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Colunistas


Pensando bem

Sábado, 19/01/2019 às 06:00, por Jorge Anunciação

Ainda Ontem Chorei de Saudade é uma composição de Moacir Franco e que foi eternizada na voz de João Mineiro e Marciano, assim como Viola Está Chorando. Era um sertanejo-caipira-brega que encantava os seresteiros, músicas que oferecíamos às namoradas como as de Marcio Greyck, Roberto Carlos, Benito di Paula, LuisAyrão, Paulo Sergio...


Pela longa estrada da vida vamos aprendendo porque se assim não for, não há sentido nem na estrada e nem na vida. Então temos a saudar os brancos cabelos, o cenho, a coluna que verga, a visão que se faz fugidia, o ouvido que não ouve. Ficamos contemplativos e serenos, é assim.


Dessa forma fiquei a matutar sobre três palavras que usamos à exaustão e de maneira extremamente exagerada.
A primeira é Deus. Usamos Deus em tudo, no sucesso e insucesso, nas possibilidades e terceirizações de nossas condutas: se Deus quiser, Deus não quis assim, Deus dará...Deus dará. Peço a Deus que esse ano seja bom. Erguemos nossos braços para o céu e solicitamos sua intervenção para obtermos o sucesso. Creditamos a Deus tudo...dinheiro, sucesso...queremos tudo isso de Deus, mas não raramente não movemos uma palha para esse desiderato. Deus é algo muito especial para o cotidiano e deve ser invocado em ocasiões que sobrepujam nossas competências e não para coisas corriqueiras.


A segunda é amor. Usamos demais quando, na verdade, amamos menos do que deveríamos; amamos nossos pais e filhos, nossos irmãos e nossos companheiros de estrada. Amor é torcer pelo sucesso alheio; dizem que amor é gostar tanto de outra pessoa, a despeito de seus defeitos, a ponto de não passar na cabeça a ideia da substituição. Amar é contribuir positivamente, jamais dividir. Paixão seria quando a pessoa com quem nos envolvemos é absolutamente isenta de defeitos, tem tudo de bom, até seus odores mais pérfidos. Se fosse padre jamais casaria casais apaixonados porque a paixão pode ser chuva de verão. Querem casar porque estão apaixonados? Ora, voltem em quatro meses para conversarmos novamente.


A terceira é a palavra amigo. Como reconhecer um amigo de verdade? Uma das formas de identificar é pela postura dele quando enfrentamos nossos demônios. Um amigo se adianta, apresenta-se, não deixa que tenhamos que nos humilhar para pedir ajuda; ele se oferece, abraça e pergunta candidamente: o que está acontecido contigo, meu velho? Quantos temos assim? Para quantos somos assim? Chamamos muitos de amigos, temos milhares deles nas redes sociais, será verdade?


Três palavras curtas e intensas, três palavras que usamos à exaustão. Pensando bem, exageramos enormemente em seus empregos. Nem tudo é de Deus, nem tudo é/foi amor e amigos são pouquíssimos, infelizmente. Não é verdade?




Superboy

Sábado, 12/01/2019 às 06:00, por Jorge Anunciação

Os meus primeiros treze anos (1957-70) foram vividos em Cruz Alta, infância-adolescência, de milhares de recordações. Entre tantas, ocorreu-me a leitura dos gibis da Disney, onde eu tinha medo do Mancha Negra e os super-heróis da EBAL (Editora Brasil-América Limitada), que tinha laços publicitários com a editora argentina Editorial Abril de César Civita, irmão de Victor que viria criar em 1950 a Editora Abril, em São Paulo. A EBAL era tudo de bom desde que em 1947 havia lançado Superman, tinha tiragem de até 150 mil exemplares e 40 títulos mensais. A gente lia de tudo, Tarzan, Cavaleiro Negro, Buffalo Bill, Kit Carson, Buck Jones, Roy Rogers, Mandrake, O Príncipe Valente, Batman, Zorro... Meu preferido era O Fantasma e seus mistérios “o espírito que anda”.
Depois surgiriam Thor, O Capitão América, O Homem de Ferro, O Incrível Hulk, Namor, o Príncipe Submarino, todos da Marvel Comics e lançados no Brasil em 1967 com grande campanha publicitária. Meus irmãos e eu ganhamos camisetas com as estampas dos novos heróis; a minha era do Homem de Ferro, meu irmão Renato tinha Capitão América, Binho tinha Thor, enfim é o que a lembrança me traz.


Em dado momento surgiu a edição de Superboy e ficamos confusos porque havia dois, Superman-Superboy que pareciam ser diferentes. Não sabíamos que um era a infância do outro. Alguém de meus mentirosos amigos revelou que tinha um exemplar em que os dois se enfrentavam. Quem vencera? O dissimulado amigo não contava. Estabeleceu-se a celeuma. Afinal, quem venceria esse confronto? O Superman ou Superboy? O homem ou o menino?


Numa lembrança de gibis de há mais de cinquenta anos podemos abordar a questão da luta que travamos entre os homens que somos e os garotos que deixamos de ser. Em alguns momentos de nossas vidas o garoto se manifesta: num grito de gol, numa festa entre antigos parceiros, ao ouvir músicas dos nossos tempos. Nesses instantes sublimes e inocentes brota o melhor de nossas essências, quase o contrário da pele cascuda do homem feito, repleta de cicatrizes, marcas de lutas ferozes, de vitórias e derrotas, de alegrias e tristezas, de encantos e desencantos que moldaram o que somos. E o que somos? Sisudos, críticos, amargos; perdemos o brilho dos olhos, o preto dos cabelos, a cadência das artériase, muitas vezes, o gosto pela vida. É a vida e a rigidez que nos é imposta. Às vezes, maciamente, o Superboy que nos habita se manifesta e somos felizes novamente porque protegidos pela capa-armadura da inocência nos permitimos ficar extasiados com pouca coisa.


É, quero dizer que também tenho um gibi secreto de Superman em que Joe Shuster e Jerry Siegel (seus criadores) contam o encontro beligerante entre ele e Superboy. Nele é narrado que Superboy vence; vence pela pureza, pela inocência, pelo encantamento. A criança que nos habita deveria ser libertada mais frequentemente porque, pelo menos, em alguns instantes,ficamos mais próximos da imagem do Criador.




Pra falar da alma

Sábado, 05/01/2019 às 06:00, por Jorge Anunciação

Um cronista ou um projeto, como sou, tem alguns fãs que comentam meus dizeres; alguns dão palpites...um cronista que se leve a sério não deve abusar da inteligência alheia e estabelecer ditames concludentes sobre qualquer assunto porque suas conclusões se baseiam em vida vivida e perspectivas, além de insights do subconsciente aliado a um estado de coisa que não é mas que gostaríamos que fosse. Dessa salada saem nossas opiniões que em boa parte das vezes mudam, oscilam de acordo com ideias de outras pessoas. Confesso que em poucos dias não lembrar de que tema abordei.


Bem, uma médica morreu de câncer aos 40 e deixou postada mensagem poderosa sobre a vida que vale a pena e que nada tinha a ver com a que tinha vivido. Aconselha a seguir os instintos dionísicos de festas e contemplação do belo, do belo do cotidiano, do belo da chuva e do sol, das estrelas e da música, da arte e dos bons amigos, dos livros e poesias. Uma vida de qualidade é aquela em que dispomos o tempo para fazermos o prazeroso que em muitas vezes é uma graça, de graça, sem dinheiro na jogada. Assim, sobre esse assunto, abordou-me um camarada na casa espírita constatando que sua vida não tinha qualidade. Numa rápida análise percebi que suas atividades rotineiras eram repletas de momentos dos quais não restavam jactância. Em outras palavras, fazia coisas que não gostava e gastava muito tempo em desfavor de coisas que apreciava mas, que não dispunha de tempo para usufruí-las. Exemplos: apreciava ouvir músicas, mas não tinha tempo para isso; adorava caminhar com sua esposa, mas não tinha tempo disponível; fazia-lhe bem dançar,mas...Como reconhecer vida de qualidade se não tem qualidade de vida?


Outro disse-me curioso em saber o que havia sido em outra existência. E, antes de prosseguir, esclareço não suportar ideia de estar fazendo proselitismo sobre estado espiritual; apenas escrevo sobre meu desiderato...todos têm um - nada entendo sobre regressão ou terapia de vidas passada. Contei minha experiência pessoal, minha auto-hipnose espontânea ou não deliberadamente provocada. Em transe, sonambúlico, fui introduzido em uma sala onde havia uma grande mesa ocupada somente por uma menina de aproximadamente 25 anos; ele estava me aguardando e demonstrava ansiedade e nervosismo, eu também. O encontro estava agendado de comum acordo, mas eu não tinha consciência disso. Ela levantou e ficou me mapeando com seu olhar de curiosidade, eu nunca havia visto aquela pessoa e era-me tão familiar. Compreendi na contemplação e silêncio que estava diante do que havia sido em outra vida; sim, eu fora uma menina em outra existência e ela examinava seu futuro, ou seja, eu era seu futuro, era o que ela viria a ser em sua próxima existência. Ficamos à autoanálise em silêncio e percebi que ela havia morrido com aquela idade, 25 anos, de causa traumática, talvez mal atendida, talvez atendimento demorado e ineficiente. Disso tudo ficou-me a certeza da razão de ser médico do trauma e porque habitam em algumas virtudes, que imagino ter, as ressonâncias femininas, como a sensibilidade, romantismo e respeito à condição da mulher. Coisas minhas, de minhas escolhas pessoais. Na verdade, embora orgulhoso, não nasci para ser apenas médico. Ser médico é apenas minha profissão, devo ser maior do que ela, devo ser pessoa, devo ser gente.
Disseram-me gostar quando escrevo sobre músicas, filmes, políticas ou fatos históricos. Mas, alguém tão cândido, de olhar sofrido pediu-me e assenti...doutor, minha mãe gostaria que eu dissesse ao senhor pra falar da alma, fala da alma, doutor...




Sobreviventes

Sábado, 29/12/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Ano entra-sai-entra (sem conotações sexuais) e quedamos a fazer balanço de nossas atividades. Quando observamos o mundo profissional compreendemos cada vez mais que somos apenas aquela sequência de onze números a que denominados CPF, em outras palavras, números facilmente substituíveis ou quase descartáveis. Em um momento somos o que somos (nas nossas imaginações somos eternos nas funções que exercemos) e em outro momento estamos de pijamas ou em qualquer banco de nossas praças tratando de reminiscências. Ao olharmos a vida social percebemos que nossos laços, na maioria das vezes, estreita-se ao ponto de ficarmos praticamente convivendo diuturnamente em âmbito familiar. As festas de grupos profissionais ou pessoais vão ficando sem graça; até as comemorações natalinas e de finais-de-ano ficam esmaecidas pela razão de que amigos ou entes queridos ficaram pelo caminho e suas ausências impactam fortemente em nós.


Tivemos um ano complicado tanto na economia do país que repercute em nossos lares quanto na política, ano em que as redes sociais venceram as mídias organizadas (jornais-revistas-rádios-TVs), ano em que institutos de pesquisa de intenções de votos restaram desmoralizados, ano em que a predominância das emissões de notícias estabeleceu-se como fakes. A rede social pode aproximar quanto pode escancarar limitações em aceitar posicionamentos alheios tanto na política quanto no futebol. É gente que não se conhece estabelecendo ofensas e agressões fortuitas.


Meu balanço pessoal é sobre o que conseguimos dispor aos caminhos pessoais e profissionais dos meus filhos, é sobre a amplitude que os livros que li positivaram em minha vida e, consequentemente, na vida das pessoas que me cercam. Terminei de ler, por exemplo, A Noite do Meu Bem (Ruy Castro), livro que li devagar, mansamente como quem faz uma refeição saborosa, como quem tem a graça de sorver um vinho de qualidade. Conta a vida artística entre os anos de 1945-1964, vida de boites, casas de shouws do Rio, vida e músicas dos grandes cantores-compositores-jornalistas num Brasil que queria se mostrar ao mundo como o gigante que é, num Brasil romântico que produziu geração de artistas que realmente impactaram pela qualidade, fato cada vez mais raro atualmente. À medida que o lia, parece-me que estava acompanhado de minha mãe. Então, eu a tinha por perto, outra vez. À medida que o lia não queria que acabasse e foi me dando sensação de saudade, saudade de época que não vivi...estranho, não? Li de tudo, li sobre MPB, espiritismo, sobre São Paulo de ontem, sobre os brasileiros que se destacaram em Paris entre os séculos XIX-XX, sobre a história do Brasil...


De qualquer maneira, ao atingir o final-do-ano, sou sobrevivente e se o sou deve ser porque o Criador acredita que há ainda possibilidade de ser algo que preste. É nesse sentido, o de acrescentar aos semelhantes que se justifica o prolongamento de nossas existências porque a outra alternativa, a do egoísmo-individualismo, escancara um inevitável encontro de nós mesmos com o espelho e a imagem refletida pode ser desalentadora.




Dezembro

Sábado, 15/12/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Dezembro de 1974, segundo ano do segundo grau, antevendo que não teria grana para custear curso pré-vestibular criei rotina de estudo espartana para o que enfrentaria. Foi prazeroso, mas era a realidade, provavelmente enfrentaria as provas com o que tinha do Cenav e do que constava das apostilas e livros que conseguia emprestado. Com a conquista da primeira namorada havia descoberto o uso do xampu - Cabelos e Pontas – o que era um salto de qualidade para quem, no máximo usava o sabonete Phebo. Para os melhores momentos puçuqueava o perfume Lancaster do meu velho. Bons tempos. Trancafiado em meu quartinho, às vezes, vinha sentar ao lado de minha velha mãe para assistir aos filmes da sessão da tarde como, por exemplo, O Seresteiro de Acapulco (com Elvis Presley) ou O Candelabro Italiano.


Estudar...estudar...estudar para encarar o ambiente de competição. Minhas férias foram reduzidas a um dia somente, dia 11 de dezembro. Depois, suor e lágrimas. Meus companheiros de jornadas eram Ceres e Alcides Sartori, Menegotto (biologia), Edison de Oliveira (português), Vitor Segundo Mandelli (inglês), livros do cursinho Serrador e Integral.


Num esforço danado meu velho conseguiu grana para ingressar no almejado Gama Vestibulares. Era grife estar com Romero-Saletinha-Adil-Barquete-José Ernani-Ivo-Gastão-Flávio Korb-Osvandré-Jussara-Anete. Paulo Barquete afirmou após atentar para o meu desempenho em uma prova simulada que eu iria ser aprovado. O problema é que eu não sabia que profissão abraçar. Talvez, sonhador que sou, Engenharia Florestal, para salvar o planeta. E tinha que ser na federal de Santa Maria, onde o dinheiro da família poderia me suportar. Fui aprovado e também aqui em Medicina, mas não cursaria porque tinha medo de cadáveres, sensação de desmaio ao ver sangue e pânico quando presenciava alguém passar mal; além disso a renda familiar não possibilitava esse sonho numa faculdade particular. Mas, o destino...ah, o destino...Um dia antes da matrícula em Passo Fundo (04 de fevereiro) meu pai teve um mal súbito e tive que superar minhas limitações e atendê-lo. Foi meu primeiro paciente. No outro dia, orgulhoso pelo êxito do primeiro”atendimento” comuniquei ao velho pai (38 anos) que tinha 2 notícias: uma boa, faria medicina; uma ruim, amatrícula era naquele dia. Meu pai, ao ouvi-las, disse-me com ternura de pai: tua missão é estudar e a minha é arrumar dinheiro para isso e saiu atrás de amigos para socorrê-lo financeiramente. E aí estou eu, plenamente ciente de minha raiz, plenamente agradecido por saber ler os “avisos”, agradecendo aos dezembros, aos livros e à mágica da vida, de tentar aprendera ler as entrelinhas.

 

Bem, Zé Dirceu, o cabeça da quadrilha, lança uma autiobiografia (livro que algumas pessoas escrevem contando como gostariam de ser) em que provavelmente suprimiu todos os seus crimes e comportamentos duvidosos desde que era presidente da UNE; provavelmente passará batido os abandonos que suas ex-famílias foram expostas e também os vultosos desvios de grana em favorecimento pessoal e de sua quadrilha que assaltou o país nas últimas duas décadas. Nas biografias há, geralmente, um rol de feitos sobre o personagem agraciado; na de Zé Dirceu há um prontuário policial.






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