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Colunistas


Anjos Vermelhos

Sexta-Feira, 06/10/2017 às 07:30, por Gilberto Cunha

Qualquer um que, pelas mais variadas circunstâncias, já tenha se defrontado com a necessidade de doação de sangue, quer seja para si próprio ou para pessoas próximas, não tem como escapar de sentir certa empatia com as mensagens e ilustrações que dão forma ao livro “Mensagens de amor, sem olhar a quem!”, que tem lançamento marcado para hoje (6 de outubro de 2017), às 9h, no espaço Drummond, nos pavilhões da 16ª Jornada Nacional de Literatura, no Campus I da UPF.

A obra “Mensagens de amor, sem olhar a quem!”, uma realização do Serviço de Hemoterapia do Hospital São Vicente de Paulo, leva a assinatura autoral da médica Cristiane Rodrigues de Araújo e da assistente social Larissa Shons. As ilustrações são do médico Ronaldo André Poerschke e contou com textos e edição da jornalista Endil Tamara de Mello. O projeto gráfico é de Joseane de Almeida Antunes e as fotos são da Caroline Silvestro e da Endil Tamara de Mello.

O livro é o resultado das campanhas “Pílula da Vida” e “Pílula do Bem”, que desde 2011 estão sendo postas em prática pelo Serviço de Hemoterapia do Hospital São Vicente de Paulo.  Essas experiências, que, agora, ampliadas, ganham forma de livro, já haviam sido, parcialmente, objeto de estudo cientifico relatado no trabalho “Projeto Pílula da Vida: uma ferramenta de humanização no serviço de Hemoterapia”, assinado pelas médicas Cristiane da Silva Rodrigues de Araújo e Simone Beder Reis; a assistente social Larissa Shons; e as enfermeiras Eliane Bianchini, Tatiane Golunski e Luciana Dagostini.

As campanhas mencionadas, conduzidas na forma de troca de mensagens, algumas assinadas e outras anônimas, entre doadores e pacientes, buscam, pela humanização do serviço de hemoterapia, valorizar o gesto de doação e motivar para que outras pessoas também se tornem doadoras de sangue, um produto sempre necessário e de múltiplos usos em hospitais, seja em atendimentos emergenciais de traumas ou nos mais variados tipos de tratamento que usam hemocomponentes.

O que se sobressai nesse livro são as mensagens, na forma textual ou por meio de ilustrações. Algumas com forte carga emocional. Em rápidas pinceladas, o leitor vai encontrar, no meio de textos mais longos, coisas como “doar sangue é celebrar a vida... um ato que dignifica o ser humano”, “espero um dia poder ajudar alguém como você me ajudou”, “agradeço aquelas pessoas que mesmo sofrendo me deram a VIDA”, “você foi a  diferença na minha vida”, “desejo mil coisas boas a você doador”, “muitas bênçãos hoje e sempre”, “somente quando precisamos e algo é que realmente temos a noção do seu valor”, “você é um doador de vida! Pessoas como você, Deus está sempre cuidando”, “doar sangue é como irrigar uma flor no jardim, uma gota de sangue salva vidas” e tantas outras do mesmo gênero.

Eu, particularmente, escolhi uma mensagem como a mais tocante. Faça a sua escolha. Eis a minha (página 12): “Você é meu anjo vermelho, teu gesto foi e é muito importante para mim. Que o Papai do Céu te abençoe e ilumine. Obrigado... levo comigo um pouco de você!”. A analogia do sangue com “Anjos Vermelhos”, feita por esse paciente, pareceu perfeita, pois, em essência, anjos são mensageiros e, nesse caso, os anjos vermelhos, travestidos no sangue, levam a mensagem da vida.

Quem já precisou de doação de sangue sabe da importância dessa campanha do Serviço de Hemoterapia do Hospital São Vicente de Paulo, cujo objetivo é a valorização e a fidelização dos doadores de sangue. Eu, que, no final de um procedimento hemoterápico, ontem, no HSVP, fui gentilmente agraciado, por uma das autoras, com um exemplar do livro “Mensagens de amor, sem olhar a quem!”, posso atestar que, pelo atendimento que tenho recebido naquele local, a humanização desse serviço no HSVP já é realidade. É por isso que, sem hesitar, reitero: lançamento hoje, às 9h, no espaço Drummond, na 16ª Jornada Nacional de Literatura, no Campus I da UPF. Prestigie!

 




A Casa de Dentro e Outras Loucuras

Sexta-Feira, 29/09/2017 às 15:09, por Gilberto Cunha

Todo (bom) escritor, que busca o aperfeiçoamento e a criação de um estilo próprio para a sua produção literária, tende ao despojamento textual. Os excessos e os barroquismos, tão característicos dos primeiros escritos de qualquer autor, são deixados de lado até que, por mais incrível que isso possa parecer, páginas praticamente em branco são suficientes para dizer tudo e mais um pouco. Luciana Lhullier, que, em 2015, havia nos brindado com o excelente “No Coração da Floresta”, atingiu esse status com “A Casa de Dentro e Outras Loucuras”, livro recém-lançado, que marca o seu retorno à cena literária local.

 

Se, no livro anterior, a escritora de textos refinados, ao iluminar o que os contos de fada têm a dizer sobre a vida real, nos levou para um passeio pelo bosque das emoções; nesse último, ela nos guia pelo caminho de volta para casa, quer sejamos crianças ou meras crianças grandes ou, ainda, que essa casa, figurativamente, esteja localizada dentro de nós mesmos.

 

“A Casa de Dentro e Outras Loucuras” é uma obra que foi produzida com esmero de ourives. Ao texto primoroso da Luciana, juntaram-se uma equipe talentosa de ilustradores ̶ Vagner de Freitas Pires (Fill Chapelleta), Giulia Cittolin, Guilherme Silveira e Daniele Stuani ̶ e a assessoria de uma publicitaria de escol, Débora Finger da Agência La Ideia, e o resultado, que não poderia ser diferente, foi um livro singular, digno, de plano, de figurar entre as melhores produções nacionais de 2017. São livros como esse, localmente escritos e produzidos, que também justificam o título de Passo Fundo como Capital Nacional da Literatura.

 

Se, outrora, ganhamos esse titulo trazendo escritores de outras plagas, embora essa troca de experiências seja sempre necessária e louvável, frise-se, também precisamos ter escritores locais que, pela qualidade dos textos escritos e da estética das obras aqui produzidas, sejam reconhecidos além dos círculos familiares e de amizade. Luciana Lhullier, a par do prestígio que goza como professora de língua inglesa, tradutora e interprete e mediadora cultural, firma-se, cada vez, como uma escritora do grupo de elite da literatura brasileira contemporânea. Nós da Academia Passo-Fundense de Letras rendemos nossos respeitos a Luciana Lhullier, à Equipe de Ilustradores e a Débora Finger pelo legado deixado à literatura local.

 

Os ensaios deste novo livro de Luciana Lhullier são do tipo minimalista, e, talvez, por isso mesmo, é que, quando somados texto e ilustração, produzam reflexões literárias inesperadas nos leitores. Os cinco ensaios que formam o livro ̶ A Casa de Dentro, Asas, Logo Atrás de Você, A Vida Secreta das Árvores e A Terra dos Sentimentos ̶ , ao suscitarem emoções das mais variadas matizes nos leitores, é que justificam o livro em questão como uma autêntica obra literária. Um texto que não desperte a emotividade do leitor, seja ela qual for, não merece o epiteto de literário. Talvez, nesse caso, não passe de um mero conjunto de palavras, por mais bem colocadas que elas aparentem estar.

 

Não quero tirar o prazer da descoberta do leitor, até porque a emotividade de cada indivíduo, diante desses ensaios, necessariamente, vai ser tocada de maneira diferente. Em rápidas pinceladas, prepare-se para se defrontar com um coquetel e emoções, que vão, desde como saber lidar, na posição de filhos, com o conflito entre o pragmatismo das mães e os sonhos visionários dos pais, até conseguir chegar, sem mapa e nem GPS, no lugar certo na terra dos sentimentos.

 

O meu preferido (leia o livro e escolha o seu), sem qualquer atrelamento às ciências agrárias, é A Vida Secreta das Árvores. Ainda que a autora não tenha explicitado (por, possivelmente, não ter sido essa a sua intenção), eu encontrei uma forte identificação desse ensaio com os textos publicados nas colunas do Dr. Jorge Anunciação, nas edições de sábados de O NACIONAl, particularmente naquelas que ele faz rememorações, de cenas vividas e de pessoas que não estão mais por aqui, sob o plátanos da Praça Tamandaré.

 




As raízes da nossa incompetência

Sexta-Feira, 22/09/2017 às 07:00, por Gilberto Cunha

Mais do que profissionais incompetentes, hoje, nos diferentes ramos da atividade humana, ainda que, no nosso meio, existam exceções notórias, parece que grassa a incompetência profissionalizada.  Essa foi uma passagem lenta (ou nem tanto) e gradual, que começou quando a lógica do lucro rápido e fácil solapou as bases de instituições, públicas e privadas, como escolas, universidades e centros de pesquisa, por exemplo, e muitos saberes, especialmente os humanísticos e aqueles relacionados ao conhecimento básico, sob a égide do pensamento utilitarista, foram considerados inúteis e, de certa forma, passaram a ser negligenciados. E atingiu o seu cume, com efeitos desastrosos, pela onipotência do dinheiro e do utilitarismo, que, julgando-se pelas notícias nos nossos veículos de comunicação, dá ares que tudo pode comprar: de parlamentares às decisões judiciais. Quando as novas representações de sucesso são materializadas em impérios empresariais criados a partir de operações fraudulentas ou na figura de políticos impunes que humilham o parlamento com a votação de matérias e leis de interesse, exclusivamente, pessoal.

Não, antes que alguém tire uma conclusão apressada, lucro não é pecado venal!  Insisto, o problema não está no direito legitimo, de qualquer empresário, ao lucro.  Mas, sem exageros, devemos voltar a colocar os fins antes dos meios. Tampouco, pode ser considerada verdade absoluta que em tempos de crise econômica tudo é permitido.  Crise não é justificativa para o mercado, em nome do interesse econômico, destruir tudo aquilo que considera inútil. Incluam-se nisso, os cortes de orçamento em áreas que são, estritamente, funções do Estado: segurança, saúde, educação, programas sociais, apoio à inovação tecnológica e ao empreendedorismo, por exemplo. Dependendo da dose, para usar uma analogia popular, o medicamente em vez de curar o paciente pode matá-lo. Mas, ninguém pode ignorar, sim: o Estado brasileiro precisa gastar melhor os seus recursos. Há coisas que podem e devem ser deixadas para a iniciativa privada, desde que a conta não seja paga com o dinheiro público, e outras não.

A lógica utilitarista do lucro, na educação, na área cultural e na pesquisa científica, pode produzir efeitos socialmente nefastos.  Não são raros, ainda que jamais assumidos, nas instituições de ensino, especialmente privadas, o corte no número de horas aulas de matérias básicas, quando da reforma de currículos, o uso de professores “improvisados” dando disciplinas que exigiriam competências específicas, o “abrandamento” na cobrança de conhecimentos nas provas e a intensificação no uso do ensino à distância (EAD), visando à redução de custos e à evasão de alunos/clientes. E sem falar no nosso empobrecimento cultural pelo cancelamento de eventos, nas artes e na literatura, que ainda dependem de apoio, quer seja público ou privado, para serem realizados. Ou, qual o preço que pagaremos, pela inovação tecnológica que não vamos gerar, pelos cortes nos fundos públicos de financiamento de pesquisa científica?  Alguém, conscientemente, pode imaginar que atingiremos o nível das nações desenvolvidas sem investimentos em ciência, tecnologia e inovação? 

Não se discute, é mais fácil e mais cômoda a percepção de utilidade em um objeto, como o computador que ora eu estou teclando esse texto, no celular que você segura enquanto lê essa coluna, na droga que você tomou para aplacar os efeitos da dor de cabeça após as comemorações do 20 de setembro, por exemplo, do que num clássico de Shakespeare  ou num artigo científico publicado em revistas tipo Science ou Nature.  Mas, não se esqueçam disso, tanto Shakespeare quanto os conhecimentos básicos descritos nos artigos científicos mencionados, estão por trás do modo de vida de muitas civilizações, que, hoje, respeitamos como socialmente evoluídas, e das futuras tecnologias que, um dia, ainda pagaremos para usar.

Sim, nossa incompetência profissionalizada tem raízes.




O príncipe e o trigo

Sexta-Feira, 08/09/2017 às 07:00, por Gilberto Cunha

O príncipe e o trigo não é uma fábula; ainda que pareça. É história real. E história da triticultura brasileira. Há dois episódios na história do Brasil que, aparentemente sem qualquer relação direta, estão ligados pela cultura de trigo. São eles: a colonização açoriana no Rio Grande do Sul e a abertura dos portos às nações amigas, feita pelo então príncipe regente Dom João.

Os açorianos foram trazidos para o Rio Grande do Sul em 1937. Receberam terras, ferramentas, animais e sementes. O governo português encorajou a produção de trigo. E assim o RS, entre 1780 e 1817, tornou-se um “exportador” de trigo. O trigo gaúcho era enviado para o Rio de Janeiro, para Salvador e para Recife e algumas colônias espanholas. Ainda que esse suposto “trigo gaúcho exportação”, tenha, em boa parte, origem mais no contrabando de países do Prata do que na produção local.

Em 1806, Napoleão Bonaparte dominava a Europa. França e Inglaterra eram os grandes inimigos. Portugal, mantendo estreitas relações comerciais com a Inglaterra, estava sob a ameaça de invasão pela França e pela Espanha. E foi assim que o príncipe regente de Portugal Dom João (Dom João VI foi coroado rei em 6 de fevereiro de 1818), pois da rainha, Dona Maria I, dizia-se, polidamente, que sofria das faculdades mentais, decidiu, sob aconselhamento, mudar-se com sua corte para o Brasil.

Para adaptar o País às novas condições políticas e econômicas, Dom João decretou, em 28 de janeiro de 1808, a famosa "abertura dos portos do Brasil às nações amigas". De certa forma, era a incorporação de conceitos de livre-mercado. Como o modo de produção brasileiro permaneceu antigo, a coroa portuguesa perpetuou a dependência da economia colonial.

A essa altura, há que se perguntar: e o trigo, onde entra nessa história? Pois bem, no RS produzia-se e exportava-se trigo. Saint-Hilaire, em seus relatos de viagem, destaca que viu, por toda parte, lavouras de trigo com excelente aspecto. Porém, após 1820 o trigo praticamente sumiu do estado (foi mantido, em pequena escala, nas zonas de colonização alemã). Somente, de fato, ressurgindo, na segunda metade do século XIX, com a chegada dos italianos na Serra Gaúcha.

Durante muito tempo apontou-se como causas do desaparecimento do trigo no RS do século XIX: (1) A falta de pagamento pela coroa (improvável como causa principal) e (2) As epidemias de ferrugem (certamente tiveram forte influência negativa na produção).

Em seu livro de 1897 – Cultura dos Campos -, Joaquim Francisco de Assis Brasil escreveu: "A tradição diz que foi a ferrugem que fez abandonar a cultura do trigo no Rio Grande." Essas duas razões não explicam satisfatoriamente o declínio do trigo gaúcho no passado. O americano Gregory G. Brown, em artigo publicado na revista The Americas (v. 48, n. 3, p. 315-336, 1991), destaca que apesar do problema da ferrugem em outros países, existindo mercado, foi encontrada uma solução. Assim, ele atribui à falta de mercado como principal causa de abandono do cultivo de trigo no RS, na primeira metade do século XIX. Pois, com a abertura dos portos brasileiros (1808) e os novos tratados comerciais (1810) entrou no mercado brasileiro uma grande quantidade de farinha de trigo vinda diretamente dos Estados Unidos. Preço, qualidade do produto e acordos comerciais envolvendo exportações brasileiras de café e de açúcar barraram o interesse e os investimentos necessários para dar competitividade ao trigo brasileiro. Diz-se que a farinha de trigo americana "inundou" o Brasil, após 1815.

Na história recente do País, uma nova abertura comercial abalou a triticultura nacional. Foi em 1990, com a saída da atuação do Estado no complexo agroindustrial do trigo – Lei 8.096 de 21 de novembro de 1990 -. E assim, o Brasil no início dos anos 1990, apesar de possuir terras, clima adequado, tecnologia própria e produtores experientes para ser autossuficiente, ou até mesmo exportador desse cereal (ainda que exporte uma parcela do pouco que produz), tornou-se um dos principais países importadores de trigo.




No princípio era o Mito

Sexta-Feira, 01/09/2017 às 07:00, por Gilberto Cunha

No princípio era o Mito, e o Mito estava com Logos, e o Mito era Logos. Ainda que guarde semelhança, essa não é uma nova tradução apócrifa do evangelho segundo São João 1:1 (No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.) Talvez seja apenas uma boa metáfora para entendermos que ciência e mitologia, ainda que não trilhem o mesmo caminho, estão preocupadas com a mesma coisa: a realidade.
Não, mesmo para um cientista, não faz qualquer sentido reviver a velha dicotomia mito versus logos. Indiscutivelmente, muito antes de qualquer ser humano adotar a razão, com o logos, para transformar o cosmo em objeto do seu domínio, o mito foi o primeiro conhecimento que o homem adquiriu de si mesmo e do seu entorno. Foi construindo mitos que o homem primitivo desenvolveu vínculos práticos com o meio em que vivia, consigo mesmo e com os pares, que lhe permitiram, contra muitas evidencias, ter sobrevivido e chegar até os tempos atuais.
Ninguém ignora que a apreensão da realidade pode se dar tanto pela via da racionalidade quanto pelo caminho da intuição. Ou pela razão e pelo sentimento. E que, em muitos casos, a realidade pode parecer mais plausível pelos enunciados da fantasia do que pelos protocolos da ciência.
A prática científica, adotando o pensamento discursivo, busca, pelas vias da sistematização e classificação, traçar as fronteiras que definem os objetos da sua investigação. A visão mítica, partindo de sentimentos e não de discursos, mostra-se sintética e analítica, ao não admitir o parcelamento do universo. Os mitos, nesse caso, são constructos simbólicos, formados por sentimento e intuição; enquanto que, razão e lógica, são os fundamentos, que, pretensamente, dão sustentação à ciência, para chegar a uma apreensão universal da realidade.
Independentemente de que haja vozes que discordem, o que o conhecimento científico nos faculta é apenas uma interpretação possível das nossas experiências sensíveis. E, ainda que essa seja a intenção da ciência, ao fornecer uma verdade excluir qualquer outra, tem que se ter bem claro que nada no universo pode reclamar uma leitura única. Mais do que o único caminho, a prática cientifica, especialmente quando fundamentada em paradigmas, que são corporativamente aceitos, deveria ser ensinada como tão somente uma concepção, entre muitas, da verdadeira realidade. Nesse caso, não se trata da realidade tomada em sentido absoluto, mas de uma imagem da realidade formatada à luz de um paradigma assumido como verdadeiro. Por isso é que soa (ou deveria soar) descabido, na prática científica, a exigência de que as novas hipóteses, ainda aguardando para serem testadas, estejam de acordo com as velhas teorias aceitas. Ou, que se tenha bem presente, que a verdade, não raro, pode ter pouco a ver com as muitas certezas da ciência. E o que chamamos de ciência pode ser apenas uma ciência entre as muitas ciências possíveis.
Lamento pela desilusão, mas ciência e filosofia, apesar de serem produções eminentemente racionais, não se fundamentam apenas na razão. Ainda que tenha sido a emergência do logos e a dissolução da consciência mítica que separou ciência e filosofia, para um lado, e, religião e arte, para o outro. Isso nos leva ao perigo da entronização da razão e que “ideologias”, pretensamente racionalistas, em nome da “boa ciência”, possam ser usadas para o extermínio de ideias que se contraponham a correntes dominantes de pensamento e de poder.
Há limites para a razão; indiscutivelmente. O êxito da ciência na solução de alguns problemas do passado, como bem frisou Paul Feyerabend em “Contra o método”, não pode ser usado como argumento para tratar, de maneira padronizada, todos os problemas que ainda não foram resolvidos. Os mistérios do universo e as impossibilidades humanas de conhecê-los, por mais incrível que isso possa parecer, reservam espaços privilegiados (e úteis) para o pensamento mítico e suas simbolizações. E assim... “o Mito pode ser o Logos!”




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