Trigo – Câmara Setorial
Sexta-Feira, 20/01/2012 por Gilberto Cunha

Trigo – Câmara Setorial
A reativação da Câmara Setorial do Trigo, ocorrida na última quarta-feira (18), em Passo Fundo, na sede da Embrapa Trigo, com a presença do Secretário Estadual da Agricultura, Pecuária e Agronegócio do RS, Luiz Fernando Mainardi, foi um ato simbólico, ao valorizar a importância que esta cidade, por meio de suas lideranças e instituições, teve e tem, na consolidação da triticultura gaúcha, mas, acima de tudo, um fato relevante para a busca de soluções de curto e de longo-prazo, que, reconhecidamente, permeiam as esferas pública e privada, envolvendo os diversos segmentos do complexo agroindustrial do trigo. Há uma câmara similar, que funciona, em âmbito nacional, junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Todavia, isso só reforça a importância da Câmara Setorial do Trigo do Rio Grande do Sul, no que tange às decisões que são afeitas ao governo estadual e as organizações privadas locais. Entre 2006 e 2010, fui o representante da Embrapa na Câmara Setorial do Trigo do Rio Grande do Sul e posso atestar que esse órgão, em safras passadas, desempenhou um papel fundamental no convencimento do governo gaúcho em questões tipo a equalização de ICMS para trigo entre o RS e o Paraná, evitando prejuízos maiores aos agricultores do estado e facilitando a comercialização além fronteiras.
Na visão da pesquisadora Claudia De Mori, da área de Economia Rural da Embrapa Trigo, paralelamente às câmaras setoriais, nacional e estadual, talvez seja oportuna também a criação de um Conselho do Trigo, a exemplo dos que funcionam para o leite e para a cana-de-açúcar e derivados.
 
Trigo – Safra 2011/12
As projeções do Conselho Internacional de Grãos (IGC), atualizadas nessa quinta-feira (19), indicam o crescimento da safra mundial de trigo, que, pelos dados 2011/2012, deve atingir o recorde de 690 milhões de toneladas. Os estoques globais estão sendo estimados em 204 milhões de toneladas e a expectativa, para 2012/13, é de crescimento da área cultivada em 1,7%, chegando a 225 milhões de hectares (a maior desde 1998). Espera-se, para safra 2012/13, uma produção mundial de 685 milhões de toneladas de trigo.

Massas alimentícias

Segundo pesquisa, relativamente recente (agosto de 2011), da Eumonitor, entre as 10 maiores indústrias de massas alimentícias do mundo, estão duas brasileiras: M. Dias Branco (4º lugar) e Pastifício Selmi (7º lugar). Na América Latina, há domínio brasileiro brasileiro, com 5 empresas nacionais, entre as 10 primeiras colocadas: M. Dias Branco (1ª); Pastifício Selmi (3ª); J. Macedo Alimentos (4ª); Pastifício Santa Amália (9ª); e Vilma Alimentos (10ª). A Barilla, da Itália, é a maior empresa do mundo no setor de massas alimentícias.

Trigo – Micotoxinas
A solução de um dos principais problemas da triticultura mundial (e nosso, inclusive), a giberela, como é chamada no Brasil, ou fusariose, em outras parte, que além das perdas de rendimento também produz micotoxinas, cujos níveis, conforme legislação, pode inviabilizar o produto para consumo humano e até por outros animais, a par das mais variadas medidas de proteção de plantas, talvez exija que se lance mão de uma ferramenta que tem sido refutada nesse cereal: a transgenia. Pesquisadores de Dakota do Norte/USA identificaram um gene de resistência à fusariose da espiga do trigo em outra espécie de gramínea, que, conforme os primeiros estudos com trigo durum, pode revolucionar o tema.

Agricultura Familiar
As novas regras sobre permissão, manutenção, cancelamento e uso do Selo de Identificação da Participação da Agricultura Familiar (SIPAF), contempladas na Portaria nº 6, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), foram publicadas no Diário Oficial da União (DOU) da última terça-feira (17). O SIPAF, criado em 2009 pelo MDA, identifica os produtos de origem majoritária da agricultura familiar. Há estimativas indicando que a população brasileira usa em sua alimentação diária 70% de produtos oriundos desse segmento.

Um Conselho do Trigo, a exemplo dos que funcionam para o leite e para a cana-de-açúcar e derivados, também pode ser útil; na opinião da pesquisadora Claudia De Mori.

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O julgamento de Nietzsche
Quarta-Feira, 18/01/2012 por Gilberto Cunha

Sobre Friedrich Wilhelm Nietzsche paira a acusação do assassinato de Deus. Desde que escreveu, em 1882, no livro “A Gaia Ciência”, a famosa frase “Deus está morto!” (ou “Deus morreu”, dependendo da tradução do alemão "Gott ist tot") virou o suspeito principal de um crime que aparenta requintes de crueldade. As evidências advindas dessa expressão, que não deixa qualquer dúvida sobre a morte de Deus, especialmente quando deslocada do contexto original, somadas às críticas ácidas que ele teceu à religião, à moral e à tradição filosófica do Ocidente, formaram indícios tidos como mais que suficientes para levá-lo ao banco dos réus. A defesa de Nietzsche chegou a esboçar reação, alegando que “sem cadáver, não há crime”, mas essa tese era simplista em demasia, não tendo, em função do entendimento majoritário dos tribunais, qualquer chance de prosperar; pelo menos de plano.

Os acusadores, dizendo-se embasados em princípios, mesmo sem uma fundamentação plausível, mais beirando ao arbítrio que qualquer outra coisa, eram taxativos na dedução de culpa do Sr. Nietzsche pelo assassinato de Deus. Instaurado o contraditório, coube à defesa contrapor que, em base no texto “Uma moral sem fundamento” (In.:  A sociedade em busca de valores. Lisboa: Instituto Piaget, 1996. p. 133-53), de André Comte-Sponville, filósofo materialista francês, ex-mestre de conferências da Universidade de Paris I, não havia dúvida,  que “a morte de Deus” era um tema nietzscheano bem típico. Todavia, a expressão “Deus está morto!”, tal qual tantas outras, não pode ser tomada em sentido literal. O professor Nietzsche nunca ignorou que Deus, se existe, é, por definição, imortal. Tampouco, se ele não existe, não é absurdo afirmar, até em razão disso mesmo, que também é imortal. Pois, em sendo assim, não é razoável supor que alguém que não existe possa ser morto.

Não, Deus não morreu!  Deus está bem vivo, aqui e agora, em qualquer lugar, para todos que acreditam nele; evidentemente. O professor Nietzsche não matou ninguém. Nunca teve essa intenção.  Ele fez menção a algo que, embora não sendo novo, hoje é percebido  com maior facilidade: “Deus está socialmente morto”. Isso, na acepção de Comte-Sponville, significa dizer que, individualmente, na esfera privada, podemos acreditar em Deus, mas, em sociedade, não há essa comunhão com ele.  Já não é mais possível, como outrora foi, basear “em nome de Deus” a nossa coesão social. A sociedade, em cujo seio vive os que crêem em Deus, não pode deixar de ter em consideração a pluralidade das crenças e, inclusive, respeitar também as descrenças.  A ordem religiosa e a ordem social deixaram de ser uma só. O político e o espiritual, hoje, mais que nunca, são entidades separadas. Enquanto não entendermos (ou aceitarmos isso) que “Deus está socialmente morto” e que já não podemos basear nele o valor dos nossos valores, vamos vivendo (e nada fazendo para que não seja assim) em uma sociedade onde impera o reinado da mediocridade, da decadência e do ressentimento.

Tampouco os pretensos substitutos de Deus que arranjamos numa busca apressada para fazer jus ao “Deus morto, Deus posto”, cujos exemplos notórios são a natureza, a ciência, a vida ou a história, resultaram em experiências melhores ou, quando não, inclusive, até mais perigosas e destruidoras. Precisamos é de fundamentos mais robustos para os nossos valores, que unam a ordem teórica ou epistêmica (a ordem das verdades ou dos conhecimentos) e a ordem prática ou normativa (a ordem dos valores ou dos imperativos), mesmo que para isso tenhamos de lançar mão de uma doxa heterodoxa ou até admitir que, nessa circunstância intangível, estamos diante de uma ordem una e absoluta que, conceitualmente, em nada difere de Deus.


Em tempos de “BBB” (“Salve, salve! Vamos dar aquela espiadinha!”) e “Ah se eu te pego”, em uma sociedade cujo comportamento beira ao surrealismo, mais que as frequentes e fortes dores de cabeça, o que atormenta Nietzcshe é a possibilidade de uma condenação. Afinal, conforme escreveu Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), com fina ironia, na letra do “Samba do crioulo doido”, em se tratando da história do Brasil nos enredos de carnaval, quando se mistura Xica da Silva com a atual conjuntura, para resolver a questão, alguém pode até propor que seja proclamada a escravidão.

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O dèjá vu do clima
Sexta-Feira, 13/01/2012 por Gilberto Cunha

O dèjá vu do clima
As notícias, recentes, sobre deslizamento de encostas e enchentes, causando prejuízos materiais vultosos e mortes de pessoas, além de salvamentos heróicos, que têm sido reprisados quase à exaustão pelos veiculo de comunicação, da tragédia causada pelo clima no Rio de Janeiro e em Minas Gerais particularmente, em paralelo ao drama vivido pelos agricultores gaúchos, cuja seca, decorrente de uma estiagem que assola o RS desde a primavera passada, segunda o levantamento da EMATER, já contabilizando um prejuízo de R$ 2,2 bilhões, em muitas das suas nuanças tem um ar de dèjá vu.

Há um ano, em janeiro de 2011, a região serrana do Rio de Janeiro vivia situação similar. As manchetes da imprensa, na ocasião, eram as mesmas de hoje. Já escrevi isso, aqui nesse espaço, inclusive, que um surrado script se repete, e será repetido a cada nova calamidade climática, enquanto a verdadeira causa dessas tragédias não for efetivamente atacada. Só não percebe quem não quer ver, que, por trás dos dramas vividos pelos atingidos, estão, cada qual com sua parcela de culpa, a vulnerabilidade econômica que predispõe muitos a viverem sob condições de extrema pobreza, a sanha pelo lucro fácil de especuladores imobiliários e autoridades públicas inoperantes, por omissão ou por incapacidade de fazer frente, com os recursos que dispõem, à dimensão do problema de desigualdade social que se apresenta ou a necessidade de construção de obras estruturantes. A solução definitiva exige o banimento da pobreza extrema. Ou, como quer a presidenta Dilma, UM BRASIL SEM MISÉRIA.

Seca no RS
A questão da seca que ora assola o Rio Grande do Sul, apesar de oposta, também não é muito diferente do que se analisou em relação à situação recente do centro do País. De tempos em tempos, nos cultivos de verão, seca é um fenômeno que se repete no Estado. Vamos torcer para que a atual seca não atinja as dimensões daquela de 2004/2005, embora para alguns agricultores, em cultivos como milho, feijão e fumo, por exemplo, os prejuízos já sejam irreversíveis. Sendo a causa do problema seca na agricultura gaúcha algo relativamente bem conhecido: entre setembro e março, em termos médios, a precipitação pluvial normal não atende plenamente a necessidade de água dos cultivos, que é representada pela perda combinada entre a evaporação do solo e a transpiração das plantas. E, associado a isso, a situação piora muito quando há irregularidade na distribuição temporal dos eventos de precipitação. Então, parece que é mais que chegada a hora de criarmos, definitivamente, uma capacidade de adaptação e convivência pacífica com o nosso clima. Solução tecnológica existe.
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Desafiando Deus
Recomenda-se a leitura atenta do artigo “Trigo – Contra a vontade de Deus?”, assinado por Aroldo Gallon Linhares, engenheiro-agrônomo e pesquisador aposentado da Embrapa Trigo, que foi publicado na edição dessa sexta-feira (13) do jornal Zero Hora, página 27, em espaço publicitário da empresa OR Melhoramento de Sementes Ltda. O Dr. Aroldo destaca como, usando Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), foi vencido o pessimismo do pesquisador canadense D.J. Samborski, especialista em ferrugem da folha do trigo, que, em 1975, por ocasião de visita técnica que fez ao Estado, foi taxativo em declarar, diante do que viu e de rendimentos, na época, inferiores a 1000 kg/ha, que estávamos “tentando produzir trigo contra a vontade de Deus”. Os resultados da safra de trigo 2011, em que rendimentos de lavoura acima de 4000 kg/ha foram comuns na região e, em parcelas experimentais, beirando os 10.000 kg/ha, há indícios que desafiar Deus, quando a causa é justa, nem sempre é heresia. Infelizmente, mais pela dificuldade de comercialização do trigo gaúcho que por entraves técnicos para produzir, o pessimismo de D.J. Samborski ainda contamina muita gente no nosso meio. Xô Satanás!

Nunca é demais divulgar que obras de Shakespeare e clássicos da literatura brasileira, todos os títulos de Machado de Assis, por exemplo, podem ser acessados gratuitamente no site www.dominiopublico.gov.br.

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Um “ourives” chamado Leonhard Euler
Quinta-Feira, 12/01/2012 por Gilberto Cunha

Você é capaz de perceber, tal qual Keith Devlin, professor de matemática de Stanford, que naquele aparente amontoado de letras e números, que em essência constitui a equação de Euler, pode haver tanta beleza quanto em um soneto de Shakespeare ou, ainda, considerá-la como o análogo matemático da Mona Lisa de Da Vinci ou da estátua de Davi feita por Michelangelo?  Não! E que tal o físico e cosmólogo Subrahmanyan Chandrasekhar que escreveu um livro sobre o “Principia” de Isaac Newton, onde está proposta a segunda lei do movimento, comparando-o ao teto da Capela Sistina pintado por Michelangelo? Também não concorda com ele! Então, caso você tenha cursado, pelo menos, o ensino fundamental ou possuir escolaridade equivalente, peço perdão pela desilusão, mas é provável que também não consiga apreciar, tanto quanto pensa, a beleza de uma obra literária ou de uma peça de arte.

Assim, vou me permitir à sugestão de leitura do livro “As grades equações: a história das fórmulas matemáticas mais importantes e os cientistas que as criaram”, de Robert P. Crease, filósofo e historiador da ciência, cuja edição em língua portuguesa foi publicada em 2011, pela editora Zahar. Esse texto sobre a equação (ou fórmula, segundo alguns, uma vez que não contempla variáveis) de Euler foi baseado no livro de Robert P. Crease, autor de “Os dez mais belos experimentos científicos” e chefe do Departamento de Filosofia da Universidade de Stony Brooks.

Leonhard Euler (1707-1783), matemático suíço, foi o descobridor, por volta de 1740, da equação que é considerada o “padrão de ouro” para a beleza matemática. Trata-se da famosa fórmula eiπ + 1 = 0, que, textualmente, pode ser descrita como “a base dos logaritmos naturais (um número irracional) elevado à potencia de π (outro número irracional) multiplicado pela raiz quadrada de menos um (um número imaginário) mais um é um inteiro: 0”.

Outros vão mais longe e chamam-na de “a equação de Deus”. Reúne simplicidade, elegância e beleza como nenhuma outra fórmula matemática. No terreno das curiosidades, Robert P. Crease cita no seu livro, o caso em que essa equação foi usada como evidência de prova em um julgamento criminal. Houve, em agosto de 2003, uma série de atentados “ecoterroristas” a várias revendedoras de automóveis na região de Los Angeles nos EUA. Prédios incendiados e veículos danificados com pichações tipo “bebedor de gasolina” e “assassino”. Num Mitsubishi Monteiro foi escrita a fórmula eiπ + 1 = 0. Graças a essa pista, o FBI prendeu Willian Cottrell, estudante de pós-graduação em física teórica no Instituto de Tecnologia da Califórnia. Cottrel foi condenado, em novembro de 2004, e admitiu ter escrito a equação no Monteiro. Disse, durante o julgamento: “Eu acho que conheço aquela equação desde os cinco anos de idade. Todos deveriam conhecer o teorema de Euler”.

Leonhard Euler é considerado o mais prolífico matemático de todos os tempos. A sua obra completa forma algo em torno de 75 volumes. Trabalhava muito e tinha uma memória prodigiosa, sendo capaz de recitar o texto completo da Eneida, de Virgílio. Estudou na Universidade da Basiléia e teve aulas particulares de matemática com o genial e belicoso Johann Bernoulli. Foi colega de Nicolau e Daniel Bernoulli, que o levaram para trabalhar na Academia de Ciências da Rússia, em São Petersburgo. Euler virou o matemático chefe da Academia e revolucionou as bases dessa ciência.

Foi ele que organizou chamada “análise matemática”, desenvolvendo o primeiro estudo sistemático de funções. Também se destacou como inventor de notações matemáticas. São legados dele: o uso da letra grega “π”, para a razão entre a circunferência e o diâmetro do círculo; a letra “e”, para a base dos logaritmos naturais; a letra “i”, o “número imaginário”, para a raiz quadrada de menos 1;  a notação f(x),  para uma função de x; e as abreviaturas sen, para a função seno, e cos, para a função cosseno, além do símbolo de somatório (∑).

A equação de Euler é um exemplo de concisão e retrata a forma como elementos aparentemente independentes e até incompatíveis, como números racionais, irracionais e imaginários, participam de uma unidade. Inclusive, a sua autoevidência é tamanha que levou Carl Friedrich Gauss a dizer que quem não achasse óbvia a relação eiπ + 1 = 0 não era matemático.




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