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Colunistas


Graça & Desgraça

Sábado, 11/08/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Graça
Hoje irei à Bienal do Livro (Anhembi) e certamente vou me deliciar, mesmo na ausência da Saraiva que passa por apuros financeiros. Mas, já adquiri e estou a ler Eduardo Bueno (Brasil, uma história – cinco séculos de um país em construção), naquele estilo peculiar de contar história sem ser maçante. Vou garimpar, há um mundo a ser lido e vivido.


Adquiri para meu filho a série Grandes Diretores no Cinema (Folha) que iniciou com Ingmar, Orson Welles e Truffaut. Ramon vai para o terceiro curso na AIC (Academia Internacional de Cinema) e o filme em que foi diretor de fotografia (O Azul do Nosso Mundo), filmado em Passo Fundo concorre em Gramado, Brasília, SP e Rio para prêmio de melhor curta. Outro filme Hoje Acordei Querendo te Ver foi dirigido por ele, aqui em SP. Ainda, O Último Trem, da Old Dog foi indicado como melhor videoclipe independente de 2018 por júri especializado de São Paulo, gravado que foi em Santa Catarina e RS, com a participação do famoso ator-diretor Emiliano Ruschel. É um começo promissor numa família em que há uma escritora (Georgia), um cineasta e um pretenso cronista.


Leio que José Artur Machado, o Petit (menino do Rio, calor que provoca arrepio), menino loiro sarado, cabeludo, dragão tatuado no braço, modelo fotográfico e que hipnotizara Caetano a compor Menino do Rio para a novela Água Viva completa 35 anos de seu suicídio aos 32. Sofreu um acidente de moto e restou parcialmente sequelado; não suportando a ausência do mar, da areia e das mulheres enforcou-se com a faixa de judô em seu apartamento em Copacabana. Esta semana perdemos Guilherme Lamounier aos 67 anos, esquizofrênico e com pneumonia. Suas músicas foram gravadas pelas Frenéticas, Zizi Possi, Fábio Júnior, entre outros. A mais famosa é Enrosca (enrosca seu cabelo no meu peito e geme, o dia está nascendo e nos chamando prá curtir com ele...). Não é graça suas passagens e sim a maneira suave que suas performances, em algum momento das nossas vidas, tornaram-na mais palatável.


Desgraça
O Brasil conta com quase 800 mil apenados nas diversas penitenciárias e nela abriga 74 facções criminosas. A população carcerária cresce numa taxa de 8% ao ano. Os chefões Nem, Fernandinho Beira-Mar e Marcinho VP contam com 37 advogados, visitas íntimas e sociais que fazem o leva e traz de ordens e movimentos. O Ministro Jungmann declara que há ideia de um sistema único de segurança integrando as penitenciárias federais (em que não há problemas, sic) com as estaduais (cheia de problemas, sic), o parlatório em que todas as conversas serão gravadas (achei que isso já existia) e que o meliante punido em regime fechado cumpra toda a pena engaiolado. Só para constar, um presidiário tem um custo médio de R 2,4 mil ao mês. Ao mês, enquanto um estudante do ensino médio custa R 2,2 mil ao ano. Ao ano, é o que você leu. As farras dos chefões são pagas de alguma maneira com o seu dinheiro e o meu, caro leitor. Chegará um dia em que as crianças ao nascerem receberão um chip subcutâneo que permitirá controle absoluto pelo estado e o marginal em via de cometer delito será autodenunciado e deletado automaticamente numa combinação de Leviatã (Thomas Hobbes) e Contrato Social (Rousseau) numa prova, que não necessita de segunda instância, de que não somos capacitados a viver de forma solidária.




Mundo empresarial

Sábado, 04/08/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Todos dizem que o empresário brasileiro é, antes de tudo, um valente. Percorre a imensa estrada da burocracia para abrir uma empresa e, após esse ato de desassombro, paga pesadíssima carga de impostos para manter seus funcionários. Além disso, enfrenta os percalços da variação cambial e os acessos de tosse da política econômica dos ministros que conduzem a área econômica do país. O segredo dos profissionais das empresas bacanas é: contratar gente melhor do que eles e deixar essas pessoas brilharem. O contrário disso é contratar pessoas piores do que os empresários para não fazer sombra aos chefes. Isso transforma a vida dos subordinados num inferno. Contratar gente ruim significa, para o chefe, ter que trabalhar mais e de uma maneira muito menos inspiradora – ele terá que fazer seu trabalho e também, em grande medida, o do funcionário. Em muitas empresas existem três castas de funcionários: os que possuem certidão de pertencimento (filhos de alguém), direito de matrimônio (você é casado com alguém) ou por direito de indicação (apadrinhado de alguém) – Adriano Silva, treze meses dentro da TV – Editora Rocco.
Minha filha se forma em Relações Internacionais (curso realizado na FAAP – Fundação Armando Alvares Penteado – SP) e trabalha numa fundação de Ruth Cardoso de Mello em que prospectam projetos ligados à aplicação em área social. E o mundo acima descrito suscintamente demonstra alguns dos desafios que Georgia enfrentará quando representar empresas no Brasil. Ela é valente, foi ao velho mundo aos dezessete anos desacompanhada, depois ao Canadá, depois à Colômbia. Encarou São Paulo onde ninguém é deveras importante, onde há minúsculos guetos de solitários, onde o dia se torna pequeno e anoitece cedo demais assim como o amanhecer é supérfluo para uma cidade que nunca dorme. No meu mundo empresarial-familiar os filhos devem ser melhores dos que os pais, é o que almejo. No meu caso ser melhor do que eu não deve ser muito difícil mas, fico feliz. Também trabalho para que meus alunos sejam melhores. Não é bom sinal que um aluno saia pior do que o mestre. Parabéns a minha menina, que tem todos os méritos pela trajetória, a gente somente deu suporte para o vôo. E ela não decepcionou, ao contrário, enche de orgulho toda a família.


Fora disso, leio que meliantes, mesmo enjaulados, dão as cartas a seus asseclas para movimentar o mundo da maracutaia e dos interesses escusos. Exemplo que tem escola no mundo dos traficantes de drogas que ditam ordens da prisão. A perpetuação no poder enreda alianças tido como improváveis – não há vácuo no poder, o poder será ocupado. E os eleitores não percebem como a coisa toda se desenvolve. A maioria sequer reclama. As redes sociais e os jovens deverão fazer a diferença nessa eleição de outubro. E farão aquilo que nós velhotes não soubemos conduzir.




O idoso e a TV

Sábado, 28/07/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Tenho atividades além da cirurgia e uma delas é atender casas de pacientes idosos. Essa semana chamou a minha atenção o fato de que durante o jornalístico Bom Dia Brasil, em que se noticiava alagamento no Laos e incêndios na Grécia, os idosos, uns com Alzheimer e outros simplesmente senescentes, fixavam os olhos na telinha, mesmo que o volume do aparelho estivesse baixo. Eles prestavam atenção porque a TV falava com eles e mesmo que não pudessem responder e argumentar com os locutores havia a ponte da comunicação num mundo alheio onde poucos se aventuram a falar com pessoas velhas ou pessoas velhas-doentes. Há em cada ser humano, mesmo que de forma velada, a ideia de sermos importantes e para essa certeza há a necessidade precípua de alguém que testemunhe, ou seja, precisamos de um parceiro(a) que nos considere importantes tanto quanto nós pensamos ser. É por isso que casamos, é por isso que buscamos alguém na multidão. Então, estamos no futuro onde, desobrigados de aturar os velhotes colocaremos a mídia, o robô para conversar com eles, tipo o computador HAL de Stanley Kubrick em 2001, Uma Odisseia no Espaço. Há uma vantagem nisso tudo: a máquina por não ter ressonâncias humanas pode ser exata e não causar decepções, nem amarguras e nem abandonos.


Sou um cara tal qual você, com qualidades e defeitos tal qual você. De umas coisas me orgulho e de outras teria vergonha de contar; tenho a esperança de ter mais pontos positivos do que negativos e minhas cicatrizes levam histórias de superações. Sou filho da superação da menos valia, sou filho de pessoas pobres. Temos, no outono da vida, causos para serem ouvidos. Os causos que interessam são aqueles em que necessitamos superar entraves. Minha mãe foi ao cinema pela primeira vez em 1941, quando tinha nove anos. E foi assistir um filme de 1931 chamado Luzes da Cidade (Chaplin); minha velha que estaria de aniversário dia 25 de julho, ouvia a radionovela O Direito de Nascer (aquela estória de uma mulher que entregou seu rebento para uma cozinheira negra criar e o rebento cresceu, estudou em escolas e universidades públicas e se tornou um médico famoso) e sonhava em ter um filho com trajetória parecida. Por que sei disso? Porque ela me contou, assim como me contara milhares de sonhos e expectativas nunca atingidos. As nossas lidas somente têm valor quando são noticiadas para nossos descendentes.


PS -Roger Machado caiu como profetizei há dois meses quando estava em São Paulo. Primeiro porque não se faz um time com a contratação de jogadores a granel; segundo porque jogador não entende de overlapping e ponto futuro. Jogador entende ordens simples e grande parte does treinadores segue um academicismo teórico que não se aplica no dia-a-dia. Treinador tem que ter o atleta sob controle e ler sua mente; senão é melhor criar um dispositivo semelhante à TV da casa dos idosos e hipnotizá-lo sem maiores explicações.




Complexo de Papaéo

Sábado, 21/07/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Percorro a Livraria da Vila, no Shopping Higienópolis, e vejo a exposição da vários títulos do falecido autor americano Philip Roth, do qual li somente O Complexo de Portnoy. Interessei-me por esse autor quando pesquisava O Violinista do Telhado, de Gogol, numa fase em que queria me aprofundar sobre a questão inenarrável da fé judaica. Tanto O Violonista quando Portnoy mostram a questão do desiderato da religiosidade ou da missão ou superação das armadilhas da vida tendo como cláusula pétrea o ser superior que nos submete a desafios que serão superados na exata proporção da dimensão da compreensão dos desígnios divinos. Portnoy, com severos problemas familiares envolvendo sua mãe, cai em desgraça pessoal quando deriva de sua linha de conduta moral por abalos dos instintos sexuais primitivos. Muitos gostam de ler os autores quando são póstumos, engraçado isso. É como dissessem: Jorge, só estou esperando você morrer para começar ler tuas crônicas.


Percebo ilhas de pessoas postando cartazes de protestos contra os três poderes. O executivo fraco, derivado de uma aliança entre o partido dos trabalhadores vendilhão de esperanças e o movimento democrático brasileiro, eterno aproveitador do exercício do poder. O que poderia resultar dessa composição (Baloy e Fábio Bilica)? A queda é iminente, aparentemente. O legislativo repleto de canalhas em que a minoria não está enredada em locupletações ou desvios de dinheiro público. O judiciário nessa eterna onda de condenar-inocentar, de prender-soltar, palco odioso de vinculações políticas-ideológicas em que reverberações sofismáticas envergonham o cidadão comum, aquele que acorda antes das seis e volta depois das dezenove horas e pela TV percebe mais um escândalo envolvendo os poderes que nos representam, escândalo de hoje maior do que de ontem.


Ao enxergar as ilhas de revoltosos lembrei de Heron Domingues e seu personagem Papaéo (Botelho Pinto Papaéo), aquele que tinha o corpo fechado e que nada de mal poderia acontecer a ele. Somos assim, vamos levando na pilhéria todas as empulhações que os engravatados de Brasília vão destilando a nós. E de uma maneira natural vamos sendo apresentados aos candidatos à presidência, ainda a serem homologados: Ciro (o inexpressivo), Marina (a cíclica), Bolsonaro (que muitos admiram mas, têm vergonha de admitir). Para espanto de nós mas, não dos que habitam o andar de cima, há uma aliança costurada entre o PSDB (de FHC) e PT (do presidiário) – chamado de centrão - para interromper a curva ascendente de Jair Bolsonaro. O tempo de exposição nos veículos de comunicação para os pretendentes de cargos executivos não tem grande importância diante da mídia social. Podemos escolher entre o chega-disso-tudo-que-aí-está ou continuarmos Papaéo, o do corpo fechado, o da pilhéria.




Para pensar, enquanto aguardamos o final da copa

Sábado, 14/07/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

“Favoritismo em futebol é desculpa para adversário” (Emerson, jogador)
“Em futebol é necessário atacar como time grande e defender como time pequeno” (Zagalo)
“Quando o jogador passa pela imprensa sem tirar os fones do ouvido é porque perdeu a posição” (Darci Filho, repórter)
“Jogador de futebol não pode ter posição fixa – futebol não é loteamento” (João Saldanha, técnico e jornalista)
“Os jogadores de futebol nunca sabem porque são substituídos até que se tornem técnicos (Bobby Robson, técnico inglês)
“Em futebol é assim: se eu andar sobre as águas vão dizer que não sei nadar” (Berti Vogts, técnico alemão)
“Futebol não dá prestígio político; Mussolini foi campeão do mundo e morreu enforcado” (João Saldanha)
“A diferença no futebol entre um jogador caro e um barato pode ser só o preço” (Ibsen Pinheiro, dirigente, político e jornalista)
“Conheço duas pessoas com muita sorte no futebol: Pelé e eu (Ênio Andrade, técnico de futebol)
“Quase toda criança ganhou uma bola de futebol na infância – parece que muito jornalista de futebol foi aquela criança que não ganhou a bola” (Dunga, técnico de futebol)
“Tem técnico de futebol que fala, tem técnico que grita, tem técnico que caminha e - quando perde – tem técnico que marcha” (Carlos Nobre, humorista)
“O único exercício intelectual de um jogador de futebol é assinar a súmula” (Carlos Nobre)
“Em futebol não existe clássico meigo” (Abel, técnico)
“Já se sabe antes o que vai acontecer com uma equipe de futebol ruim quando entra em campo motivada: vai perder – motivada (Luis Carlos Silveira Martins, ex-dirigente)
“Das coisas menos importantes da vida, o futebol é a mais importante” (ditado popular)
“Qualquer menino pode jogar futebol apenas com uma parede como parceria e, por isso, é o titular de todos os jogos da infância” (Jorge Valdano, técnico de futebol)




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