Ouvindo alguns escritores durante a jornada de literatura senti um imenso orgulho pelo que se projetou e construiu em Passo Fundo nos últimos anos. Tânia Rösing e dedicados companheiros, patrocinadores e incansáveis leitores alçaram nossa cidade a uma respeitabilidade cultural invejável. Logo a gente que, a quatro décadas era conhecida como a Chicago dos Pampas, terra de quadrilheiros, de assassinos, de mortes cruéis à semelhança do século XIX, época de degolas que envergonham e entristecem a todos. Sempre há o que perguntar e tietar aos consagrados autores e quase me encorajei para tentar um bate papo com Ignácio de Loyola Brandão. Queria falar sobre seus livros – Zero e Não Verás País Nenhum – apocalípticos que, lembram Aldous Huxley e Orwell e saber se são projeções, se são devaneios, se são elucubrações ou simplesmente criação. Queria saber de Afonso Romanno de Santana, como brotam, como se fosse suor, seus poemas e de que maneira percebe-se suave como uma noite de verão, como o respingar de uma chuva fina em casas de tetos de zinco e que nos remetem aos céus e pintam, por isso mesmo, uma dimensão que a vida dos comuns necessita para o empuxo do dia-a-dia. Infelizmente não consegui chegar perto das celebridades e nem sei se haveria respostas sobre o que se quer dizer exatamente quando se escreve uma obra. Escreve-se e pronto, assim como se assa um churrasco e assa-se outro e as pessoas comem e amanhã faremos outro e mais outro, buscando o assado perfeito. Busca-se uma idéia, assim no ar e põe-se no papel, lembra-se de uma passagem com traços autobiográficos e conta-a como ficção ou traços romanescos. Resumindo, conta-se algo e o escritor, craque das letras, cria no meneio das palavras e expressões, tipo Niezstche, para ler devagar e meditar, ou José de Alencar para ler com um dicionário ao lado, ou a conversa direta como Zuenir e Veríssimo, ou uma ficção de Carl Sagan, ou ainda um relato tipo Marcelo Rubens Paiva. Acho que se um autor quer atingir um número grande de leitores deveria escrever uma história com palavras simples e mensagem direta, como Flávio Tavares, esse escritor de Lageado, sobrinho de Décio Freitas.
Gostei de tudo, ou melhor, de quase tudo. O escritor dormiu sentado, deliberadamente ou não, talvez tenha sofrido o que se chama de alcalose metabólica pós-prandial, vulgarmente conhecida como a saudável soneca pós-refeição. Melhor que tenha sido assim. Só que a gente esperava que o seu despertar seria de efeitos nunca antes visto, espécie de “Fiat Lux” e que inebriaria os assistentes. Pensei – esse cara vai fazer o “debuio”, como costuma dizer carinhosamente Glênio Spinatto quando quer se referir a uma pessoa que vai arrasar. Mas, não. O cara falou e não disse ou se disse o fez de modo que não entendi. Talvez e é bem prováve que eu não tenha a capacidade de compreender o que ele quis dizer. Mas, frustei-me porque esperava mais de quem tem cabelos brancos, barriga e histórias de exílio. Esperava o erudito, veio o Chacrinha. Acho, também, que histórias necessitam de convívios e ressonâncias humanas. É ali e, em nenhum outro lugar, que se bebe a água que dá viço ao que se pretende transmitir. Não se pode viver enclausurado, sem contato com as pessoas e contar histórias para pessoas. Acho que sempre há o que dizer, quando se tem o que dizer. É por isso que lá vamos nós, os comuns, para ouvir e aplaudir. Tem que ter mensagem efeito placebo, tipo assim, isso vai melhorar, a vida pode ter encanto. Ou efeito nocebo, tipo assim, a vida está ruim e vai piorar. Se não há a intenção de oferecer caminhos, não se ameaça a inteligência das pessoas com soluções tipo fast food; Deixa-se uma pergunta, uma meditação e oferece-se ao leitor a melhor das perguntas que ele poderia fazer ao terminar de ler uma obra: será que poderia ser assim? Isto é possível? Existe um amor assim? Existe um mundo assim? Será? E deixa para a cabeça de cada um a viagem de cada um.
meu time está completando 108 anos de trajetória de paixões intensas. Lutas heróicas, sangue e suor, derrotas e vitórias. Dos meus 54 anos há mais de três décadas convivo ao rádio pelas narrações diretamente do monumento chamado Estádio Olímpico, o velho Olímpico e o novo, inaugurado num jogo na estréia do paraguaio Carlos Kiese se não me engano em 1979. Agora, o estádio está para ser demolido e com ele parte enorme de epopéias e sonhos. Estou pensando nisso, caminhando pelas ruas de nossa cidade e percebo monumentos que vão sendo demolidos e com eles, parte de nossos passados recentes e tardios. O Beco do Susin, por exemplo, ali na baixada da Rua Uruguai. Lembro de Hélio Renan Dias tentando fazer uma serenata, dedilhando sambinhas básicos em seu surrado violão sem saber que o pai da pretendente era uma artista. O “sogro”, ao dar uma palhinha, tocou samba, tango e músicas clássicas. Valeu a intenção e ficou a historinha. A Rua XV de Novembro em outras eras era uma espécie de zona de luxo. Explico melhor aos mais jovens: zona era um lugar específico da cidade onde meninas da chamada vida fácil comercializavam seus atributos físicos. Estes locais caíram em desuso porque as meninas resolveram espraiar seus raios de ação de modo que elas podem ser encontradas em qualquer lugar. Não há mais zonas geográficas, democraticamente a zona está em todos os lugares. A rua XV a que me refiro é a rua das pensões dos estudantes de segundo grau e da universidade. Dia desses, um colega de São Paulo revendo a cidade após anos de afastamento, pôs-se a chorar ao caminhar por aquele local. Ali viveu amores e desamores, ali viveu misérias e eternas amizades, ali viveu seus sonhos e planejou a vida que é. Outra praça a deixar saudades é o majestoso Ginásio Capinguí (pelo menos para mim). Foi recentemente, local de rotina para quem amava e prestigiava o futsal. Apagamos o ginásio tal qual acabamos com o time. A Cantina do Gageiro com o chope, se Mário, seu Paulo, o velho e o novo Gageiro (o Gageirinho) e lá naquela mesa, olhe bem, Edu Villa de Azambuja e Dino Rosa. Trocou de nome, trocou de dono, mas será sempre o Gageiro.A Cantina Napoli das pizzas, do vinho de garrafão e de amores incontidos e, para não cansar, o churrasco do velho Scandolara, ali na General Osório, nos sábados ao meio-dia. Prometo nem tentar falar do Jeremias, da velha Churrascaria Gaúcha do Valter, da Galeteria do Magro e do Lago.
Quero dizer com isso tudo que é preciso escrever a história desses lugares que, assim como o Estádio Olímpico, vai deixando de existir em nome do progresso.
O Beco do Susin não está sendo demolido arquitetonicamente. Está sendo demolido pelo fato de que , ao não ter suas histórias registradas, vai se apagando pela inexorável marcha do tempo. Ao construirmos em cima do velho, atualizamos, ou repaginamos aquele local. Mas, apagamos aquilo que foi e para os mais sensíveis restam as lágrimas em memória do que foi e que não vai voltar.
O Brasil independente do reino de Portugal, país do futuro como se diz por aí, ainda não se descobriu como nação. É um país rico, de costas marítimas extensas, de infindáveis prodígios naturais, rico em potenciais de florestas, de alimentação que brota da terra em que “se plantando, tudo dá”. Somos isso aí, passando da quinta para a quarta potência mundial em economia. Somos esse país, “esse é um país que vai prá frente”. Alguém afirmou e, a seguir, perguntou: o Brasil tem um futuro, o Brasil teve um futuro, O Brasil terá um futuro?
Um país, por determinação semântica, é a extensão territorial e suas riquezas. Por definição é uma extensão territorial com limites geográficos. Não foi feito por nós e nem poderia ter sido porque é obra do, digamos assim, Criador. Apenas, por gozação ou por deleite, nascemos aqui. Por definição também, somos brasilianos e não brasileiros. Mas a coisa pegou e, brasileiro em vez de brasiliano... tudo bem. Um país pode ser frio, sem alma. Pode ser caliente, expansivo. Pode ser tudo aquilo que o seu povo quiser. Um país pode ter uma alma, uma alma que nos orgulhe e que a ela, a alma, somos levados incontidamente a bradar orgulhos de sermos pertencentes a ele. Quando cantamos e exibimos orgulho pelo chão pátrio é possível afirmar que fazemos parte de uma nação. Um país não é uma nação. É possível ter país sem nação. É possível ser nação sem ser país. Nação é uma questão metafísica, espiritual. Pela pobreza em mostrar valores pessoais e sociais que nos orgulhem é que não desfilamos nossos amores.
Ainda não somos uma nação, ou melhor, muito de nós não sente o Brasil como uma nação. Sentem-no apenas e, tão somente, como um país. E o pior, um país de pessoas do jeitinho, de gostar de levar vantagem, da locupletação, do odioso homem público que mama nas tetas do erário público, da polícia despreparada e desorganizada frente ao crime organizado. Nem a seleção brasileira de futebol é capaz de mover sentimentos e o último cara que fazia a gente ter vontade de correr com a bandeira verde-amarela pelas ruas, morreu há 17 anos, naquele acidente de fórmula 1.
No sete de setembro, nossa data máxima não cabe protestos para aumento de salários ou contra militares, ou contra comunistas ou contra o governo. A gente é tudo isso, criticador e criticado e misturado, errado e certo, direita e esquerda, azul e vermelho. A gente construiu isso tudo, ou permitiu que assim fosse feito. Isso que aí está, o que somos, foi por livre arbítrio parido por nós. O Criador somente deu a casa para a gente nascer e morar. A construção da pátria amada é pelos seus filhos.
O Brasil é um país jovem, uma terra na sua primeira infância, uma sociedade em progressão a ser deixada aos filhos e netos. Está sendo lapidado a cada dia por nós, pelo nossos votos e nossas escolhas. A gente planta nação, um sentimento forte, um estampado orgulho, dentro de nossas casas, com nossos exemplos, com nossas dignidades. Um país não é bom ou ruim, um país não é admirado ou odiado, um país não é confiável por si só. As pessoas que compõem o país é que dão tal credibilidade.
Nós é que podemos construir para os que virão nos suceder a fonte do orgulho e êxtase. Nós construiremos a Passo Fundo, Coxilha, Pontão e Ernestina pujantes.
Não é utopia sonhar ser nação. A gente quer se orgulhar, de preferência orgulhar da gente mesmo. Mas, para ser nação é bom acordar do sonho e realizar, a cada dia ações positivas e responsáveis que justifiquem nossa fugaz passagem pela aventura chamada vida na terra que Pindorama, a mãe, destinou que nascêssemos.
A gente está sempre em busca da tal felicidade e muitos não sabem onde ela mora. Não há respostas prontas e oferecidas ao varejo ou atacado, mesmo a despeito dos livros de auto-ajuda, o das fórmulas mágicas, cada vez mais vendidos. Ser feliz é tudo o que se quer e o negócio é exatamente saber o que se quer para ser feliz. Ou seja, para atingir a felicidade deve se saber o que significa a tal felicidade. Um torcedor fanático pode pensar que ser feliz é quando o seu time ganha todas. Como isso não acontecerá permanentemente, na derrota ou empate, ele ficará infeliz. Outro pensa felicidade em relação diretamente proporcional a ter dinheiro. Dindim no bolso = felicidade. Sem dindim = infelicidade. Outras pensam felicidade em comprar, comprar, gastar, gastar. E se vendem e se entregam porque é o preço para o objetivo de ser feliz.
Para saber o que realmente importa em nossas existências deve-se fazer a pergunta simples: do que você vai sentir falta quando morrer? Eu responderia, de tudo. Da família, das atividades como médico e colunista, das palestras por aí e na Casa Espírita André Luís. E sentiria falta, muita falta da chuva porque sempre apreciei ver chover. Remete-me à cidade natal, jogando bola com meus irmãos e primos, brincando de ser feliz. Odair José, músico e sociólogo de plantão, diz em uma música que felicidade não existe e o que existe na vida são momentos felizes. Se isso for verdade, a tal busca do permanente estado de ser, da inebriante sensação de regozijo celestial será estéril, pois não passa de fragmentos de pura liberação de endorfinas e que fazem flutuar, assim como se se tomasse uns cálices de vinho a mais. Talvez, seja por isso que as pessoas dizem que gostariam de morrer em paz. Ninguém diz que gostaria de morrer feliz. Só que a paz não é algo subjetivo, depende de construção social e de relacionamentos. Construir a paz, viver em paz, dormir em paz é o que penso que é o nosso dever. Ser feliz é algo mais profundo a ser buscado, algo quase divino e não extensível a todos, a não ser que se busque incessantemente e se conquiste essa condição. Ninguém é feliz se não estiver em paz. Paz primeiro e felicidade depois.
Há um livro de Rossano Cavalari que conta a história de Cruz Alta em forma de dicionário, ou seja, de A a Z. Conta de Luize Altenhofen, Érico Veríssimo, Justino Martins, familiares de Sérgio Jockymann, Algir Lorenzon, Bybo Nunes, Hélio Carlomagno (Inter), Júlio de Castilhos, General Firmino, Serys Slhessarenko (política) – nascidos na terrinha. Conta o relacionamento da cidade com o Sr. Norman Borlaugh (Nobel da Paz), Vera Bublitz (bailarina), Marcos Losekann (repórter da Globo), Jayme Caetano Braun, os Westphalen. Conta mais, conta o Guarani, Nacional e Riograndense, enfim conta a Santa Fé dos nossos antepassados. Como toda a obra, é incompleta porque também teria eu uns causos a contar. Na verdade, fiquei com inveja do grande escritor Rossano. Será que não daria prá gente copiar a idéia e publicar um dicionário de Passo Fundo ? Se já existe, gostaria de lê-lo. A gente tem Dr Veríssimo, Dr. Osvandré, Santina Dal Paz, Damian e Paulo Monteiro. Podemos contar muito. E tem gente prá ouvir.