A terra do Maluco
Sexta-Feira, 03/02/2012 por Jorge Anunciação

Vim à Bahia de Todos os Santos para comemorar os vinte e cinco anos de casamento com Dona Sandra e para visitar meu irmão Caio e sua adorável família, Cris e Marcelo, tia Suzi e Vó Olívia Sahad, senhora de invulgar cultura e de extrema amabilidade. Como sempre, acompanham-me os livros. Trouxe três: biografia de Chico Buarque – Para Seguir Minha Jornada (Regina Zappa), Conversa sobre o tempo – Zuenir e Veríssimo (Arthur Dapieve) e O X da Questão (Eike Batista). Sobre Chico é delicioso ler tudo o que brotou de uma efervescência cultural através dos relacionamentos de seu pai, Sérgio. Como é interessante saber dos detalhes de sua produção, suas amizades, seus ídolos e notar, ainda uma vez, a importância desse inimitável artista na minha geração. Veríssimo e Zuenir dão um banho de cultura e humildade à semelhança de outro livro que destaca um bate papo de Marcelo Gleiser (cientista) e Frei Betto. Legal ler as ponderações nunca excludentes de ciência e arte. O livro de Eike mostra que as realizações do mesmo, ao contrário do que muitos pensam, não caíram do céu. O cara fala cinco idiomas e tem um faro para negócios como poucos. Vale à pena ler estes livros, corra até o Ramires ou ligue djá. Só fui superado em leitura pela Georgia Anunciação que devorou cinco livros em oito dias.

Ali está o mar de Jorge Amado, não morto, ao contrário, vivo, jogando suas águas contra as pedras e lembrei subitamente do filme Papillon sobre o livro autobiográfico de Henri Charrière. Ali está o Elevador Lacerda, exatamente como figurava em meu livro de geografia de 1971, imponente cartão-postal. Ali está o Pelourinho e a marca tão dramática da escravatura e a pergunta, mesma pergunta que deve fazer aquele turista alemão, fotografando tudo: como pudemos cometer estas atrocidades, esses holocaustos de negros e de judeus? Amanhã, dia 02.02, as pessoas mandarão oferendas ao mar para sua Rainha Iemanjá. Minha mãe ia gostar de ver, minha mãe amava a Bahia de Todos os Santos. Fui ver o Templo da Mãe Menininha e beber o registro fotográfico de seu cativante sorriso. Fui a muitas igrejas e fotografamos o que deu. Fui a shows, fui a praças, ciceroneado pela família constituída e emprestada de meu irmão.

Intimamente o que mais me emocionou foi a visita que fiz ao túmulo do Maluco Beleza, no Jardim da Saudade. Ali ao solo, igual ao túmulo de Airton Senna no Cemitério do Morumbi, finalmente em paz, descansa um cara que encantou minha geração por revolucionário e contestador. Uns de seus melhores amigos foram Leno (Leno e Lilian) e...Jerri Adriani. Antes de se lançar cantor compunha para outros cantores. Compôs Doce  Doce Amor (Jerri Adriani) e Ainda Queima uma Esperança (Diana). E a gente nem sabia disso. O que tentar transmitir ao pé do túmulo de quem foi tão íntimo a nós. Não encontrei nada prá dizer, só o nó na garganta e a lágrima fortuita. Aqui estou, na terra de Baiaco e Sapatão (antigos jogadores do Bahia), terra de Caetano, Gil, Betânia e Gal. Terra de Luís Caldas, Pepeu, de Ivete, Marcelo Nova, de João Ubaldo, do velho ACM, de Otávio Mangabeira e da fantástica Carla Visi (ex Cheiro de Amor), que ontem à noite ao chamar ao palco do Botequim  São Jorge, minha mulher e  eu, também fez uma homenagem a Passo Fundo, que talvez não tenha tantos santos assim,  mas que estava representada por um pagão.

O que dizer a Salvador a não ser: obrigado e “voltaremos”, com certeza.
Salvador, 01.02.2012

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Carta a Daniel
Sexta-Feira, 27/01/2012 por Jorge Anunciação

Sabe Daniel, antes mesmo de teres nascido, Elton John e Bernie Taupin compuseram uma música com teu nome e que ficou eternizada na nossa geração e um cara que não lembro o nome compôs outra em que dizia: “fiz um berço de vime, azul claro da cor do véu, durma em paz e sonhe com os anjos de lá do céu” e Hélio Ribeiro comentava que não havia algo mais bonito do que aquilo composto por um pai ao lado do berço de um filho. É verdade porque é um amor incondicional e somente mais compromisso que um casamento é ter filhos. A partir de seus nascimentos a vida não pertence mais aos pais. É uma verdadeira corrida para supri-los de carinho, amor, educação, nortes e complementações materiais.

Tudo isso concomitantemente com as lutas de cada um dos adultos. Muitas vezes os companheiros de profissão sabem mais dos pais do que suas esposas e filhos. Sabe Daniel, vivi muitas coisas com teu pai Ricardo, bebemos e compartilhamos nas noites de Porto Alegre, de onde estou escrevendo essa crônica, terra de teus avós, nas noites de Buenos Aires e de São Paulo.  Juntos operamos mil e mil pessoas e óbito em trans-operatório era difícil acontecer com a capacidade profissional dele. Lembro das madrugadas e dos feriados, lembro dos sábados e domingos. Lembro da preocupação que ele tinha com a Emergência do Hospital São Vicente e com o carinho manifestado aos jovens cirurgiões. Lembro dos livros e filmes que curtíamos e das músicas de rock. Lembro intensamente das gargalhadas e da satirização do cotidiano..

Lembro até de seus maus humores, lembro do jeito de caminhar com os pés para fora assim como tu. Lembro das experiências espíritas que ele contava. Lembro da capacidade de doação e de esquecer atos desafetos. Ricardo amava a beleza das artes. É provável que não se constituísse unanimidade entre seus pares de especialidade, mas era-a (será Alcides e Ironi?) entre os cirurgiões do trauma. Não era querido pelas meninas do Bloco Cirúrgico, era amado. Capaz de patrocinar refrigerantes e bolos nos aniversários das nossas companheiras de trabalho (e mesmo sem motivos especiais), era conhecedor dos dramas familiares das pessoas que trabalhavam com a gente. Manifestava apreço mesmo nas querelas familiares de cada uma. Tinha um quê de Ricardo Montalban, da Ilha da Fantasia, pois queria resolver a vida de todo mundo.

Sabe Daniel, vocês vão crescendo, ficando independentes, fogem das nossas asas e as realizações de vocês compensam a tristeza da passagem do tempo. Lembro da decoração de teu quarto e do palquinho onde ele e a Eliane assistiam as representações cênicas dos filhos. Lembro do orgulho que ele manifestou quando trouxe até a gente o primeiro artigo que tu escreveste. Lembrei na época, não sei por que, de Tarso de Castro.  Peraí cara, como eles eram parecidos. Ele era tão diferente, assim com Tarso e, por isso mesmo, parecidos. Ambos não eram para Passo Fundo, não eram para limitações.


Sabe Daniel, pensando bem, acho que Hélio Ribeiro não tinha totalmente razão. Tão linda quanto uma música composta pelo pai ao lado do berço do filho, pode ser uma crônica de um filho sobre seu pai e do orgulho manifesto da convivência. Talvez, seja tudo o que um pai deseje de um filho: que a convivência, limitada pela temporalidade, seja de orgulhos mútuos.
Sabe Daniel, Ricardo e eu te agradecemos. Ele pediu que eu te dissesse isso tudo, se é que tu me entendes.

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Sobre leis e sobre homens
Quinta-Feira, 19/01/2012 por Jorge Anunciação

Há muitos anos o nosso Rio Grande foi épico, como novamente será mostrado na saga “O tempo e o Vento”, dirigido por Jayme Monjardim. Não era épico por ser Rio Grande. Épico também era, tanto quanto nós, Pernambuco com Frei Caneca e outros tantos. O Rio Grande era grande por seus personagens e suas lutas. É difícil julgar com a moral de hoje acontecimentos vividos há mais de 150 anos. Naquela época era comum contrabandear gado, era comum ter tantos escravos quanto se pudesse manter, era comum guerrear. Nenhuma análise é extremamente honesta se não contextualizarmos as ações acontecidas. Dentre tantos bravos homens cito a lendária figura de Honório Lemes, o Leão do Caverá, tropeiro, guerreiro e opositor às forças do governo central e que tinha como grande contraponto o General Flores da Cunha. Honório guerreava sob a invocação: “luto por um país em que os homens sejam governados pelas leis e não por outros homens”.

Quando foi capitulado e preso por Flores da Cunha, entregou-lhe a espada e ouviu a resposta deste: “guarde sua arma para que possamos nos tratar como iguais”. É, a gente lutava por regras, por leis e assim a gente se fez e assim somos respeitados. Brigamos para continuarmos brasileiros, assim como a família Terra, de Érico Veríssimo. Às vezes, escorregávamos e Borges de Medeiros aplicava a máxima: “para os amigos os favores das leis, aos inimigos os rigores das leis”. A gente, ou seja, nós, que não somos lendários e nem épicos, e sobre quem não será narrada nem uma saga, somente queria que regras fossem cumpridas, que as leis fossem iguais para todos, que não houvessem beneplácitos em razão da cor, da atividade social ou da força de brasões familiares. Na atualidade nem o governo consegue cumprir o que mesmo cria.

Na área da saúde, por exemplo, escraviza os estados e municípios a dotarem o máximo destinado de seus orçamentos a contemplá-la enquanto exercita a esquiva, sob a batuta dos políticos fiéis aos generais dos partidos e não destina nem a correção do PIB para as verbas que seriam de sua competência para bancar o atendimento do cidadão comum e que não dispõe de grana para pagar um plano de saúde. Fora outras derivações e tergiversações falaciosas sobre o novo “milagre brasileiro”. Mente, o governo, descaradamente e confunde a patuléia fazendo crer que acesso à compra ou ao crédito significa auspicioso melhoramento todos os indicadores sociais. O povo ainda não entendeu que não melhorou tudo isso. O que facilitou é que agora pode comprar a prazo, em 300 prestações.

O Rio Grande já foi bravo, os nossos homens também. Bem que a gente poderia ler mais sobre nossos antepassados. Mas a verdade é que nos acomodamos. Preferimos assistir a esta bobagem do Big-Brother, onde figuram nossos heróis atuais, heróis semi-imbecilizados que nem sabem que já brigamos por lenços brancos ou colorados, heróis desnudos não por embates e nem por falta de grana, mas por exibicionismo porque a coisa é assim, quando falta capacidade mental é melhor tirar a roupa, rapidamente.

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O ano de você
Quinta-Feira, 12/01/2012 por Jorge Anunciação

 Há quase vinte anos os computadores portáteis, os celulares, a nuvem da tecnologia e da informática, a privilegiada informação on-line fizeram crer, e quase todos acreditamos, que quem detinha as inovações das máquinas fazia o diferencial. Algumas pessoas eram detentores desses conhecimentos emergentes e, portanto, eram os mais disputados e, além disso, imprescindíveis. O computador estava ali e quem sabia utilizá-lo dominaria o mundo e conseguiria o almejado lugar no competido mercado de trabalho. Pobre de nós quarentões que mal sabíamos mexer nas teclas dos celulares. Dinossauros, trogloditas ou medievais estávamos condenados à época das trevas de onde jamais sairíamos, mesmo porque os jovens ocuparam nossos lugares e com mais saúde, mais educação focada na nova realidade, empurraram-nos à idéia da cadeira de balanço ou do pijama. Não, não havia mais lugar no mundo para nós, os deficitários das inovações.

A coisa foi piorando com o palm-top, I-pad, I-phone, ai de nós, etc. Em 2000, o Cine Teatro Pampa lotou para ouvir a palestra do midiático, orgulhosamente gaúcho, Waldez Ludwig, consultor de empresas e que estava brilhando na Globo News. Ele falou exatamente sobre isso. Falou que numa época em que a tecnologia e a informática estava ao alcance de todos, inclusive aos velhotes, o domínio sobre tais armas estava ficando em segundo plano e o que interessava, ou deveria interessar, às empresas era o capital humano. Ele entendia que o diferencial dentro de uma empresa não era mais a máquina, o diferencial era a pessoa, era você e eu. Se a máquina é máquina e pode ser acionada por qualquer um, ou se o resultado é igual se todos acionarem da mesma maneira, terá melhores denominadores quem contar com as melhores pessoas, as mais capacitadas. Quer dizer, depois de uma tempestade de verão, como quase todas as tempestades, a máquina voltou ao lugar de onde nunca deveria ter saído, o de assessorar o homem em suas capacidades sem jamais suplantá-lo. As empresas, segundo Waldez, deveriam investir pesado no capital humano, que é o grande patrimônio que ela tem. Não se busca somente mais uma pessoa no departamento; Busca-se mais do que uma pessoa, busca-se alguém que seja reconhecido como gente. Gente é mais do que pessoa.

Mas, veja bem, se entendemos que as pessoas fazem o diferencial, se as pessoas determinam resultados por que razão deixamos participar de nossas vidas pessoas de mau agouro, pessoas pessimistas e negativas? E, ainda, será que somos daqueles que acrescentam às vidas de outros, ou nossas presenças podem ser descartadas? O que seria pior, uma ausência não notada ou uma presença despercebida? Qual a diferença que fazemos no meio em que vivemos? Já que somos melhores que máquinas bem que esse ano poderia ser nosso, um ano de exercermos nossos talentos, um ano de brindar aos que convivem conosco as nossas melhores habilidades. Esse é o nosso ano, ano de brilhar, ano de corresponder  porque...bem, porque...porque puta que pariu... porque só depende de nós, só de nós e somos maiores que qualquer máquina.

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