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Colunistas


Primavera de Rachel

Sábado, 15/07/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Quando a primavera se aproxima há o sonoro canto dos pássaros alvoroçados aos novos bons tempos. Assim é, deveria ser mas, nem sempre foi. Em determinada primavera os pássaros não cantaram. Por quê?  Porque foram intoxicados pelos pesticidas DDT usados nas lavouras que escoaram para os rios e lagos e contaminaram o plâncton, os peixes e os pássaros. No exame das vísceras dos pássaros mortos, cujos cantos não foram ouvidos, foram identificados os princípios ativos dos herbicidas. Rachel Carson analisou estes acontecimentos e publicou em 1964 a obra Primavera Silenciosa, primeiro livro de cunho ambientalista, ciente das implicações políticas decorrentes e que foi responsável por desencadear movimentos de alerta e proteção ao meio ambiente. Rachel morreu em decorrência de câncer de mama apenas dezoito meses após publicar sua obra. A obra, como deve ser, foi maior que sua pessoa e é atualíssima. Isso faz mais de cinquenta anos e serve a algumas reflexões paralelas.

A Primavera Silenciosa exibe o silêncio das aves como preditor de uma tragédia, no caso uma tragédia ambiental. Nas nossas vidas é necessário acontecer uma tragédia para que acordemos. Não deveria ser assim. Às vezes, o silêncio é ensurdecedor, queima nossos tímpanos, bate em nossas caras, faz a gente franzir o cenho. A primavera silenciosa pode se mostrar quando não beijamos mais nossas mulheres diariamente; a primavera silenciosa se manifesta no desinteresse pelas coisas de nossos filhos, quando não sabemos de seus sonhos e frustrações; também se manifesta quando não temos tempo para os amigos, para tomar chimarrão, chupar laranjas ou simplesmente jogar conversa fora; a primavera silenciosa se impõe quando não apreciamos mais a chuva, o nascer do sol ou o entardecer; também é verificada quando não gostamos mais de crianças, de filmes de comédias românticas ou de ouvir músicas no final da tarde. Também é pelo desinteresse do dia-a-dia.

Ao despegar, para usar um termo comum da rede social, das coisas simples mas, não menos importantes oferecemos uma espécie de pesticida letal para nossas almas. Alma ferida transfere doenças para as vísceras e que combalidas nos levam à morte, morte triste e lenta. Perceba que quase tudo de bom, tudo o que realmente necessitamos é graciosamente oferecido, está aí, na natureza como um espetáculo extraordinário e que se repetirá ano-a-ano até que recebamos o chamado. E se tivéssemos a oportunidade de uma última manifestação é possível que disséssemos que faríamos diferente do que fizemos. Enquanto temos a oportunidade física, mental e espiritual de prevenir as primaveras silenciosas deveríamos usá-la. Oportunidade da correção de rumos, oportunidade de nos entregarmos às delícias do cotidiano e, sobretudo, prestar homenagens e ressonâncias humanas aos que convivem conosco e que nos apreciam apesar de todos os nossos defeitos. 




Missão, desiderato ou outra coisa qualquer

Sábado, 08/07/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Há alguns anos solicitei a Marcelo, amigo e companheiro da Casa de Oração André Luís, uma pausa para remodelar meus temas livres. Entendia que estava sendo repetitivo e enfadonho e que necessitava recarregar. E assim permaneci três meses. Certa manhã na UPF uma funcionária sem saber (acho eu) que eu era espírita e que fazia temas livre abordou-me com a seguinte pergunta: não está esquecendo de nada? Negaceei, embora tenha compreendido de pronto o motivo da indagação - esquecendo do quê? O senhor sabe do que estou falando, estou falando da sua missão, completou.

E então ela relatou que numa manhã fora a segunda pessoa a entrar no prédio da Medicina, lá estava apenas o segurança. Tudo tranquilo, disse o mesmo, somente um professor está com seus alunos numa sala de aula. Estranho, disse ela, aula a essa hora? E, curiosa, foi até o segundo piso e parou, então, em uma sala repleta de alunos de jalecos e gravatas, como antigamente e um professor que nunca vira antes. O professor chamou-a e disse que estava repetindo uma aula porque dos cinquenta alunos somente um não havia entendido a matéria e que todos, sem exceção, deveriam entendê-la. Era importante que entendessem, era vital. Desceu então, minha amiga, até o hall de entrada e comentou com o segurança sobre o professor desconhecido. Que professor? Perguntou-lhe o colega. Estamos só você e eu aqui a esta hora, arrematou.

Veja, doutor Jorge, aquelas palavras que o senhor achou enfadonha e maçante? Numa de suas palestras havia um garoto de 16 anos com ideias suicidas e que fora levado pela mãe em desespero para ouvir o senhor. Depois de escutá-lo, o garoto mudou de vida e agora é outra pessoa. Sabe, doutor, a gente é instrumento e se a nossa energia influenciar uma em cem pessoas está muito bom. Volta, doutor, para seu destino porque tem gente precisando do senhor. Voltei e nunca mais deixei de ir porque finalmente havia entendido a matéria do professor desconhecido.

Nessa quinta, voltei também, em pensamento, a Alegrete, como na primeira quarta de março de 1975, para visitar o túmulo e a família de José Carlos Vaucher Rodrigues. Chegamos no trem das onze e fomos lanchar ouvindo Stand by Me, com Lennon. Depois, enveredamos pela Avenida Getúlio Vargas até o cemitério para viver a dor da perda, a da não-vida, a do não-sorriso. Mais tarde, conhecer os outros familiares do Dr Iseu Rodrigues e, em obsequioso silêncio, acompanhar a dor dos pais pela perda precoce do grande Zé, nosso Zé Capacete (em homenagem ao cabelo black-power que usava). Na volta, escrevi uma crônica ao amigo falecido e que foi publicada no Jornal A Tarde. Falava sobre tristeza, alfazemas e lírios, falava sobre o silêncio e sobre que a vida, às vezes, é o que nunca deveria ser – uma bosta.




Lapsos

Sábado, 01/07/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Noite insone dessas, infelizmente ou não, tenho sono encurtado, quatro a cinco horas, fiquei a assistir ao premiado filme Para Sempre Alice (Oscar para a excelente Juliane Moore) que trata com grande sensibilidade o Mal de Alzheimer e suas repercussões pessoais e familiares. Igual destaque mereceu também o filme Diário de Uma Paixão om James Garner e Geena Rowlands. O filme Alice trata de uma professora conceituada, bem casada e com três filhos jovens e que aos cinquenta anos começa a esquecer nomes, ruas e tudo o mais. No filme há a internação espontânea do cônjuge (Garner) para acompanhar sua esposa (Geena) que está com a doença. Ele lê para ela todos os dias um diário contando a história dos dois como se fosse um romance acontecido com terceiros. São filmes para assistir e chorar, literalmente filmes para não se esquecer. O Mal de Alzheimer faz com que o cérebro vá apagando as memórias e as referências decorrentes do que ficou armazenado e progressivamente vai levando o portador a um estado de solidão e de constrangimentos pessoais. Além disso a família vai encontrando limitações para a condução do entorno da situação e nem sempre, ou melhor, na maioria as vezes os familiares se afastam sob a alegação de que “ele-ela não me reconhece mais”.

Vivo alimentado pelas lembranças, não que prefira outra época de mim mesmo que não essa que vivo agora. As lembranças vêm como estratos, em colchas de retalhos. Por onde se ande na cidade há fragmentos cheios de vida, até mesmo os que nos entristeceram por algum motivo. Certas coisas ficam tão impregnadas e é a vida de novo, até com abdicações como em Milton Carlos- “se quiserem saber porque foi que eu mudei, não vou responder porque nem mesmo eu sei, se eu esqueço de mim prá lembrar de você”

Fiquei matutando sobre as lembranças e quais delas gostaríamos de deixar aos filhos. Mesmo que eles sejam briguentos, teimosos e, às vezes insuportáveis, guardarão de nós as lembranças que quisermos que fiquem marcadas. Talvez as que mereçam ser cláusulas pétreas estejam na maneira da condução dos problemas do cotidiano Diante de uma problemática deverão lembrar como o pai e a mãe reagiram. E aí está a marca do sucesso, pessoas grandes têm grandes atitudes, pessoas pequenas têm atitudes menores. Como meu pai reagiu quando perdeu o emprego, quando ficou doente? Como minha mãe suportou tornar-se ex-amor (Martinho da Vila) de alguém, subitamente? Diante de um inusitado as reações são amplas: arrancar os cabelos, desesperar ou levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima (Paulo Vanzolini). É, a vida pode ser assim, também. Pode, mesmo nas desgraças, ser encantos musicais. Até para isso, para as desgraças, escolhi Percy Faith (The Summer Place) e John Barry (Midnight Cowboy) para serem lembradas quando da minha partida. Não levarei essas lembranças comigo mas, lembrarão de mim, provavelmente, quando ouvirem essas canções porque refletem um pedaço de minha alma e alma é o que fica, o resto vai embora.




Quinta de sol e inverno

Sábado, 24/06/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Porque já a chuva terminou e o céu agora está azul para nós dois (Os Caçulas, há mais de meio século). Aproveitei essa quinta para dar uma passeada na Gare, maravilhosamente pensada para o lazer. O sol das quatro convidava a laranjas e bergamotas, por que não? Dizem por aí que o médico é um profissional liberal; só se isso se aplica aos demais colegas porque nem lembro a última vez que me permiti ao simples desfrute de uma tarde de semana qualquer. A vida é curta e se não é possível encompridá-la devemos alargar o possível, em outras palavras, acrescentar momentos inesquecíveis ao cotidiano.

Um conhecido teve fratura exposta de femur e necessitou ficar fora de combate por um periodo longo. Vi-o sentado em uma cadeira de rodas numa manhã de domingo a lamentar o fato de não poder correr pela Avenida Brasil. Lembrei-me de que de 2003 até hoje nunca tive a oportunidade de vê-lo correr. Isso acontece também com as pessoas com quem convivemos. Subitamente elas vão embora e lamuriamos a partida sem despedidas. Deveríamos ter aproveitado muito mais e não o fizemos. Somente quando se perde é que se valoriza o que não é mais da gente.

Já tive algumas aventuras pueris como, por exemplo, ter sido o primeiro torcedor a adentrar ao Estádio Wolmar Salton num jogo de futebol no ano de 1984. Também fui o último a sair do Vermelhão. Por que fui o último? Porque estava com saudade de meu velho pai e foi ali, naquele estádio, que ele me levou para assistir um jogo entre 14 x Esportivo, em 1970. Ao permanecer mais tempo senti-me mais ligado, mais próximo e muito enternecido pelo velho ter me presenteado com esse mimo, mesmo simples mas, tão expressivo da nossa harmoniosa convivência.

Gosto das palavras, gosto do momento e entonação certos. Todos temos agradecimentos a fazer a estranhos-próximos em determinado momento. Quando surge a oportunidade costumamos expressar: jamais vou esquecer aquilo que tu me disse quando eu mais precisava ouvir. E essa forte lembrança-agradecimento estampa quanto as nossas vidas são carentes de momentos simples-impactantes. Ao caminhar pela Gare, ao sol da tarde, agradeci em pensamento a todos os que encheram minha vida de momentos agradáveis e prometi-me permanecer vigilante para que nunca interrompa aquilo tudo que me permito fazer às pessoas de meu entorno. O céu agora está azul para todos nós, mesmo para os que sofrem e não encontram consolo.




Busca de ajuda

Sábado, 17/06/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Atendo uma adolescente que causa preocupação a sua mãe em razão de um suposto desvio de comportamento. Pergunto sobre o que percebe de motivo de preocupações. Responde que o que a deixa mais chateada, no momento, é que seu celular deu pau (estragou). Diante dessa resposta poderia supor que nesse mundo de tantas desigualdades e alvoroços sociais-econômicos e de comportamento de jovens, essa menina estaria desconectada do ambiente que a cerca. Optei, no entanto, pela feliz contemplação de que o motivo de sua chateação poderia ser removido com o simples conserto de seu aparelho de comunicação em rede ou, ainda melhor, pela troca dele afinal, como se pode querer que os adolescentes vivam sem rede de relacionamentos?

 

Interessante observar que nas feiras de livros os títulos mais comercializados tratam de autores que abordam temas de ajuda, autoajuda ou livros sobre religiosidade-espiritualidade. Ninguém quer saber de livros de história, economia, biografias ou outros. Por que será?

 

Deve ser porque as pessoas buscam o que está definitivamente faltando a suas vidas e certamente não é a busca frenética informações econômicas ou históricas; as pessoas buscam estratos positivos para o cotidiano.

 

A adolescente em questão me fez lembrar de minha irmã que, carinhosamente chamamos de Bita. Ela é noveleira tal qual era minha mãe. Dia desses estava comentando sobre Luca (Paiulo Betti), Luca (Mario Gomes), Bertazzo (Nuno Leal Maia), Bina (Georgia Gomide) e Super Theo (Marcos Frota), personagens da novela Vereda (1983), parece que foi ontem. Rimos das aventuras dos simpáticos personagens, rimos tristemente, é verdade, porque lembravam minha mãe e esse era um  mundo televisivo, bem diferente da realidade da vida de cada um de nós. A adolescente era preocupada com o celular, nada tinha de maior importância no momento. Pensei que ela estava com um problema, que é o que nomino sobre uma situação em que a resolução não está ao alcance da própria pessoa. Isso é um problema. Quando o incômodo pode ser resolvido sem ajuda de terceiros costumo dizer que já não é problema.

 

Então, poderíamos considerar que os livros mais vendidos são os que oferecem o que as pessoas buscam e o que buscam é simplesmente ideias de como aproveitar a vida e a maneira inteligente de superar problemas. As pessoas estão de saco cheio das coisas oferecidas pelos telejornais: roubalheiras, impunidades, sarcasmos. Talvez deixariam de ser chateação se pudéssemos deletá-los, talvez com o voto, não num messiânico personagem mas, numa figura de carne e osso que redima nossas esperanças. Onde encontrá-lo? Por enquanto, só nas novelas.




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