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Colunistas


Quinta de sol e inverno

Sábado, 24/06/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Porque já a chuva terminou e o céu agora está azul para nós dois (Os Caçulas, há mais de meio século). Aproveitei essa quinta para dar uma passeada na Gare, maravilhosamente pensada para o lazer. O sol das quatro convidava a laranjas e bergamotas, por que não? Dizem por aí que o médico é um profissional liberal; só se isso se aplica aos demais colegas porque nem lembro a última vez que me permiti ao simples desfrute de uma tarde de semana qualquer. A vida é curta e se não é possível encompridá-la devemos alargar o possível, em outras palavras, acrescentar momentos inesquecíveis ao cotidiano.

Um conhecido teve fratura exposta de femur e necessitou ficar fora de combate por um periodo longo. Vi-o sentado em uma cadeira de rodas numa manhã de domingo a lamentar o fato de não poder correr pela Avenida Brasil. Lembrei-me de que de 2003 até hoje nunca tive a oportunidade de vê-lo correr. Isso acontece também com as pessoas com quem convivemos. Subitamente elas vão embora e lamuriamos a partida sem despedidas. Deveríamos ter aproveitado muito mais e não o fizemos. Somente quando se perde é que se valoriza o que não é mais da gente.

Já tive algumas aventuras pueris como, por exemplo, ter sido o primeiro torcedor a adentrar ao Estádio Wolmar Salton num jogo de futebol no ano de 1984. Também fui o último a sair do Vermelhão. Por que fui o último? Porque estava com saudade de meu velho pai e foi ali, naquele estádio, que ele me levou para assistir um jogo entre 14 x Esportivo, em 1970. Ao permanecer mais tempo senti-me mais ligado, mais próximo e muito enternecido pelo velho ter me presenteado com esse mimo, mesmo simples mas, tão expressivo da nossa harmoniosa convivência.

Gosto das palavras, gosto do momento e entonação certos. Todos temos agradecimentos a fazer a estranhos-próximos em determinado momento. Quando surge a oportunidade costumamos expressar: jamais vou esquecer aquilo que tu me disse quando eu mais precisava ouvir. E essa forte lembrança-agradecimento estampa quanto as nossas vidas são carentes de momentos simples-impactantes. Ao caminhar pela Gare, ao sol da tarde, agradeci em pensamento a todos os que encheram minha vida de momentos agradáveis e prometi-me permanecer vigilante para que nunca interrompa aquilo tudo que me permito fazer às pessoas de meu entorno. O céu agora está azul para todos nós, mesmo para os que sofrem e não encontram consolo.




Busca de ajuda

Sábado, 17/06/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Atendo uma adolescente que causa preocupação a sua mãe em razão de um suposto desvio de comportamento. Pergunto sobre o que percebe de motivo de preocupações. Responde que o que a deixa mais chateada, no momento, é que seu celular deu pau (estragou). Diante dessa resposta poderia supor que nesse mundo de tantas desigualdades e alvoroços sociais-econômicos e de comportamento de jovens, essa menina estaria desconectada do ambiente que a cerca. Optei, no entanto, pela feliz contemplação de que o motivo de sua chateação poderia ser removido com o simples conserto de seu aparelho de comunicação em rede ou, ainda melhor, pela troca dele afinal, como se pode querer que os adolescentes vivam sem rede de relacionamentos?

 

Interessante observar que nas feiras de livros os títulos mais comercializados tratam de autores que abordam temas de ajuda, autoajuda ou livros sobre religiosidade-espiritualidade. Ninguém quer saber de livros de história, economia, biografias ou outros. Por que será?

 

Deve ser porque as pessoas buscam o que está definitivamente faltando a suas vidas e certamente não é a busca frenética informações econômicas ou históricas; as pessoas buscam estratos positivos para o cotidiano.

 

A adolescente em questão me fez lembrar de minha irmã que, carinhosamente chamamos de Bita. Ela é noveleira tal qual era minha mãe. Dia desses estava comentando sobre Luca (Paiulo Betti), Luca (Mario Gomes), Bertazzo (Nuno Leal Maia), Bina (Georgia Gomide) e Super Theo (Marcos Frota), personagens da novela Vereda (1983), parece que foi ontem. Rimos das aventuras dos simpáticos personagens, rimos tristemente, é verdade, porque lembravam minha mãe e esse era um  mundo televisivo, bem diferente da realidade da vida de cada um de nós. A adolescente era preocupada com o celular, nada tinha de maior importância no momento. Pensei que ela estava com um problema, que é o que nomino sobre uma situação em que a resolução não está ao alcance da própria pessoa. Isso é um problema. Quando o incômodo pode ser resolvido sem ajuda de terceiros costumo dizer que já não é problema.

 

Então, poderíamos considerar que os livros mais vendidos são os que oferecem o que as pessoas buscam e o que buscam é simplesmente ideias de como aproveitar a vida e a maneira inteligente de superar problemas. As pessoas estão de saco cheio das coisas oferecidas pelos telejornais: roubalheiras, impunidades, sarcasmos. Talvez deixariam de ser chateação se pudéssemos deletá-los, talvez com o voto, não num messiânico personagem mas, numa figura de carne e osso que redima nossas esperanças. Onde encontrá-lo? Por enquanto, só nas novelas.




O país do não saber

Sábado, 10/06/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Estranhos esses debates do TSE em que togados com alto conhecimento jurídico se dividem à cerca de crime-não-crime, delação-tem-a-ver com não-tem-ver, não é mesmo?. Fico entusiasmado com as teses apresentadas, sempre quis ser advogado ou juiz mas, faltou-me competência, faltou-me luz. Lembro dos sofistas gregos, aqueles que tinham o grande poder da oratória mesmo que a causa não fosse verdadeira ou justa. Quem se importa com causa verdadeira ou justa? Vale mais o poder da argumentação. Até a manhã dessa sexta o TSE está fatiado entre os que encaram o abuso de poder econômico da chapa Dilma-Temer como crime eleitoral e os que não entendem assim. Vai saber?  Se os togados não sabem que direi de nós, os sem-toga?

Fico a matutar que se os togados não têm certeza como se poderia exigir de Lula que ,semianalfabeto, refere que nada sabia? Como exigir de Dilma que, como presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, refere que não sabia o que estava assinando? Como exigir de Temer que embarca em uma aeronave sem saber quem era o proprietário? É capaz de argumentar que nem sabia o destino daquele vôo. Deveria ter mais cuidado porque alguns acidentes aéreos deixam suspeitas. Os togados deveriam saber mas, a maioria deles foi indicada por esse ou aquele presidente e nós, do país do não saber, não sabemos a quem eles estão servindo, se ao padrinho ou ao país. Estariam servindo à verdade dos fatos? Vai saber.

Santa inocência, como dizia Robin (Batman e Robin), aliás esses dois, não sei não, vai saber. Sêneca (intelectual e advogado do Império Romano), em uma época em que a navegação era o transporte mais rápido, deixou o registro "todo o vento é ruim para o navegador que não sabe parar onde quer ir". O mesmo argumento foi usado por Lewis Carrol,  em Alice no País das Maravilhas (1865)na cena em que Alice pergunta ao gato qual o caminho certo entre tantas possibilidades? Qualquer um, responde o gato, qualquer um se você não sabe para onde quer ir. Para o matuto que acha essas considerações muito profundas poderíamos usar uma metáfora mais abagualada tipo "para o ruim de cama até  os testículos atrapalham", vai saber.

Nós, do país do não saber, nem sabemos em quem votamos no passado e em quem votaremos nas próximas eleições. Não importa saber que direção tomar se não sabemos para onde queremos ir. A solução de nós, do país do não saber, é perguntar ao gato de Alice ou a outros gatos, já que há tantos no nosso país, o do não saber.




Deve haver algo melhor

Sábado, 03/06/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

A geração do signatário foi absolutamente apaixonada pelos filmes e livros de ficção científica e teve a honra de assistir, mesmo em TVs P&B, a descida do homem na lua em 1969. Se o homem não desceu lá, cá entre nós, foi uma bela encenação segundo a teoria conspiratória. O problema dessa teoria é que dizem que Paul morreu e Elvis e Michael Jackson não morreram. O sósia de Paul é um baita cantor e compositor, Elvis moraria no Rio e o lance da morte de Michael seria puro marketing. Até Dona Marisa Letícia estaria se escondendo, vai saber, num país onde há muita coisa escondida nada deve surepreender.

2001, Uma Odisseia no Espaço (Arthur Clarke) e o Planeta dos Macacos enriqueceram nossas imaginações e imaginávamos um admirável mundo novo a partir da grande evolução do ser humano, que seria cada vez mais humano e mais compartilhável aos demais. Em A Última Esperança da Terra, o herói Charlton Heston descobre, na última cena, canibais, estávamos comendo carne de humanos e não somente churrasquinho de gatos.

Há um filme do qual não recordo o nome em que uma nave espacial chega a um planeta inóspito e descobre uma inscrição em inglês que diz o seguinte: em algum lugar do universo deve existir alguma coisa melhor do que o homem. Isso foi uma cacetada nas nossas mentes: uma nave chega aonde já havíamos chegado há muito tempo e a inscrição demonstrava uma profunda decepção com o que o homem foi capaz de fazer. Mas, não somos feitos à imagem e semelhança  Dele? Que fizemos com o que de bom Ele emprestara a nós?

Semana passada atendi pai e filho que haviam se agredido a tiros e facadas. E essa é apenas uma pequena manifestação dos grandes desajustes sociais-familiares-religiosos a que somos submetidos. Há velhos e crianças abandonadas, há pedintes revirando lixeiras à cata de comida que jogamos fora. As mazelas de nossas vidas não são somente os desvarios dos homens públicos ou o assalto das multas e imposto de renda, as mazelas de nossas vidas também são o reflexo daquilo que poderíamos fazer e não fazemos.

Em algum lugar do universo deve existir alguma coisa melhor do que o homem? Sim, os três gatos que moram em minha casa, por exemplo, são bem melhores do que muitas pessoas; o sabiá que canta nas manhãs, também; até as vacas leiteiras que minha mulher cria são melhores porque elas conseguem transformar pasto (comida) em leite enquanto que nós conseguimos transformar comida em merda.

A ficção é apaixonante porque mostrava aquilo que um dia poderíamos ser mas, pelo que demonstramos no cotidiano, ser melhor do que podemos ser é apenas um exercício de ficção.




Sobre salas e porões

Sábado, 27/05/2017 às 08:00, por Jorge Anunciação

Em 1973 o economista Paul Samuelson, do  Massachusets  Institute of Technology, publicou no Economics, livro mais importante do gênero no mundo, um artigo sobre a economia do Brasil e se estabeleceu tão importante a ponto de catapultá-lo a ser o primeiro americano a ganhar o premio Nobel de Economia. O Milagre Brasileiro chamava-se Delfim Neto que, em 4 anos saíra 18 vezes na capa de Veja e foi o caso raro de ministro ser recebido pelo presidente Nixon na Casa Branca, afinal nos seus sete anos de mandarinato (1967-73) o PIB crescera 85% e a renda per capita, 62%. O crescimento previsto em 1973 era de 10%, o cruzeiro se valorizava em relação ao dólar. Hermann Abs, ex-presidente do Deutsche Bank sugerira que a Alemanha precisava de um Delfim Neto. Milton Friedman escrevia que as taxas de crescimento justificavam a expressão “Milagre Brasileiro”. Mas...havia o porão, onde se torturava e matava os inimigos do sistema e a imagem maculada da agressão marcou de forma indelével o coração e mentes de muitos, ao ponto de somente restar o porão e nunca o milagre. Ao fim do “milagre” restou inflação de mais de 100%, concentração de renda, dívida externa quadruplicada e queda de poder de comprado salário mínimo em decorrência da elevação dos juros ao dinheiro emprestado pelos Estados Unidos e pelo aumento do preço do barril de petróleo de 3,37 a 11,25 dólares (informações contidas em A Ditadura Escancarada – Elio Gaspari e Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil – Leandro Narloch). O Milagre Brasileiro e os Anos de Chumbo foram simultâneos. Ambos reais, coexistiam negando-se. Passados mais de quarenta anos, continuam negando-se. Quem acha que houve um, não acredita (ou não gosta de admitir) que houve outro, completa Gaspari.

Os tempos são outros, em vez dos porões, existe o crime organizado, a sociedade civil, mesmo aos solavancos, retomou, democraticamente, ao comando. Em vez dos porões estamos na sala comendo canapés servidos de maneira elegante por simpáticos garçons. Não há mais milagre algum, o PIB chega a ser negativo, o desemprego atinge quase 15 milhões de pessoas sem que se contabilize os que ainda nem desempregados são porque nem conseguiram ingressar no primeiro emprego. Os canapés são preparados numa cozinha da qual não temos acesso, apenas aperitivamos enquanto conversamos sobre reminiscências, futebol e mulheres. Nós, cidadãos comuns, não somos convidados para e aproveitar a grande festa, apenas para pagá-la. Os espertalhões, escolhidos por nós, servem às grandes empresas criadas com a nossa grana e para sustentar o elegante status dos ditos homens públicos, de todos os partidos políticos. Não há ações sociais creditadas como de interesse público que não tenha desvio de dinheiro. Fico confuso em ler que a oposição tenta derrubar Temer. O que é oposição? Oposição a Temer deveria ser quem o levou ao poder, ou seja, quem votou em Dilma-Temer, talvez o pessoal do PSDB. A mixórdia das ideologias cegas e assépticas desvia o foco que deveríamos ter em promover um Brasil melhor e mais adequado a nossos filhos, afinal os canapés trazidos à sala parecem artificiais mas, tem gente que gosta do que é mostrado. É difícil saber que publicação da imprensa é absolutamente isenta ou que não tenha verniz do milagre ou dos anos de chumbo. O que resta, de maneira inegável, é que há dois atores nessa festa: os que ganham e os que pagam, como você e eu. Numa festa de pintos, entramos com as bundas. 




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