
"Não é jornalístico, não é completo, é apenas o meu ponto de vista sobre o momento que vivemos". Foi assim que o ousado diretor uruguaio Gonzalo Arijon definiu seu filme, Ojos bien abiertos: un viaje por la Sudamérica de hoy, responsável pela abertura da mostra competitiva de filmes estrangeiros na noite de sábado. Conduzido por textos do renomado escritor Eduardo Galeano - autor do fundamental As veias abertas da América Latina -, o documentário aproveita seus estudos sobre o continente e o fato de terem inspirado muitos governos da atualidade. "Talvez eu não precisasse de Galeano, mas eu queria ele no meu filme. Seu pensamento é muito atual", explicou o diretor, minutos antes da exibição do filme, no palco do Palácio dos Festivais. Arijon disse ainda que Ojos bien abiertos se trata de seu olhar pessoal sobre o continente. "É o meu recorte da América Latina de hoje, a inspiração veio desse momento político-social por que estamos passando e que considero excepcional", lembrou ele. Além de unir cinema e literatura e falar de assuntos de tamanha importância, a produção ainda possui outro mérito: foi a mais vista no Uruguai em 2009.

A partir desta edição, o Segundo foca suas atenções na cobertura completa do 38º Festival de Cinema de Gramado, que teve sua cerimônia de abertura na noite de ontem e segue por toda semana com uma rica programação de exibições, debates e homenagens a grandes nomes do cinema latino-americano durante seus nove dias de duração. Direto da gelada Gramado, o Segundo trará detalhes exclusivos nas edições diárias de O Nacional, além de um diário de viagem no site e a edição especial de encerramento na semana que vem
Marina de Campos
Quarta-feira nevou em Gramado. Sexta-feira o clima esquentou. Ao que tudo indica, e os especialistas confirmam, ao longo da semana as temperaturas devem variar bastante, com previsão de fortes rajadas de cinema com gelo até sábado que vem. Para a noite do dia 14, possibilidade de chuva de estrelas e - atenção! - indícios de um fenômeno raro, vislumbrado apenas uma vez por ano nessa região: vem da escuridão do universo e aterriza na cidade Kikito, espécie de cometa radiante mais conhecido como Deus-Sol.
Se a previsão do tempo não é bem essa, perdoe a confusão, mas nesta sexta-feira teve início a 38ª edição do Festival de Cinema de Gramado, maior competição cinematográfica da América Latina e um dos acontecimentos culturais mais importantes do país – difícil alguma coisa (até mesmo a temperatura) fazer qualquer sentido a partir de então. Agora com duração de 9 dias, o evento chega pouco depois da neve e aproveita a onda de dias gelados para encantar público e personalidades do cinema com a mesma intensidade. Um resumo do festival? Nove fortes doses de cinema puro e seco... ou talvez com um pouco de gelo.
Quando a noite finalmente chega
Após a apresentação da Orquestra da Unisinos na luxuosa estrutura montada na rua coberta, os tradicionais discursos do presidente Alemir Coleto e do prefeito Nestor Tissot e a concorrida passagem das estrelas do cinema pelo tapete vermelho em direção ao Palácio dos Festivais, o Festival de Cinema de Gramado teve como exibição de estreia fora de competição um ilustre premiado: o filme Bróder, de Jeferson De, vencedor em três categorias no disputado Festival de Paulínia deste ano. Estrelado por atores consagrados como Caio Blat, Jonathan Haagensen e Cássia Kiss, o filme mostra a relação de três amigos que, depois de muitos anos e rumos diferentes, acaba se reencontrando para comemorar o aniversário de um deles, cenário em que vem à tona antigos conflitos capazes de colocar sua amizade à prova.
Mas o momento que marca o início da disputa e também da expectativa veio em seguida, com a exibição de Enquanto a noite não chega, do gaúcho Beto Souza. Abrindo a série dos competidores brasileiros, o filme tem roteiro intrigante: se passa em uma cidade em ruínas com apenas três habitantes, um casal de velhos e o coveiro Teodoro. Para honrar sua promessa de enterrar até o último morador do lugar, ele aguarda pacientemente a morte dos dois para encontrar sua redenção. No sábado inicia também a mostra competitiva de filmes estrangeiros, com o uruguaio Ojos bien abiertos: un viaje por la Sudámerica de hoy, de Gonzalo Arijon. Em seguida acontece a exibição de 180º, de Eduardo Vaisman. No domingo, além da exibição do argentino La vieja de atrás, de Pablo Meza, e O último romance de Balzac, filme de Geraldo Sarno baseado em história real protagonizada por Chico Xavier, acontece a homenagem a Silvia Zorzanello. Mais detalhes da programação ao longo da semana.
Um quase passo-fundense na competição
Entre os diretores que disputam o prêmio de melhor curta-metragem na Mostra Gaúcha, está Eduardo Wannmacher, conhecido pelo público passo-fundense por seus mais de oito anos como professor da Faculdade de Artes e Comunicação entre fins da década de 1990 e o ano de 2005, quando retornou a Porto Alegre e iniciou a produção de seu curta-metragem, Um dia como hoje, que depois de inúmeros concursos e exibições integrou a Mostra Gaúcha de 2008 e saiu vencedor. Em 2010 Wannmacher retorna à competição, desta vez com a produção Volto logo, curta de 9 minutos que apresenta a história e as dúvidas de um jovem casal recém-casado. Em cena, um noivo caminhando numa estrada deserta em busca de gasolina; uma noiva aguardando o retorno de seu marido. É aí que surge a pergunta: como será daqui pra frente?
Cristal para Pereio
O polêmico ator Paulo César Pereio já havia ido a Gramado para receber dois Kikitos de Ouro – a primeira vez em 1975, com As aventuras amorosas de um padeiros, e depois em 1985, por Noite – mas dessa vez é diferente. Nesta edição do evento o ator foi escolhido como homenageado com o troféu Kikito de Cristal, distinção oferecida a nomes consagrados do cinema brasileiro. Com personalidade controversa e uma das vozes mais requisitadas do país, Pereio também protagoniza Ponto Org, de Patrícia Moran, filme que também compete no Festival. Neste ano os vencedores serão anunciados por votação do Júri Oficial e Júri Popular, composto por leitores indicados por nove jornais brasileiros.
David Lynch em frente às câmeras
Neste ano, os curtas gaúchos estão chamando tanta atenção quanto à mostra principal. Com três indicações ao Oscar na categoria de melhor diretor, o norte americano David Lynch estreia agora como ator na produção Peixe Vermelho de Andréia Vigo, selecionada para a Mostra Gaúcha. Na trama o diretor e agora ator divide a cena com a atriz Sandra Dani, com roteiro seguindo a linha dos filmes feitos por Lynch, ou seja, nenhuma lógica, acontecimentos bizarros, trama sem uma linearidade convencional e atuações mais que marcantes. Para Sandra, contracenar com um grande diretor “foi um orgulho”, e ela se diz ansiosa para assistir o curta. Para quem não sabe, o diretor é responsável por obras como o Homem Elefante, Veludo Azul, Império dos Sonhos e Twin Peaks. Peixe Vermelho será exibido na quinta-feira, à partir das 10 da manhã.