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Colunistas


Fragmentos

Sábado, 19/05/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

No último sábado almocei com enciclopédias da cirurgia geral e trauma, Drs Samir Rasslan e Roberto Saad Jr, em restaurante próximo ao Sírio. Lá frequentam artistas globais e, enquanto saía, adentrava Ricardo Boechat. Sentar-me à mesa com celebridades de meu ramo de conhecimento e trocarmos ideias sobre o passado e futuro da cirurgia e trauma, sobre os destinos das faculdades de medicina e à cerca do butim científico que deixaremos aos jovens vale mais do que qualquer certificado de conclusão de cursos. À noite perdi os shows de Erasure (a little respect), Ozzy Osborne e Marcos Valle/Carlos Lyra/João Donato/Roberto Menescal (personagens de memórias do tempo que não vivi e que constam abundantemente nos livros de Ruy Castro); todos os shows que pretendia assistir estavam com os ingressos esgotados, que pena.


Passo Fundo claudica com a estrada Transbrasiliana que há décadas aguarda asfaltamento; com a duplicação da estrada para Marau; com os tropeços do futebol profissional do EC Passo Fundo, com a timidez indesculpável do aeroporto e com a dificuldade de grandes empreendimentos ligados ao varejo se instalarem no rincão. Que é que há? Tem gente nos ultrapassando em alta velocidade e vamos ficando de lado.


Meu filho completou 27 anos em 17 de maio. Quando tinha essa idade constava 1984, o ano em que deixei de ser menino para ser homem. Havia regressado de meu período militar obrigatório em Santiago (terra de Gilberto Monteiro), tinha sido submetido a uma espécie de exílio (longe dos amigos e com pouca grana) e necessitava estabelecer o que seria da minha vida ou do resto dela. Aos 27 compreendi que, ao contrário do que imaginava, pouco conhecia da vida e que seria necessário ouvir mais do que falar, sobretudo ler. Essa introspecção permitiu que, se não soubesse claramente o que queria da vida, pelo menos eu saberia o que não querer para o futuro. O destino e os caminhos dele se assemelham aos meus e fico feliz em repassar ao meu menino as minhas aventuras e desventuras.


Encontro amigo que, choroso, revela estar convivendo com câncer de próstata. Ouço-o e repasso o que aprendi com uma verdadeira fera de convívios e ressonâncias. A fera tinha uma doença grave e estava feliz. Disse-me: “Deus gosta muito de mim; pedi candidamente a Ele que se uma bomba qualquer caísse em minha família que caísse em mim, nunca na minha mulher e filhos ou netos. Ele me ouviu e me abençoou, todos os dias agradeço em oração”. Disse então, ao amigo choroso que o capitão do time desce para o vestiário com o placar adverso de 0x4 e diz para a turma desarvorada com o resultado parcial: se agente não conseguir reverter o resultado, vamos jogar pela honra, como se estivesse 0x0. Esse é o capitão, o cara que vai dar entrevista coletiva nas desgraças, que vai dar a cara à tapa, o cara que não vai fugir das responsabilidades. Não é todo mundo que é capitão mas, todos podem ser.


É assim a vida, de observações e aprendizados. Melhor ouvir Coldplay.




Queria

Sábado, 12/05/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Aqui em Higienópolis acabei de reler a biografia de Tarso de Castro (75 kg de Músculos e Fúria) e percebi que há muitos anos (1973-74) queria ser jornalista combativo tipo Tarso e Carlos Imperial, só que esse, inacreditavelmente, não bebia e não fumava. Tarso foi um furacão, queria que ele não tivesse morrido. Na verdade Tarso não morreu, Mucinho não deixou e nem a gente vai deixar. O jornalismo de Tarso não era para ser amado tal qual o estilo de seu amigo jornalista e compositor Nelson Motta. Tarso está aí através de seu filho João Vicente, conquistando corações e a gente vai no embalo que parece ser nostalgia mas, entendo como resgate, se não histórico, pelo menos de emoções que são importantes e eu vivi.


Há um espanto à cerca de informações de que os generais-presidentes teriam ordenado execuções de militantes comunistas-socialistas que desejavam instalar uma república de teor marxista semelhante às progressistas Cuba e Venezuela. Ora, no Araguaia e no Triângulo Mineiro dos anos 70 execuções ordenadas pelos dirigentes guerrilheiros-subversivos a seus pares estão amplamente documentadas em livros históricos sem teor ideológico. Fidel e Che usaram os mesmos expedientes que Maduro aplica atualmente. Qual é o espanto? Não há inocentes no poder. Sugiro mais leitura e menos elucubrações.


Há tantas coisas que a gente queria e não foi possível; queria ser cientista, jogador de futebol (do Santos e Botafogo dos anos 1960), queria ser goleiro como Gilmar (Santos), Castilhos (Flu), Manga (Botafogo); depois vieram outros craques que iluminaram meus sonhos como Alfredo Domingo Oberti que veio do Newell´s em 1972 para o Grêmio e que além de goleador tinha um indefectível pé esquerdo, assim com outro que queria ter sido como Tadeu Ricci. Depois o meu time teve tantos que queria ter sido. Hoje o time inteiro do Grêmio é admirado, aliás, Romildo é cultuado e pranteamos Fábio Koff, o comandante, que em cuja administração conhecemos o nirvana a ponto de atingirmos espaço entre os grandes do mundo. Um dia, em 1995, quis abraçá-lo no pátio do Olímpico mas, fiquei sem jeito. Abraço-o agora, também sem jeito, em agradecimento em nome de mais de seis milhões de gaúchos.


São Paulo é assim; sexta passearei na Galeria do Rock com meu filho, amanhã tem curso de atualização no Sírio-Libanês, show de Ozzy; domingo tem Corinthians e Palmeiras no Itaquera e teatro com Jô Soares. São Paulo tem tudo e uma impossibilidade: trabalhar e viver simultaneamente. Essas duas condições são absolutamente inviáveis. Ou se trabalha, que é o a maioria faz, ou se vive sem trabalhar, que é que os endinheirados, vagabundos, alternativos ou aposentados fazem.


Queria - música de Carlos Paraná, eternizada na melodiosa voz de Carlos José na década de 1960, ere cantada pela Dona Neca, minha mãe e de outros filhos mais talentosos que eu. Ela, nostálgica, dava permanentemente a impressão da perda de um grande amor. Minha velha era assim, olhar tipo farol baixo, romântica a o extremo e frágil ao ponto de ser tocada por qualquer traço de humanidade. Nós, os filhos, ainda não aprendemos a totalidade das lições diuturnas que ela deixou. Na música de Carlos Paraná, em dado momento, descreve o que me vem “queria que o tempo parasse e que nunca chegasse o dia de chorar”. E era isso, meu pai completaria 84 anos dia 06 de maio e a saudade dói demais. Nesse dia das mães queria te dar um beijo na face e deitar a cabeça no teu colo para ouvir as histórias dos filmes românticos que marcaram tua vida.

 

Te amo, para sempre, mãe.




61, parece que foi ontem...e foi

Sábado, 05/05/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Então, atingi a sexta década, neste 05 maio. Passa rápido mas, não tanto. Em 1957 brotavam Elvis, Beatles porém em Cruz Alta os sucessos eram músicas de Nilo Amaro e seus cantores de Ébano (Uirapuru e Leva Eu Sodade), Maracangalha (Dori Caymi), Maria Chiquinha(Geysa Bôscoli e Guilherme Figueiredo, irmão do ex-presidente João Batista Figueiredo). Aos quatro anos vi meu pai embarcar para o movimento da Legalidade, aos sete anos (1964) vi pais de meus amigos de colégio serem presos por simpatia ao comunismo e às ideias de Jango-Brizola. Os festivais de músicas da Record e Excelsior levaram-me a conhecer Roberto-Caetano-Jair Rodrigues-Elis e a Jovem Guarda. Comecei a gostar de futebol através do Guarani de Cruz Alta (de Celso e Banana) e após vieram o Grêmio de Alcindo, Seleção de Pelé e Rivelino, Santos e Botafogo de uma constelação de craques. Em 1970 veio-me Silvio Santos; em 1972 Raul, Elton John. Depois vieram as namoradas, a faculdade e Airton Senna. Veio o Grêmio campeão uma, duas...tantas vezes. Em 1987 casei bem (eu, pelo menos; minha mulher, nem tanto). Em 1991 e 1994 vieram meus filhos e alcancei a plena dimensão humana.


Estava ontem no bairro Boqueirão, do Sport Clube Gaúcho e do colega Osvandré Lech. Em 1970, meu limite era o açougue do Secchi porque correr pela avenida até lá era uma epopeia para quem tinha treze anos. Depois o Boqueirão se aprofundou até o Instituto Champagnat e a granja do quartel onde meus colegas de ginásio do Cenav e eu íamos passar os agradáveis domingos de sol. Boqueirão, zona oeste de minha cidade, foi testemunha dos quase 30 mil quilômetros que corri nos últimos dezessete anos. Boqueirão ensinou-me a matutar enquanto corria e até bolar minhas aventuras no mundo da literatura.


Estou relatando essas coisas porque li que jornalistas esportivos estão divagando sobre que time do Grêmio é o melhor de todos os tempos. Pensei que é bobagem. Qual é o maior amor? Qual é a maior época de nossas vidas? Ontem convivia com meus pais e irmãos, hoje tenho minha mulher e meus filhos. Grêmio de Enio-Espinosa (Renato-China-Osvaldo-De Leon), de Felipão (Danrlei Paulo Nunes-Jardel-Carlos Miguel), Grêmio-Show de Valdo-Lima -Jorge Veras, de Tite (Tinga-Marinho-Marcelinho Paraíba), Renato (Luan, Arthur, Cebola, Geromel, Grohe). Quem é o melhor? Impossível estabelecer com certeza porque cada qual tinha suas circunstâncias de momento que inclui grana, métodos, preparação física e safra de atletas. Gostei de todos os Grêmios, até daqueles que perdiam, até daqueles que foram para a segundona e emergiram com Sandro Goiano. Amor é assim, é todos os dias. Amo minha vida porque é todos os dias.


Aos 61 anos amo todas as minhas épocas e a vida é agora. Quero aproveitar para agradecer a todos os que me presenteiam com suas amizades, com a confiança em meus serviços profissionais, que acreditam nas minhas palavras nas palestras das casas espíritas, que dispendem tempo para ler minhas crônicas e para a enorme paciência que habita em meus familiares por me aturarem no dia-a-dia sobrevivendo a mim e aos ranços de um sessentão que mal viu o tempo passar. Acreditem, continuo um meninão, com diversas cicatrizes no lombo mas, um meninão e assim pretendo morrer. Obrigado.




Sonhos

Sábado, 28/04/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Na semana passada, por um leve descuido de diagramação e por um golpe de sorte de minha parte, a crônica que escrevi saiu como se fosse de Gilberto Cunha e isso emprestou a ela o necessário verniz do academicismo e, é provável que, por essa razão, tenha sido mais lida do que o costume. Isso me fez lembrar de um acontecimento do início dos anos 50 quando Benedicto Valadares, velha raposa mineira da política, publicou o romance “Espiridão”. Tido como inculto e produtor de pérolas ao estilo do ex-presidente do Corinthians Vicente Matheus, a real autoria do livro estava em descrédito e atribuía-se ao então genro Fernando Sabino. O escritor Otto Lara Rezende acudiu: o livro está muito ruim para ser de Sabino, mas está bom demais para ser de Benedicto. Faz parte, o descuido do diagramador beneficiou mais a mim do que a Gilberto.


Em outubro de 1977 minha cabeça dançava ao “Stayn’ alive (Bee Gees), Love for Sale (Bonnye M), From Her to Eternity (Giorgio Moroder) e Yes, Sir I Can Boggie (Baccara). Meu coração rodava ao som de Peninha “Sonhos” (mas, não tem revolta não, eu só quero que você se encontre bem, saudade até que é bom, é melhor que caminhar vazio, a esperança é um dom, que eu tenho em mim, não tem desespero não, amanhã será um novo dia e certamente eu vou ser mais feliz) porque minha namorada havia me deixado por um amigo comum. O subjetivismo dos meus vinte anos indicava-me que havia sido traído duplamente. Então, escrevi num rótulo de cerveja, lá no Gageiro, a letra de Sonhos e levei para a ex, na esperança humilhante de reconsideração. O tempo passou e troquei o subjetivismo pelo perspectivismo e compreendi que antes de ser deixado havia eu deixado minha namorada, com o tempo deixei de ser aquele cara que a encantou. Ela encontrara no amigo comum o que eu havia sido. Encontro-o e conversamos muitas coisas, inclusive sobre isso, sem rancores e tratamos de maneira adulta como coisas da vida. Ela, eu e ele estamos mais felizes, certamente.


Eu tinha sonhos como, por exemplo, que meu time jogasse bacana da mesma maneira fora de casa como dentro de nosso estádio. Sonho que se realiza. Também sonhava na possibilidade de que o país encontrasse o rumo na política. Agora vemos a luz, quando maus políticos, de todas as plumagens, estão em rota penitenciária. É gente do PT, PMDB, PSDB, PP...gente da irregularidade sem fim. No começo acena-se com ideologia; depois acena-se com intuito de salvar grupos; por fim, a tentativa de salvar a própria pele. São gentes diferentes da gente, mas estão indo embora. Cadeia para todos os gatunos.


Estou relendo Tarso de Castro, de Tom Cardoso (75 kg de Músculos e Fúria) que recebi autografado em 16.10.08. Sinto-me como se Rio houvesse vivido e percebo ainda uma vez a importância desse cara no cenário jornalístico de uma época de privação de publicações que emitissem perigo real e imediato ao governo militar. É na coragem, na habilidade, na inteligência e impetuosidade que Tarso se fez respeitado e amado por lindas mulheres e autoridades do meio jornalístico e político. Foi invejado e odiado por alguns. Faz parte da vida dos que sobrenadam. Orgulho em escrever crônicas no jornal da família Múcio de Castro.




Viracopos

Sábado, 21/04/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Interessante e instigante a cidade que escolhi para viver, constituir família e trabalhar. Talvez até para morrer. Há coisas que fluem como a Jornada da Literatura, Festival do Folclore, BsBios, hospitais e toda imensa rede de atendimento à saúde, grande setor de comércio atacadista e do varejo, universidades, centros de ensino, Boka e Natus, entre tanto que se poderia contar. Há coisas, no entanto, absolutamente broxantes como o aeroporto que não anda (e nem voa), como o entrave da Havan num trajeto de regularização enigmático semelhante à instalação do shopping Bourbon, entrave do uber, como o EC Passo Fundo que a cada ano claudica. Diz Valdez Ludwig que é fácil perceber quando um segmento vai quebrar: é quando esse segmento tenta bloquear a entrada de serviços inovadores como, por exemplo, quando as carruagens do Rio tentaram barrar, há mais de cem anos, o surgimento dos automóveis e dos chamados “carros de praça” – taxis e seus choferes. O incompreensível, para mim, é saber a resposta do porque os jogadores que vêm tentar a sorte no gramado do vermelhão jogam mal ou mais ou menos aqui e brilham em outros ares. Interessante que é saber porque não conseguimos eleger deputados federais, como perdemos a instituição do exército, como deixamos fluir entre nossos dedos o grande time da UPF Zamil que encantava o estado há mais de dez anos. Perdemos as melhores casas noturnas da região como Cacimba, Urso Branco e outras que poderíamos citar sem mesmo ter colocado nossos pés ou nossa grana.


Mesmo assim amamos a cidade e seus encantos. Batemos no peito para listar valores individuais que por aqui se projetaram mesmo sem terem nascidos no rincão: Felipão, Daniel, Bebeto, irmãos Pontes, Roberto, Santarém, Carlos Simon, os irmãos Endres, Teixeirinha, Osvaldir e Magrão, Jorge Salton, Manuela Spessatto, jornalista Roberto D’Ávila e até mesmo Jayme Caetano Braun, entre tantos. Há infinidade de políticos que deixaram suas marcas na nossa cidade como Brizola, antecessores de Getúlio. Nossa cidade também apresenta cenas inquietantes como a da revolta dos motoqueiros, como a não permissão da entrada de Luís Inácio e seus quarenta companheiros, como a visita de ser extraterrestre e uma cadela dar luz a gatinhos, sem falar no “cadeirudo” que surgiu num baile de rodeio da Roselândia e que teria valsado com moçoilas alegres.


Nessa rica cultura de histórias e estórias fiquei a pensar no aeroporto de Campinas e ao olhar as instalações do Lauro Kortz. É como se viajássemos no tempo e retrocedêssemos ao tempo das gaiotas que circulavam na Rua do Comércio (Avenida Brasil), ao tempo que churrasqueávamos no Geremias ou na Galeteria do Lago, tomávamos chope no Maracanã e experimentávamos o sanduíche aberto do Gageiro. Acorda Passo Fundo, é tempo de andar para frente.




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