ABA X Veja
Sábado, 04/02/2012 por Gilberto Cunha

ABA X Veja
Circula pelas redes sociais uma carta endereçada ao diretor de redação da Revista Veja, que supostamente (uma vez que não está no sítio internet oficial da organização) representa a inconformidade da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) com a matéria veiculada na edição de 4 de janeiro de 2012: “A verdade sobre os agrotóxicos”.  Uma espécie de contraponto e esclarecimento público sobre a preocupação trazida pelo relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), liberado em dezembro de 2011, que encontrou contaminação por excesso de agrotóxicos ou pelo uso de princípios ativos não registrados em uma série de produtos que fazem parte do cardápio do dia a dia na mesa dos brasileiros. No topo da lista, em termos de amostras contaminadas, destaque para o pimentão, seguido por morango, pepino, alface e cenoura. Mesmo que a Veja tenha pautado a cobertura em opiniões de toxicologistas e engenheiros-agrônomos com competência e autoridade amplamente reconhecidas, ligados a prestigiosas instituições brasileiras das áreas de saúde e agrárias, o entendimento dos agroecologistas é que o tratamento dado ao assunto não foi imparcial, uma vez que não oportunizou espaço para o contraditório. Evidentemente, a intenção dos editores de Veja não era ampliar o debate sobre o relatório da ANVISA.

Agrotóxico ou Defensivo Agrícola?

A legislação brasileira que regulamenta o assunto, Lei 7.802, de 11 de julho de 1989, trata como “agrotóxicos e afins” os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos usados, tanto nos sistemas cultivados, estendo-se, a partir desses, a todos os segmentos relacionados com a produção agrícola, quanto em outros ecossistemas (inclusive urbanos), cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, com o intuito de preservá-la da ação danosa de seres vivo considerados nocivos. Entram nesse grupo os inseticidas, fungicidas, herbicidas, etc. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), por meio da Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins, disponibiliza para consulta pública, desde 2003, a base AGROFIT, com informações do registro de agrotóxicos e afins de acordo com as bulas aprovadas pelo MAPA.  Na prescrição do Receituário Agronômico, recomenda-se que é imprescindível o profissional consultar o rótulo e a bula do produto registrado.

A expressão “Defensivo Agrícola” é bastante usada nos meios agronômicos, especialmente pelos profissionais que tiveram na sua formação acadêmica o livro “Compêndio de Defensivos Agrícolas” como obra de referência. Este também é o entendimento da ANDEF – Associação Nacional de Defesa Vegetal, que considera como defensivos agrícolas as substâncias utilizadas na proteção das plantações, estando estes contemplados no âmbito da mesma Lei 7.802/1989.
Os editores de Veja adotaram a visão de que o nome mais adequado, apesar da denominação expressa em lei, é defensivo agrícola, uma vez que esses produtos servem não para intoxicar a lavoura ou o consumidor, mas sim para defender a plantação de pragas em geral, evitando que ela se perca. Outros consideram que a expressão “defensivos agrícolas” não passa de um eufemismo para “agrotóxicos e afins”.

Agrotóxicos e afins no Brasil

O Brasil, até pela dimensão e importância da nossa agricultura, é um dos grandes mercados mundiais, no que tange ao consumo de agrotóxicos e afins. Não se pode ignorar que há legislação regulando o setor e que houve melhorias na conscientização dos riscos envolvidos e no destino dado às embalagens de agrotóxicos, por exemplo. Todavia, não dá para tapar os olhos para o assunto, como uma leitura apressada da reportagem da Veja pode deixar transparecer. Não é só a contaminação dos alimentos que está envolvida. O ambiente e toda a cadeia trófica devem ser considerados. Há produtos proibidos em diversos países e que ainda são comercializados no Brasil, por exemplo. Além da recomendação agronômica, em muitos casos, nem sempre ser devidamente considerada.

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A falácia dos gurus quânticos
Quinta-Feira, 02/02/2012 por Gilberto Cunha

O uso de analogias e metáforas, tão ao gosto dos cientistas, para auxiliar na explicação de assuntos que nem sempre são familiares no dia a dia da maioria das pessoas, ao mesmo tempo em que se constitui um instrumento didático poderoso também se presta para interpretações ambíguas e equivocadas, especialmente quando estão envolvidas extrapolações que vão muito mais além dos seus domínios de origem. Esse é o caso da teoria quântica, que da descrição matemática do mundo microscópico, valendo-se do dualismo onda e partícula para descrever o comportamento de elétrons e prótons, mais por nossa ignorância e credulidade que por qualquer outra coisa, tem sido usada para respaldar supostas interações corpo-mente, ao estilo das pregações dos gurus new age (Nova Era, em referência à Era de Aquário), que, segundo afirmam eles, podendo, inclusive, afetar o mundo que nos rodeia.

Alberto Rojo, físico argentino e professor da Universidade Oakland/USA, associa-se ao americano Robert L. Park, ex-catedrático do Departamento de Física da Universidade de Maryland/USA e autor dos livros “Voodoo Science: The Road from foolishness to Fraud” e “Superstition: Belief in the Age of Science”, na crítica ao uso da teoria quântica para respaldar obras de grande sucesso editorial, caso dos livros do médico indiano, radicado nos EUA, Deepak Chopra, e do bestseller “O segredo”, de Rhonda Byrnes, além do filme “Quem somos nós?” (What the (bleep) do we know?), que alcançou repercussão mundial com a cena em que uma mulher, motivada por revelações quânticas, joga fora sua medicação antidepressiva.
Muito dessa confusão começa pelo não entendimento do significado efetivo do princípio da incerteza de Heisenberg, um dos pilares da teoria quântica, cujo enunciado popularmente conhecido, induz a nós leigos a imaginar um mundo imprevisível. No entanto, Heisenberg propôs, com as suas funções de onda, exatamente o oposto.

Permitiu, com essa nova teoria, uma maior precisão (inimaginável pelos métodos clássicos) em medições sobre a localização de partículas elementares, por exemplo, tornando assim o mundo “mais certo” em vez de “incerto”. Isso, somado a outros dizeres aparentemente inteligentes, mas sem maior significação quando descontextualizados, tipo a afirmação do geneticista britânico J.B.S Haldane, que “o mundo não é apenas mais estranho do que nós imaginamos, ele é mais estranho do que nós podemos imaginar”, se presta para justificar o que na prática não passa de conversa fiada pseudocientífica, por mais que mereça o nosso respeito quem acredita e aprecia o gênero. Nem filosofia, nem religião e nem ciência, instiga Robert Park, os seguidores do movimento Nova Era, que ganhou corpo a partir da segunda metade dos anos 1970, abraçam a crença mística como um princípio unificador que abrange o espiritualismo, a reencarnação, a mediunidade, a cura holística, a astrologia, os cristais, o poder da pirâmides e muito mais.

O estratagema dos gurus quânticos é brilhante. Quem de nós é capaz de tecer, com certa robustez, qualquer comentário sobre os fundamentos matemáticos da teoria quântica? É na falta de conhecimento do público que eles se fiam para levar a diante verdadeiros disparates, mesmo que considerados apenas em sentido metafórico.

Deepak Chopra é autor de mais de 60 livros, tendo pelo menos 18 deles figurados na lista dos bestsellers do New York Times, além de ganharem traduções para vários idiomas; incluindo-se o português, com milhares de exemplares vendidos. Chopra tem uma prosa poética e um estilo capaz de provocar uma autêntica paz interior, como afirma Alberto Rojo, mas daí invocar sustentação científica baseada na física quântica, como nos livros “A cura quântica” e “Corpo sem idade, mente sem fronteiras – A alternativa quântica para o envelhecimento”, denota certo exagero, induzindo à crença que a doença e mesmo o processo de envelhecimento podem ser banidos com a força da mente. Vale o mesmo para Rhonda Byrne, que promete: “quando aprender o segredo você perceberá que pode ter, ser ou fazer tudo o que desejar”. Um clichê autoajuda que reprisa o livro “O poder do pensamento positivo”, de Norman Vincent Peale, de 1952, bastando confrontar “seus pensamentos transformam-se em coisas”, de Rhonda Byrne, com “os pensamentos são coisas”, de Peale.

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Ciclo hidroilógico
Sábado, 28/01/2012 por Gilberto Cunha

Ciclo hidroilógico
Em relação à água, no Brasil, e em particular no Rio Grande do Sul, vivemos ciclos de comportamento sem nenhuma lógica aparente. Na prática, lidamos com ciclos que são “idroilógicos” (sic). Oscilamos entre a apatia, caracterizada por despreocupação e esbanjamento de água, e estados de alerta e de decretação de situações de emergência e, no caso extremo, teoricamente, podendo até chegar à calamidade pública. Intervenção estatal e campanhas assistenciais complementam esse ciclo que, com a volta da normalidade hídrica, retorna ao ponto inicial: apatia geral.

Exemplos não faltam. Açudes vazios, lavouras perdidas, animais morrendo por falta de água, famílias de produtores rurais desesperadas, economias municipais irreversivelmente comprometidas e população urbana insatisfeita, pelo racionamento de água, são a tônica nos veículos de comunicação do RS; por ora. Não faz muito tempo, as manchetes eram outras: casas destruídas por inundações, centenas de desabrigados, com mortes de pessoas, inclusive, lavouras perdidas, estradas e pontes comprometidas e, também, perspectiva de crise econômica. Numa ocasião a culpa é de La Niña e noutra de El Niño ou, quando nenhum desses dois eventos está atuando, quem sabe, é de “La Nada”.

E nós? Temos algo a ver com tudo isso?
Águas superficiais e subsuperficiais e regime de chuvas definido existem em todas as regiões do País. Não temos desertos. Mesmo a área mais seca do Brasil, o norte da Região Nordeste, possui uma época do ano em que chove. É a famosa quadra chuvosa dos nordestinos: fevereiro, março, abril e maio. No Rio Grande do Sul, normalmente, chove em todos os meses do ano. E em quantidades superiores a 100 milímetros mensais. Anualmente, no RS, chove entre 1.300 e 1.500 mm, na metade sul; e entre 1.500 e 2.000 mm, na metade norte. O valor dessa quantidade de água, que cai gratuitamente do céu, é incalculável; particularmente para a agricultura. A variabilidade natural do clima gaúcho é conhecida. Então, não é mais que chegada a hora de criarmos uma capacidade de adaptação e convivência pacífica com o nossa clima?

Não há como fugir das evidências: guardar as sobras de águas das chuvas, que ocorrem em determinadas épocas do ano, acima de tudo mantendo essas bem armazenadas no solo (as ciências agrárias sabem como fazer isso), e/ou em reservatórios superficiais, quer sejam açudes, cisternas, etc., para uso estratégico quando a situação exigir, mesmo saltando aos olhos, não é algo fácil de ser posto em pratica.

Agricultura - Prejuízos


Segundo foi divulgado nessa quinta-feira (26) pela Emater/RS-Ascar e pela Secretaria de Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo (SDR), os produtores de milho, soja, feijão e arroz já contabilizam perdas estimadas de R$ 2.892.889.801,03. As lavouras de milho têm redução de 41,89%, seguidas pela soja com quebra de 22,33%, feijão 1ª safra de 6,47% e no arroz de 6,62%; em relação à estimativa inicial calculada com base na média histórica dos últimos dez anos.
O resgate de dados históricos, em comparação com as informações que vêm sendo divulgadas, indica que essa, dependendo ainda do desempenho da soja, pode ser a pior safra do século 21.  Tivemos estiagens severas nas safras de 2003/2004, quando foram perdidas 4,5 milhões de toneladas de milho e soja, com perdas de US$ 833,3 milhões, e, em 2004/2005, com 8,5 milhões de toneladas de grãos de milho e soja, resultando em prejuízo de US$ 1.520,00 milhões.

A próxima grande seca

A estiagem atual, oficialmente e na prática, ainda não acabou. No entanto, o momento é de nos prepararmos para a próxima grande seca, que, sem querer pousar de profeta, virá. E esse preparo começa pelo entendimento de que é o manejo de água em agricultura, envolvendo inovação tecnológica (genética e práticas culturais), que faz com que, mesmo em regiões do mundo onde esse recurso natural é escasso, os índices de produtividade (e estabilidade de produção) sejam muitos superiores aos nossos. Exemplos não faltam: Israel e Califórnia/USA, bastam para ilustrar.

Conforme o prognóstico climático, liberado pelo INMET/8º DISME e CPPMet/UFPel nessa terça-feira (24), para o trimestre fevereiro - março – abril, o verão deve continuar com precipitações abaixo do padrão climatológico em grande parte do RS.

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Um leitor a menos
Quarta-Feira, 25/01/2012 por Gilberto Cunha

Foi nas páginas do jornal do último final de semana (edição de 21 e 22 de janeiro de 2012), que, circunstancialmente, no início da noite dessa terça-feira (24), enquanto aguardava a vez de ter meus cabelos cortados no salão do Elton, na Rua XV de Novembro, deparei-me com o insólito convite para missa de 7º dia do Sr. Vidal Corá.  A singularidade desse nome, sendo bem provável não existir outro igual em Passo Fundo, fez, de pronto, com que eu me lembrasse de um senhor de aparência tranquila, que, com a serenidade conferida pelos anos vividos, um dia, no corredor de um supermercado local, perguntou se eu era o Gilberto Cunha. Diante a resposta afirmativa, disse ser leitor assíduo e apreciador dessa coluna de O Nacional, além de tecer outros comentários amáveis, que, no dia a dia de quem escreve sem outra pretensão que não seja ser lido, viram detalhes gratificantes.

Nas feiras do livro de 2009 e 2011, lancei, respectivamente, os livros “Galileu é meu pesadelo” e “A ciência como ela é...”. Nas sessões de autógrafos, ele foi o primeiro da fila. Em ambas, quando eu cheguei, ele já estava lá com o seu exemplar na mão; gentil e discreto como sempre.

Um escritor de poucos leitores consegue identificar, praticamente pelo nome, e ser grato ao seu público fiel. Em outra meia dúzia de ocasiões, trocamos cumprimentos em encontros fugazes por locais públicos da cidade. A última vez foi na sexta-feira, 6 de janeiro de 2012, na Estação Rodoviária de Passo Fundo. No meio da tarde daquele dia fui acompanhar o meu filho, que embarcava às 15 h para Porto Alegre, e, na plataforma de embarque, encontrei o Sr. Vidal Corá e esposa, que, casualmente, também tomariam o mesmo ônibus para capital. Nesse ínterim, conversamos um pouco e eu lhe prometi uma coleção da revista “Água da Fonte”, editada pela Academia Passo-Fundense de Letras, que deixei, no outro dia, no endereço indicado por ele. Não sei se ele teve tempo de receber o presente, pois desconheço as circunstâncias da sua morte. Lembro que, ainda na rodoviária, antes da despedida, de ele ter comentado que havia estado no Paraná recentemente e, algo enigmático, que “ia fazer mais um passeio, enquanto a saúde permitia”.

Essa coluna é o meu tributo de escritor ao leitor Vidal Corá. Sei e reconheço que o ato de escrever, por mais árduo que aparente ser, nunca é igual ao ato da leitura. Escrever pode ser uma mera obrigação profissional ou simplesmente para cumprir o prazo de fechamento da edição de O Nacional, por exemplo. A leitura, nesse caso concreto de Vidal Corá em relação ao colunista, é do tipo voluntária, resignada, sem qualquer obrigatoriedade em si mesma, portanto algo nobre e digna de respeito. Idolatra-se o escritor e esquecesse-se o leitor, como sói acontecer. Sou consciente disso, pois escrevo, profissionalmente, como pesquisador da Embrapa, e, voluntariamente, por satisfação e desafio pessoal, nesse espaço de O Nacional. Antes de qualquer coisa, sou um leitor que, mais além das ciências agrárias, cuja atuação profissional exige leituras nem sempre agradáveis, escolho, deliberadamente, obras e autores para serem lidos ou não.

O assunto da coluna de hoje, quando sentei diante do computador para escrever, era para ser sobre “Voodoo Science”, na acepção do caminho pavimentado para a estultice e a fraude na prática científica, conforme estabeleceu o físico Robert Park em obra homônima. Fica para uma outra ocasião. O inusitado fez com que o texto tomasse outro rumo. Embora nunca tivesse convivido com o Sr. Vidal Corá, fato que não me credencia para dizer qualquer coisa, até por completo desconhecimento, em relação à sua pessoa, rendo, nessa coluna, meus respeitos à esposa Maria de Lurdes, ao filho Marcos e aos demais familiares, reafirmando que os elogios dele, pela sinceridade que transpareciam, sempre me fizeram muito bem.

O assunto nos conduz à reflexão que sobre duas datas aparentemente abstratas, nascimento e morte, não exercemos uma ingerência maior.  A primeira, inquestionavelmente, não depende de nós. A segunda, até certa medida, pode contar com a nossa cumplicidade. Mas, como desconhecemos o que sobrevém à morte, sempre fica a esperança borgeana de que se pode viver uma experiência nova. Inclusive, em não havendo nada, isso também pode ser uma experiência nova.
Infelizmente, sei que a coluna de hoje tem um leitor a menos.

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