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Colunistas


Amanhã vai ser outro dia

Sábado, 06/10/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Amanhã será um dia importante para o destino de todos nós. Talvez seja o momento para pensarmos além de nossas ideologias, ódios e ranços. Não pode ser que um país com tamanha riquezas naturais, com extensão continental, com uma miríade de povos que emigraram para cá esteja passando por momentos econômicos tão ruins e descrédito moral e político dessa magnitude. Os rumos serão dados pelos nossos votos. Que Deus ou em que entidade que você acredite nos abençoe.


Quero escrever sobre duas perdas do mundo artístico dessa semana que encerra. Quero falar sobre Abelim e Charles Aznavour. Abelim é o nome de Ângela Maria; teve que ser assim para que pudesse cantar no rádio dos anos 1940-50. A sociedade da época acreditava que artistas e jogadores de futebol viviam numa espécie de antro da perdição e essas profissões de gente da noite pertenciam a um submundo das bebidas, tabaco e outras drogas. Nada de gente decente ali, por isso Abelim se tornou Ângela Maria, para que ao cantar, na surdina, seus pais não soubessem que era a filha. E ela veio num mundo dominado por Dolores Duran, Elisete Cardoso, a divina e estonteante Dóris Monteiro, as irmãs Batista e, é claro, Dalva de Oliveira. Veio e ficou, sua voz emprestava classe às músicas da época, boleros e guarânias, dor de cotovelo, amores desfeitos, abandonos e amarguras. Eram músicas tristes, tipo as que Maysa Matarazzo cantava, Maysa que morreu na ponte Rio-Niterói em 22 de janeiro de 1977 e deu no JN – morreu Maysa, a mulher que não conseguiu ser feliz. Minha mãe chorou e eu chorei pela minha mãe.


Ângela Maria tinha em sua voz a arte, como tinham os cantores de voz possante como Francisco Alves, como o novato Cauby Peixoto, Carlos Galhardo. Depois vieram Dick Farney, João Gilberto que estimularam Roberto Carlos. De todos os que conheci nunca ouvi ninguém como Emílio Santiago. O motorista de Ângela gravou também, ora vejam; seu nome, Agnaldo Timóteo.


Do outro lado do mundo quem brilhava era Charles Aznavour que em sua carreira vendeu 180 milhões de discos. Tínhamos Frank Sinatra, Elvis que impactaram enormemente mas, Charles...ah, Charles com aquelas músicas francesas. A gente estudou francês no Cenav, dois anos, e as professoras colocavam Salvatore Adamo e Charles; elas mostravam Yves Montand e Mireille Mathieu e a gente ía e voltava para Paris com as garotas dos nossos sonhos, garotas que nem olhavam para as nossas caras imberbes. Dance in the Old Fashioned Way, La Bohème, Que C’est Triste Venise (que ele gravou para um amor que se desfez com Amália Rodrigues)... e a gente curtia. Mas, a paulada veio no programa de Hélio Ribeiro, na Band. Hélio apresentou She que dizia todas as coisas que gostaríamos de dizer para nossas namoradas, tudo o que elas representavam, para nós. Elvis Costello regravou She em Notting Hill (aquele filme bacana com Julia Roberts e Hugh Grant).


Hoje é um novo dia...amanhã vai ser outro dia...será menos belo do que já foi porque ao partirem, os artistas que embelezaram nossas vidas, levam um pedaço de nós, talvez os melhores pedaços...o romantismo, a ingenuidade, o amor verdadeiro...




Eu vi o menino correndo...

Sábado, 29/09/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Neste plantão noturno do Hospital São Vicente duas músicas me vêm à cabeça: Menino do Rio e Força Estranha, ambas do genial músico Caetano. Menino do Rio é sobre Petit (José Artur Machado), sobre o qual escrevi há algumas semanas. Garoto de Ipanema, 1.80 de altura, surfista e praticante de artes marciais, flertava com o mar e com a vida e aos 22 anos mereceu essa música como reconhecimento de Caetano à liberdade de ser. Era o ano de 1980. A fama, as mulheres, a cocaína levaram ao acidente de moto em agosto de 1987 e as sequelas, após 40 dias de coma. Em março de 1989 Petit desistiu da vida e se enforcou com sua faixa de jiu-jitsu. Eu vi o menino correndo...era 1978 e Caetano retribuía ao Rei a composição Debaixo dos caracóis de Seus Cabelos (1972) em homenagem ao baiano exilado em Londres. Neste álbum do Rei constava, além de Força Estranha, Lady Laura, entre outros sucessos que o Rei emendava continuamente.


Há quase trinta anos, como o tempo passa depressa, eu vi o menino correndo...alto atlético, loiro, educado, fino. Tinha sido atleta profissional de voleibol; contava que jogou ou conviveu com os mestres Amauri, Marcelo Negrão, Bernardinho, Jorge Edson, Tande, William, Domingos Maracanã, Bernard, Montanaro, Pampa...atletas que conhecíamos pela TV. Parecia mágica, eu que na memória desses esportes de quadra lembrava do basquetebol de Ubiratã, Carioquinha, Marcel, Marcelo Vido, Gerson, Ary Vidal... e, ali, através do amigo convivia de alguma maneira com os astros desportivos; e sabia de algumas de suas intimidades. E era bacana ouvi-lo falar da vida e das quadras. Agora, não mais atleta, era médico residente da cirurgia geral e nós, de alguma forma, éramos seus novos ídolos.

Doutor Hélio Renan e eu vimos o menino correndo nos plantões, nas cirurgias que partilhamos, nos churrascos, nas cervejadas...ele fazia sucesso, ele fará sucesso, todos diziam. E assim foi no São Vicente, Cesar Santos, UPF, Unimed...Era um garoto, era um menino, tinha saúde, tinha gás...tinha tudo.


Certo dia, por motivos alheios ao meu conhecimento, forças estranhas foram se avolumando e o menino começou a soçobrar. Perdeu o viço, perdeu a luminosidade do olhar, enfraqueceu sua aura. Era um set perdido, um atrás do outro; a reação não vinha e não veio. E foi paulatinamente deteriorando e ficando avesso a quase tudo; para seus colegas sempre pareceu menino. Sua partida aos 57 anos, trouxe desalento poucas vezes visto no círculo de homens cascudos acostumados à vida e morte, que são os médicos seus colegas. Um dia, há muito tempo, ele desistiu da vida e nesta semana a vida desistiu dele. Era um menino...sim...e eu juro prá vocês...eu vi o menino correndo...correndo...correndo guiado por uma extraordinária força estranha...prá Deus...para a paz. Viverá em nossas memórias sempre na plenitude de sua energia...e por ela e por tudo o mais que ficou dito, vivido e nas entrelinhas, o que consigo escrever com os olhos marejados, tal qual o da maioria dos que conviveram contigo é...obrigado por tudo, Doutor Pitágoras.




Olhares

Sábado, 22/09/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Ramon tinha pouco mais de dois anos e estávamos num churrasco da semana farroupilha no CTG Lalau Miranda. Conversava com amigos entre uma cerveja e outra quando vi o olhar de meu pequenino procurando o meu; terno e comovedor porque ele chorava e provavelmente perguntava-me porque não estávamos juntos? Sempre tivemos muitos olhares, meus filhos e eu; mínimas vezes de reprovação, muitas outras de cumplicidades. Não somos perfeitos, longe disso; nem nossos filhos, que enfrentam a curva de aprendizagem. Darão cabeçadas, recorrerão em erros, dimensionarão em exageros pequenos problemas...assim como nós, ao longo de nossas aventuras que chamamos vida. Em, suma, queremos que sejam melhores que nós, algo que não deve ser tão difícil assim.


Minha mulher olhou o quarto de nossa filha, agora sem a cama de dormir que a acompanhou desde que era criancinha. Não pôde evitar o choro, era como se Georgia não fosse mais voltar; não fiz comentários, curti minha pequena tristeza em silêncio respeitador. Agora ali naquele canto cabe um sofá cama que não substituirá a magia dos grandes momentos mas, é hora de entender que ambos – Ramon e Georgia - não moram mais com a gente; nunca sairão de nossas mentes e corações, estão presentes em todas as nossas preces, em todos os nossos pedidos de luz e paz e em todas as nossas expectativas. Não almejamos riquezas e sucessos sociais retumbantes; almejamos que sejam felizes do jeito que escolherem ser. Ramon está cheio de trabalhos de filmagem, cineasta que é e Georgia está em Belém junto com a ONG solidária em que trabalha – Comunitas (Ruth Cardoso era presidente). Não confundir com comunista, aquele troço que não vê valor em meritocracia. São do mundo e são da gente, são as nossas melhores partes.


Olhei para minha foto de dezessete-dezoito anos, antes da escolha profissional e pensei que poderia voltar no tempo e bater papo com aquele menino cabeludo de calça e jaqueta US Top. Quer ser médico? Entre 1960-1980 esses profissionais ganharam muita grana; agora não mais; agora é medicina socializada, pouca grana e muito trabalho. Quer ser médico para trabalhar até morrer? Sim, deve ter sido essa a resposta que dei; a profissão permite ajudar a tratar doenças do corpo e da alma diariamente. Medicina não é profissão e nem vocação; é um chamado. Deus olha para seus filhos e escala alguns para ser isso tudo ou tudo isso. E permite que exercitemos o sacerdócio de acalmar espíritos e corpos combalidos a cada momento. Se a gente não usa essa benção para o desiderato desejado é pena. Às vezes Deus dá dentes para quem não gosta de mastigar, vai saber, como dizia a senhorita Jordana.


Olhei no face a baixaria de alguns concorrentes ao cargo máximo da república; carnificina, jogo de interesses, jogo de esconde-esconde. Lembrei de Bussunda e sua trupe: não pergunte o que seu país pode fazer por você...pergunte o que ele pode fazer por mim. Lembrei de Chico Anísio: enquanto o povo tem medo do futuro os candidatos têm medo do passado. Pensei certa feita, de maneira inocente, que pra ser presidente de qualquer coisa por aí era necessário ser decente. Era necessário ter vergonha na cara. Que horror. Diz um amigo que numa festas de pintos fomos convidados a entrar com as bundas.




Aparentemente

Sábado, 15/09/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Aparentemente o eleitorado (ou boa parte dele) cansou dos modelos históricos e pútridos dos partidos majoritários que comandaram a país nas duas últimas décadas. Cansou do MDB-PSDB-PT e aguarda algo novo ou menos viciado. O destino, se a gente acredita nele, colocou o meliante em cana (com ampla defesa contratada a peso de ouro com advogados caríssimos), esfaqueou o capitão que ainda luta pela sobrevivência, enquadrou Alckmin em sucessivos escândalos à cerca de irregularidades financeiras de seus companheiros de sigla, escorraça a estapafúrdia e impraticável ideia de Ciro de perdoar ou renegociar os devedores que estão com o nome sujo no SPC, postergou a indicação oficial de candidato do PT (até para proteger Haddad e sua inoperância) e ignora Meirelles. Os demais candidatos como Álvaro e Amoedo não seduzem.


Fernando Haddad (conhecido em São Paulo por “Jaiminho” – personagem do seriado Chaves, o carteiro que nada faz e está sempre cansado) tornou-se capacho do presidiário. Alckmin juntou as coligações que, aparentemente, grande parte do eleitorado quer deletar. Jair Bolsonaro emergiu de um partido nanico e o que ele representa? Representa a ruptura daquilo que é sempre o mesmo, ou seja, o não combate adequado à corrupção e ao crime organizado. Tem muita gente que acha que é esse o mote. Eduardo Jorge, vice de Marina, é um sujeito boa praça, daqueles de sentar num boteco e falar sobre os sonhos da juventude; médico com ideias claras, com trânsito histórico no PT (de onde vazou em 2003 ao se incompatibilizar com as ideias de Lula), trabalhou com Serra e Alckmin como secretário de saúde de São Paulo; também serviu a Luiza Erundina e Marta Suplicy. Sua entrevista na Jovem Pan desta sexta mostrou um cara simpático e equilibrado; tenho a impressão de que o foco dos entrevistadores se fixou muito na questão ambiental que é o que deverá por absoluta responsabilidade de todos ser o prisma para esse século em que deveremos castigar nosso planeta de forma mais irresponsável. Marina Silva encontrou bom nome para vice, se vai fazer a diferença e empurrar a Rede para o topo não se sabe.


As sabatinas erraram o foco ao abordar em Bolsonaro somente o período militar, torturas e Atos Institucionais; parece que somente isso interessa. Erraram o foco ao querer saber de Eduardo Jorge notícias sobre o PT, partido que abandonou há 15 anos. Erraram ao não focar pesado nos inúmeros escândalos financeiros da era PT. Erraram ao não bombardear o MDB pelo seu passado de apego exagerado ao poder e pela cumplicidade nas roubalheiras generalizadas. Erraram ao esquecer de perguntar ao candidato Alckmin sobre o provável loteamento dos vinte mil cargos que servem ao governo federal já que conta com a sigla inchada de composições.
A Veja de hoje estampa a tendência do eleitorado em confirmar Jair Bolsonaro e pergunta: quem vai com ele para o segundo turno (se é que vai ter segundo turno)? As entrevistas não conseguiram clarear o pensamento de grande parte do eleitorado porque os discursos ou são vazios e repetitivos ou são carregados de ressentimentos, pelo menos na aparência. Também aparentemente as pesquisas não são dignas de confiança. Quem viver, verá.




História que se repetem

Sábado, 01/09/2018 às 06:00, por Jorge Anunciação

Os jornalistas do JN Bonner e Renata, ao estilo Faustão, perguntam sem oferecer tempo aos entrevistados de concluir raciocínio ou resposta. Augusto Nunes, da Jovem Pan, calculou que, dos 27 minutos em que Geraldo Alckmin esteve sendo sabatinado, 15 minutos respondeu sobre corrupção em que seu partido está envolvido no estado de São Paulo. O jornalista calcula que sobre o mesmo tema e respeitando a proporcionalidade de tempo o candidato do PT Fernando Haddad deveria ser inquirido por 15 horas em resposta às bandalheiras de seu partido e que Lula deveria permanecer no ar por 15 dias.


O relacionamento do PSDB paulista de Alckmin com o mundo do crime estaria ligado com a historinha que vou descrever. O PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa dirigida dentro dos presídios (agora é moda no Brasil), foi criado dentro da cadeia em Taubaté, em 1993. No ano de 2010 Geraldo Alckmin pediu votos para Ney Santos, meliante que já tinha sido condenado por adulteração de combustíveis, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e formação de quadrilha. Em 2012 um inquérito sobra colaboração de PMs e PCC foi arquivado. O PCC controla grandes áreas da cidade de São Paulo, cadeias, escolas de samba e tem bases no Paraguai e Bolívia.


Ney Santos estava solto através de um habeas do STF e resolveu que deveria ser prefeito da cidade de Embu das Artes (240 mil habitantes) mesmo sendo considerado chefe do tráfico de drogas na zona oeste de SP desde 1999, quando tinha 19 anos, idade em que já tinha sido condenado por formação de quadrilha após crime de assalto a um carro-forte. Em 4 anos de liberdade arrebatou fortuna de cem milhões de reais.


No ano de 2016 teve candidatura a prefeito de Embu impugnada pela Justiça Eleitoral com base na Lei de Ficha Limpa. Na eleição, com esse currículo de fazer inveja, teve o apoio de 79% dos votos – o pessoal do nosso país parece ter queda para meliantes – mas, a posse foi garantida no STF pelo ministro Marco Aurélio Mello; é, ele mesmo.


Após a tentativa de assassinato de um cartunista crítico a seu histórico e temendo ser condenado no julgamento de seu habeas, pediu licença da prefeitura e fugiu de avião para o Paraguai. Nem precisava, com os votos dos ministros Alexandre de Moraes (ex-filiado ao PSDB e ex-secretário de segurança de Alckmin) e de Marco Aurelio Mello (de novo) foi autorizado a reassumir o comando da prefeitura. É, 15 minutos foi tempo curto para Alckmin tentar passar a seus eleitores a sensação de que nada sabia a respeito de tudo isso.


As preocupações com o desemprego, educação, saúde, reformas tributárias e da previdência tendem ficar em segundo plano quando constatamos o aparelhamento das instituições com o submundo. Segurança e tráfico de drogas estão acabando com a Pindorama (Terra das Palmeiras) e arrastando o futuro de nossos filhos para esperanças de vida além-mar. E as instituições sofrem pesado golpe na luta contra o crime organizado que tenta eleger pessoas para cargos públicos.




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