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Colunistas


As raízes da nossa incompetência

Sexta-Feira, 22/09/2017 às 07:00, por Gilberto Cunha

Mais do que profissionais incompetentes, hoje, nos diferentes ramos da atividade humana, ainda que, no nosso meio, existam exceções notórias, parece que grassa a incompetência profissionalizada.  Essa foi uma passagem lenta (ou nem tanto) e gradual, que começou quando a lógica do lucro rápido e fácil solapou as bases de instituições, públicas e privadas, como escolas, universidades e centros de pesquisa, por exemplo, e muitos saberes, especialmente os humanísticos e aqueles relacionados ao conhecimento básico, sob a égide do pensamento utilitarista, foram considerados inúteis e, de certa forma, passaram a ser negligenciados. E atingiu o seu cume, com efeitos desastrosos, pela onipotência do dinheiro e do utilitarismo, que, julgando-se pelas notícias nos nossos veículos de comunicação, dá ares que tudo pode comprar: de parlamentares às decisões judiciais. Quando as novas representações de sucesso são materializadas em impérios empresariais criados a partir de operações fraudulentas ou na figura de políticos impunes que humilham o parlamento com a votação de matérias e leis de interesse, exclusivamente, pessoal.

Não, antes que alguém tire uma conclusão apressada, lucro não é pecado venal!  Insisto, o problema não está no direito legitimo, de qualquer empresário, ao lucro.  Mas, sem exageros, devemos voltar a colocar os fins antes dos meios. Tampouco, pode ser considerada verdade absoluta que em tempos de crise econômica tudo é permitido.  Crise não é justificativa para o mercado, em nome do interesse econômico, destruir tudo aquilo que considera inútil. Incluam-se nisso, os cortes de orçamento em áreas que são, estritamente, funções do Estado: segurança, saúde, educação, programas sociais, apoio à inovação tecnológica e ao empreendedorismo, por exemplo. Dependendo da dose, para usar uma analogia popular, o medicamente em vez de curar o paciente pode matá-lo. Mas, ninguém pode ignorar, sim: o Estado brasileiro precisa gastar melhor os seus recursos. Há coisas que podem e devem ser deixadas para a iniciativa privada, desde que a conta não seja paga com o dinheiro público, e outras não.

A lógica utilitarista do lucro, na educação, na área cultural e na pesquisa científica, pode produzir efeitos socialmente nefastos.  Não são raros, ainda que jamais assumidos, nas instituições de ensino, especialmente privadas, o corte no número de horas aulas de matérias básicas, quando da reforma de currículos, o uso de professores “improvisados” dando disciplinas que exigiriam competências específicas, o “abrandamento” na cobrança de conhecimentos nas provas e a intensificação no uso do ensino à distância (EAD), visando à redução de custos e à evasão de alunos/clientes. E sem falar no nosso empobrecimento cultural pelo cancelamento de eventos, nas artes e na literatura, que ainda dependem de apoio, quer seja público ou privado, para serem realizados. Ou, qual o preço que pagaremos, pela inovação tecnológica que não vamos gerar, pelos cortes nos fundos públicos de financiamento de pesquisa científica?  Alguém, conscientemente, pode imaginar que atingiremos o nível das nações desenvolvidas sem investimentos em ciência, tecnologia e inovação? 

Não se discute, é mais fácil e mais cômoda a percepção de utilidade em um objeto, como o computador que ora eu estou teclando esse texto, no celular que você segura enquanto lê essa coluna, na droga que você tomou para aplacar os efeitos da dor de cabeça após as comemorações do 20 de setembro, por exemplo, do que num clássico de Shakespeare  ou num artigo científico publicado em revistas tipo Science ou Nature.  Mas, não se esqueçam disso, tanto Shakespeare quanto os conhecimentos básicos descritos nos artigos científicos mencionados, estão por trás do modo de vida de muitas civilizações, que, hoje, respeitamos como socialmente evoluídas, e das futuras tecnologias que, um dia, ainda pagaremos para usar.

Sim, nossa incompetência profissionalizada tem raízes.




O príncipe e o trigo

Sexta-Feira, 08/09/2017 às 07:00, por Gilberto Cunha

O príncipe e o trigo não é uma fábula; ainda que pareça. É história real. E história da triticultura brasileira. Há dois episódios na história do Brasil que, aparentemente sem qualquer relação direta, estão ligados pela cultura de trigo. São eles: a colonização açoriana no Rio Grande do Sul e a abertura dos portos às nações amigas, feita pelo então príncipe regente Dom João.

Os açorianos foram trazidos para o Rio Grande do Sul em 1937. Receberam terras, ferramentas, animais e sementes. O governo português encorajou a produção de trigo. E assim o RS, entre 1780 e 1817, tornou-se um “exportador” de trigo. O trigo gaúcho era enviado para o Rio de Janeiro, para Salvador e para Recife e algumas colônias espanholas. Ainda que esse suposto “trigo gaúcho exportação”, tenha, em boa parte, origem mais no contrabando de países do Prata do que na produção local.

Em 1806, Napoleão Bonaparte dominava a Europa. França e Inglaterra eram os grandes inimigos. Portugal, mantendo estreitas relações comerciais com a Inglaterra, estava sob a ameaça de invasão pela França e pela Espanha. E foi assim que o príncipe regente de Portugal Dom João (Dom João VI foi coroado rei em 6 de fevereiro de 1818), pois da rainha, Dona Maria I, dizia-se, polidamente, que sofria das faculdades mentais, decidiu, sob aconselhamento, mudar-se com sua corte para o Brasil.

Para adaptar o País às novas condições políticas e econômicas, Dom João decretou, em 28 de janeiro de 1808, a famosa "abertura dos portos do Brasil às nações amigas". De certa forma, era a incorporação de conceitos de livre-mercado. Como o modo de produção brasileiro permaneceu antigo, a coroa portuguesa perpetuou a dependência da economia colonial.

A essa altura, há que se perguntar: e o trigo, onde entra nessa história? Pois bem, no RS produzia-se e exportava-se trigo. Saint-Hilaire, em seus relatos de viagem, destaca que viu, por toda parte, lavouras de trigo com excelente aspecto. Porém, após 1820 o trigo praticamente sumiu do estado (foi mantido, em pequena escala, nas zonas de colonização alemã). Somente, de fato, ressurgindo, na segunda metade do século XIX, com a chegada dos italianos na Serra Gaúcha.

Durante muito tempo apontou-se como causas do desaparecimento do trigo no RS do século XIX: (1) A falta de pagamento pela coroa (improvável como causa principal) e (2) As epidemias de ferrugem (certamente tiveram forte influência negativa na produção).

Em seu livro de 1897 – Cultura dos Campos -, Joaquim Francisco de Assis Brasil escreveu: "A tradição diz que foi a ferrugem que fez abandonar a cultura do trigo no Rio Grande." Essas duas razões não explicam satisfatoriamente o declínio do trigo gaúcho no passado. O americano Gregory G. Brown, em artigo publicado na revista The Americas (v. 48, n. 3, p. 315-336, 1991), destaca que apesar do problema da ferrugem em outros países, existindo mercado, foi encontrada uma solução. Assim, ele atribui à falta de mercado como principal causa de abandono do cultivo de trigo no RS, na primeira metade do século XIX. Pois, com a abertura dos portos brasileiros (1808) e os novos tratados comerciais (1810) entrou no mercado brasileiro uma grande quantidade de farinha de trigo vinda diretamente dos Estados Unidos. Preço, qualidade do produto e acordos comerciais envolvendo exportações brasileiras de café e de açúcar barraram o interesse e os investimentos necessários para dar competitividade ao trigo brasileiro. Diz-se que a farinha de trigo americana "inundou" o Brasil, após 1815.

Na história recente do País, uma nova abertura comercial abalou a triticultura nacional. Foi em 1990, com a saída da atuação do Estado no complexo agroindustrial do trigo – Lei 8.096 de 21 de novembro de 1990 -. E assim, o Brasil no início dos anos 1990, apesar de possuir terras, clima adequado, tecnologia própria e produtores experientes para ser autossuficiente, ou até mesmo exportador desse cereal (ainda que exporte uma parcela do pouco que produz), tornou-se um dos principais países importadores de trigo.




No princípio era o Mito

Sexta-Feira, 01/09/2017 às 07:00, por Gilberto Cunha

No princípio era o Mito, e o Mito estava com Logos, e o Mito era Logos. Ainda que guarde semelhança, essa não é uma nova tradução apócrifa do evangelho segundo São João 1:1 (No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.) Talvez seja apenas uma boa metáfora para entendermos que ciência e mitologia, ainda que não trilhem o mesmo caminho, estão preocupadas com a mesma coisa: a realidade.
Não, mesmo para um cientista, não faz qualquer sentido reviver a velha dicotomia mito versus logos. Indiscutivelmente, muito antes de qualquer ser humano adotar a razão, com o logos, para transformar o cosmo em objeto do seu domínio, o mito foi o primeiro conhecimento que o homem adquiriu de si mesmo e do seu entorno. Foi construindo mitos que o homem primitivo desenvolveu vínculos práticos com o meio em que vivia, consigo mesmo e com os pares, que lhe permitiram, contra muitas evidencias, ter sobrevivido e chegar até os tempos atuais.
Ninguém ignora que a apreensão da realidade pode se dar tanto pela via da racionalidade quanto pelo caminho da intuição. Ou pela razão e pelo sentimento. E que, em muitos casos, a realidade pode parecer mais plausível pelos enunciados da fantasia do que pelos protocolos da ciência.
A prática científica, adotando o pensamento discursivo, busca, pelas vias da sistematização e classificação, traçar as fronteiras que definem os objetos da sua investigação. A visão mítica, partindo de sentimentos e não de discursos, mostra-se sintética e analítica, ao não admitir o parcelamento do universo. Os mitos, nesse caso, são constructos simbólicos, formados por sentimento e intuição; enquanto que, razão e lógica, são os fundamentos, que, pretensamente, dão sustentação à ciência, para chegar a uma apreensão universal da realidade.
Independentemente de que haja vozes que discordem, o que o conhecimento científico nos faculta é apenas uma interpretação possível das nossas experiências sensíveis. E, ainda que essa seja a intenção da ciência, ao fornecer uma verdade excluir qualquer outra, tem que se ter bem claro que nada no universo pode reclamar uma leitura única. Mais do que o único caminho, a prática cientifica, especialmente quando fundamentada em paradigmas, que são corporativamente aceitos, deveria ser ensinada como tão somente uma concepção, entre muitas, da verdadeira realidade. Nesse caso, não se trata da realidade tomada em sentido absoluto, mas de uma imagem da realidade formatada à luz de um paradigma assumido como verdadeiro. Por isso é que soa (ou deveria soar) descabido, na prática científica, a exigência de que as novas hipóteses, ainda aguardando para serem testadas, estejam de acordo com as velhas teorias aceitas. Ou, que se tenha bem presente, que a verdade, não raro, pode ter pouco a ver com as muitas certezas da ciência. E o que chamamos de ciência pode ser apenas uma ciência entre as muitas ciências possíveis.
Lamento pela desilusão, mas ciência e filosofia, apesar de serem produções eminentemente racionais, não se fundamentam apenas na razão. Ainda que tenha sido a emergência do logos e a dissolução da consciência mítica que separou ciência e filosofia, para um lado, e, religião e arte, para o outro. Isso nos leva ao perigo da entronização da razão e que “ideologias”, pretensamente racionalistas, em nome da “boa ciência”, possam ser usadas para o extermínio de ideias que se contraponham a correntes dominantes de pensamento e de poder.
Há limites para a razão; indiscutivelmente. O êxito da ciência na solução de alguns problemas do passado, como bem frisou Paul Feyerabend em “Contra o método”, não pode ser usado como argumento para tratar, de maneira padronizada, todos os problemas que ainda não foram resolvidos. Os mistérios do universo e as impossibilidades humanas de conhecê-los, por mais incrível que isso possa parecer, reservam espaços privilegiados (e úteis) para o pensamento mítico e suas simbolizações. E assim... “o Mito pode ser o Logos!”




Os deserdados do clima

Sexta-Feira, 18/08/2017 às 07:00, por Gilberto Cunha

Manifestações de racismo e discriminação de qualquer espécie são coisas que não soam bem, e ainda mais na boca do sumo pontífice da Santa Madre Igreja. Pois, consta que o papa Urbano II, no afã de incentivar os seguidores da Igreja a participarem das Cruzadas, por ocasião do Conselho de Clermont, em 1095, teria dito (em bom inglês, conforme Glantz, M. Climate Affairs. Island Press, 2003. p.44): “the blood which ran in the veins of men born in countries scorched with heat of the sun was scanty in stream and poor in quality as that which coursed through the bodies of men belonging to more temperate regions”. Para um bom entendedor, meia palavra basta. O que o homem quis dizer, resumindo, foi o seguinte: a turma dos trópicos tem pouco sangue nas veias (scanty) e, ainda por cima, sangue ruim (poor in quality), comparativamente com o pessoal das regiões temperadas.

O pior de tudo é que Urbano II é apenas uma referência histórica (talvez nem seja a mais antiga) sobre um tema que, sob a denominação de “determinismo geográfico”, ganhou corpo através dos séculos, sendo, inclusive, professado por alguns até tempos bem recentes (pra não dizer que há quem acredite nisso ainda hoje). Derrubar a concepção do determinismo geográfico, pelos menos teoricamente, é fácil. Abundam argumentos para mostrar que é uma ideia equivocada e discricionária. Mas, se a teoria é uma, a prática está aí para mostrar que a realidade parece ser outra. Independentemente do critério que se use para qualificar desenvolvimento, a maioria dos países pobres do mundo (subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, como queiram os que prezam pelo politicamente correto) estão localizados ou têm partes dos seus territórios na zona tropical. Eis a grande questão que se impõe: seria o clima tropical o elo comum e o responsável pela manutenção do subdesenvolvimento nesses países? Um sim, sem qualquer sombra de dúvidas. Um não, definitivamente nem pensar. Ou um quem sabe, pelo menos em parte. Todas essas são respostas esperáveis. Existindo adeptos e argumentos bem plausíveis para todas elas.

Os defensores do determinismo geográfico encontraram em Ellsworth Huntington, professor em Yale (USA), um referencial de peso, no começo do século 20. Suas ideias propalavam que certos tipos de clima, como os encontráveis na Inglaterra, na França e seus vizinhos europeus, bem como na costa leste dos Estados Unidos, favorecem o surgimento de civilizações de níveis elevados. São climas caracterizados por temperaturas moderadas e chuvas frequentes, criando condições meteorológicas estimuladoras. Por outro lado, também sugeriam que o clima de muitos países era a principal razão da prevalência de doenças, desonestidade, imoralidade, estupidez e fraqueza da sua gente. O Dr. Huntington andou pegando pesado com os irmãozinhos dos trópicos. Para ele: ou o sujeito tinha a sorte de nascer numa região de clima favorável ou seria uma espécie de deserdado do clima. Essas são visões preconceituosas e racistas, para se dizer o mínimo, pois, claramente, pregam que as pessoas nos trópicos são menos produtivas que nas zonas temperadas (você não pensa assim? Não me decepcione, caro leitor).

O tema clima e desenvolvimento passou a ser mais racionalmente discutido somente a partir dos anos 1970. Foi quando, com as calamitosas secas africanas, espalhando cenas de miséria e imagens de populações famintas via satélite para os quatro cantos do mundo, se passou a prestar mais atenção na recorrência de fenômenos climáticos extremos, especialmente secas e inundações, como causa de entraves ao desenvolvimento. A origem de tudo estava nas manifestações climáticas regionais, e não no seu tipo de gente. Lidar com elas passou a ser a questão crucial (embora ainda não resolvida).

O clima tropical pode ter lá os seus entraves, mas, seguramente, também é um recurso natural vantajoso. Que o digam os exportadores de frutas e quem, em agricultura, pratica duas ou mais safras por ano.




O dia que Leibniz negou Descartes

Sexta-Feira, 11/08/2017 às 07:00, por Gilberto Cunha

Quando René Descartes morreu em Estocolmo corria o ano de 1650. Em Leipzig, Gottfried Wilhelm von Leibniz, então com quatro anos de idade, assistia (com curiosidade infantil) a retirada de soldados suecos da Alemanha, tal qual fora definido pela Paz de Vestfália, assinada dois anos antes, que deu cabo à Guerra dos Trinta Anos. Selado o fim do confronto entre católicos e protestantes, restaram uma Europa dividida e uma Alemanha arrasada pelos muitos anos de luta; em que se sobressaíram como aliados vencedores França e Suécia.

Leibniz era uma criança que se destacava pela inteligência. Em 1661, com 15 anos, foi estudar filosofia na Universidade de Leipzig. Leu as obras de Aristóteles, estudou a matemática de Euclides e conheceu os trabalhos de Bacon, Hobbes, Galileu e Descartes. Fez sua tese de mestrado sobre a relação entre a filosofia e o direito, colando grau em 1664.

Consta que Leibniz ficou fascinado com a lógica e a filosofia cartesianas. Muito embora estivesse em busca de idéias próprias, que, não raro, conflitavam com o pensamento de Descartes. Na visão de Bertrand Russel (1872-1970), o pensamento de Leibniz foi forjado na tradição escolástica e estava impregnado de idéias aristotélico-escolásticas sobre o universo. E, possivelmente, esse tipo de crença impedia Leibniz de aceitar plenamente a filosofia de Descartes. Nesse contexto se pode entender a relação de amor e ódio que Leibniz demonstra ter com o legado do falecido filósofo francês. Por exemplo, quando sustenta que o princípio da dúvida de Descartes, uma das pedras angulares da filosofia cartesiana, é falso. Ao mesmo tempo, em aparente contradição, Leibniz queria aprender tudo o que pudesse sobre Descartes. Parecia obcecado pela busca dos escritos de René Descartes.

Em 1672, Leibniz foi Para Paris, encarregado de uma missão diplomática pelo barão Johan Christian von Boineburg: demover o rei Luís XIV de seus planos de conquistar a Europa, sugerindo que, em vez disso, a França deveria se lançar numa aventura militar no Egito. Não foi recebido pelo rei, mas, durante o tempo que viveu em Paris, manteve contatos com pessoas influentes; especialmente na área diplomática e científica. Aproveitou sua estada na capital francesa para aprofundar sua busca pelos trabalhos de Descartes, chegando, por intermediação de Christiaan Huygens, até os manuscritos inéditos, que se encontravam sob guarda de Claude Clerselier. E, quando teve acesso a eles, desvendou o seu mistério. No entanto, mesmo sendo conhecedor do segredo e da grandiosidade da obra de Descartes, nunca vacilou, nos seus escritos, em agredir o sábio francês. Por quê? Eis uma questão intrigante na história da ciência.

Há quem entenda os ataques que Leibniz fazia ao trabalho de Descartes como manifestação de inveja. Por suas declarações fica evidente que se comparava com o gênio francês. Outros, hoje, interpretam como uma reação à polêmica que Leibniz se viu envolvido com Isaac Newton sobre a paternidade do cálculo diferencial e integral. Queria se livrar da pecha que os ingleses lhe colocaram de plagiador ao afirmarem, entre outras coisas, que os trabalhos de Leibniz em matemática não eram “nada senão deduções de Descartes”. Por isso, buscava conhecer e, ao mesmo tempo, se afastar de Descartes. Os escritos de Descartes demonstram que ele era capaz de encontrar as inclinações de algumas curvas particulares, mas não havia desenvolvido nenhum método geral, a exemplo do cálculo diferencial de Leibniz. Ele temia ser acusado de ter explorado as idéias de Descartes. De qualquer forma, o cálculo de Leibniz e de Newton, como teoria, só ganhou sentido graças à unificação da álgebra e da geometria levada a cabo por Descartes, que possibilitou descrever gráficos usando equações matemáticas.

Leibniz retornou à Alemanha em 1676, passando o resto de sua vida servindo ao duque de Hanôver em várias funções. Foi educador, diplomata, conselheiro e bibliotecário. Viria a morrer em 1716, sem deixar descendentes.




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