senhor Jesus Cristo, neste admirável sacramento nos deixastes o memorial da vossa paixão. Dai-nos venerar com tão grande amor o mistério do vosso Corpo e do vosso Sangue, que possamos colher continuamente os frutos da redenção. Vós, que sóis Deus com o Pai, na unidade do Espírito Santo”.

Esta breve oração nos introduz no universo belo, grandioso, transformador e misterioso do Santíssimo Sacramento. O Corpo e o Sangue do Senhor é um alimento abundante e nutritivo que, necessariamente, deve se transformar em amor e compromisso com o próximo.

Como cristãos somos peregrinos neste mundo. Necessitamos alimentar-nos cotidianamente. Jesus se ofereceu como alimento e bebida: “tomai e comei”; “tomai e bebei”. É um alimento muito peculiar que não pode ser guardado ou estocado. Precisa ser buscado e consumido diariamente, se assim não for, volta ao doador.

Como assim? O maná providenciado por Deus ao seu povo no êxodo nos faz entender o que foi dito. Vale a pena ler todo capítulo 16 do livro do Êxodo, do qual ressalto os versículos 16-24: “Eis o que o Senhor vos mandou: Recolhei a quantia que cada um de vós necessita para comer... Uns recolheram mais, outros menos. Mas depois, ao medirem as quantias, não sobrava a quem tinha recolhido mais, nem faltava a quem tinha recolhido menos.... Moisés lhes disse: ‘Ninguém guarde nada para amanhã’. Alguns, porém, desobedeceram a Moisés e guardaram o maná para o dia seguinte; mas ele bichou e apodreceu... Manhã por manhã, cada qual ajuntava o maná que ia comer.”

Cada vez que nos aproximamos do alimento eucarístico precisamos estar com fome, pois gastamos tudo o que recebemos anteriormente. Se fomos alimentados da misericórdia do Senhor, precisamos gastar em obras de misericórdia. Se fomos alimentados com palavras de justiça, gastemos o que recebemos sendo justos. Assim podemos enumerar todas as graças e bênçãos possíveis que o Senhor concede. O maná do deserto guardado para o dia seguinte, bichava e apodrecia; o alimento eucarístico que foi recebido e que não foi gasto, isto é, não se transformou em obra de amor ao próximo, o Senhor o vai pedir de volta.

Na hora das oferendas da celebração eucarística são levados ao altar pão e vinho. Na invocação do Espírito Santo se pede para que sejam santificados para se tornarem para nós o Corpo e Sangue de Jesus Cristo. Temos aqui um ato de comunhão com Deus e de partilha e compromisso com os irmãos, sobretudo os mais pobres que necessitam tanto de pão como dos direitos fundamentais. A eucaristia se torna a fonte da moral e da ética cristã. O pão e o vinho, isto é, os frutos do trabalho humano oferecidos no altar do Senhor, retornam a quem os ofereceu. Deus alimenta o doador dos dons. O alimento volta transformado, pois agora é o corpo e sangue de Cristo. Consumido gera vida, comunhão, fraternidade e partilha.




“A gente dá um jeito!”

Sábado, 03/06/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

Em 1977 chegou ao público a primeira edição do livro “Crítica da Razão Tupiniquim” do professor Roberto Gomes. O livro foi reeditado várias vezes, mas por opção do autor “foi mantido rigorosamente tal como na primeira edição”, como escreve no posfácio da 12ª edição. O projeto do livro é pensar a “Razão Brasileira”, isto é “pensar o que se é, como se é”. Desde a sua primeira edição até hoje houve alterações no modo de pensar brasileiro, porém muitas das intuições permanecem atuais.

O capítulo sexto reflete sobre o mito da concórdia: o jeito. Escreve Roberto Gomes: “O ufanismo brasileiro privilegia um objeto: o jeito. É voz corrente que damos um jeito em tudo, do existencial ao político, do físico ao metafísico. E não paramos aí: ficamos muito satisfeitos em ser, pelo que nos parece, o único povo capaz de tão saudável atitude”.

A sociedade tem leis e normas que regulamentam a convivência e o funcionamento social. Mas isto soa como formalismo, legalismo. “Eu sei que esta é a regra, mas não dá para dar um jeito”? “Seu guarda, eu sei que infringi a norma de trânsito, mas porque me multar”? Destes pequenos jeitos chegamos aos milionários que resultam em grandes corrupções. As normas são estas, mas para mim ou para aquele grupo são diferentes.

Temos inúmeras regras de fiscalização, seja por legislação ou norma interna, nos processos licitatórios com objetivo de prevenir desvios. Vários tribunais analisam os contratos e seu cumprimento. Múltiplos documentos são exigidos. Com todo o aparato burocrático, a corrupção não diminuiu.

Ilustrando com outro exemplo. Está em análise o afastamento do presidente da república. Se for afastado como será a sucessão? O debate sobre a sucessão é ilustrativo. Na atual Constituição já foram afastados dois presidentes. A Constituição, a lei maior, diz que o processo sucessório é este, mas porque não fazer de outro jeito? É a Constituição, mas por que segui-la? Mas a gente dá um jeito de achar outro caminho conveniente.

Se dar um jeito parece ser algo para nos orgulharmos como brasileiros, continua refletindo o professor Roberto Gomes, isto traz eleitos colaterais sérios. Um deles é a desconfiança. Quem está falando comigo está sendo transparente? É isto mesmo que quer dizer?

Da desconfiança nasce a burocracia. Múltiplas exigências, muitas descabidas, acrescidas de morosidade, para impedir a transgressão da regra, para controlar o jeitinho. Para provar que “eu sou eu” preciso de uma série de documentos, repetidos, carimbados para dizer a mesma coisa. Constantemente é preciso provar a minha veracidade e que sou eu mesmo.

Ouvimos com frequência as pessoas reconhecerem que temos muitas e boas leis. Se fossem cumpridas a vida seria mais fácil e tudo funcionaria melhor. O cumprimento das leis, portanto, não pode ser compreendido como formalismo ou legalismo. Seu cumprimento é o respeito aos valores fundamentais da sociedade. O jeito é uma maneira marota de desrespeito aos valores maiores.




Não matarás

Sábado, 27/05/2017 às 08:00, por Dom Rodolfo Luis Weber

O dia 22 de maio de 2017 lembra os dois anos do assassinato do Pe. Eduardo Pegoraro, fato acontecido na casa paroquial da cidade de Tapera – RS. O trágico acontecimento mobilizou a comunidade local, sob a liderança do atual pároco Pe. Oswaldo Baptista Ferreira Junior, que promoveu a IIª Caminhada pela Paz. A manifestação pública pela paz tem como fato desencadear o assassinato do Pe. Eduardo, mas o seu objetivo é mais amplo. É promover uma cultura de paz.

É necessário lembrar que desde o assassinato do Pe. Eduardo até hoje foram cometidos, aproximadamente, mais 118.000 homicídios no território brasileiro. As estatísticas mostram um aumento no número de mortes violentas. Não é possível ficar indiferente diante de todas as vítimas e seus familiares. Não é possível calar diante deste massacre.

Não matarás é um mandamento bíblico. Também é um princípio aceito universalmente em todas as civilizações. Por que não matar? Porque a vida é sagrada e na ótica religiosa é um delito contra Deus, Senhor e autor da vida. Toda morte violenta é um atentado à paz, pois gera um desequilíbrio, abre um vazio e provoca sofrimento.

A paz é fruto da justiça.  Num assassinato é cometida uma grave injustiça. Faz-se necessário e urgente que seja feita justiça. Uma sociedade desigual e injusta, onde os cidadãos não têm os mesmos direitos e deveres, não se conseguirá estabelecer uma paz duradoura. A sociedade tem os meios constitucionais e legais de fazer justiça. Não cabe aos indivíduos fazerem justiça, pois isto se caracteriza como vingança, gerando uma maior onda de violência. Infelizmente, a demora em fazer justiça, pelos meios legais, desenvolveu nos cidadãos um sentimento que a justiça tarda demais.

A paz é sinal do amor realizado. “Felizes os que promovem a paz” (Mt 5,9). Se lamentamos, com toda razão, tanta violência, isto ainda não é suficiente. O cultivo de pessoas pacíficas começa no cuidado e na vigilância de tudo que pode desencadear atos mais agressivos. Jesus comentando o mandamento não matar, alerta para os sentimentos e atitudes anteriores: raiva, palavras ofensivas e destrutivas, conflitos. Enfim, não se pode matar fisicamente e nem matar moralmente.

As pessoas assassinadas não conseguimos trazer de volta para o convívio terreno. Trabalhar para reverter, ou ao menos minimizar, o trágico quadro da criminalidade é possível. O cristão tem o Evangelho como referência de educação para a paz. “Cristo é a nossa paz” (Efésios 2,14). Criar um ambiente de paz, onde as pessoas podem viver seguras e em boa ordem. Na paz, são respeitadas a dignidade e o direito à autodeterminação do indivíduo e dos povos. Na paz, a comum existência humana é marcada pela solidariedade fraternal.

“Não há caminho para a paz. A paz é o caminho”. (Mahatma Ghandi)




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