Por motivos sobretudo de prestígio, Benito Mussolini empreendeu a invasão da Grécia, em 28 de outubro de 1940, após ver rejeitada sua exigência de ocupação de territórios helênicos pelos italianos durante o período de guerra. Paradoxalmente, na chefia da Grécia encontrava-se ditador fascista que impusera aos gregos a saudação romana. Ao discutir a invasão, o futuro comandante da operação malograda respondeu à pergunta de Mussolini sobre o moral do soldado grego: “Non è gente che sia contenta di battersi”.
Mal preparadas e sem motivação, as tropas italianas enfrentaram-se com a enorme galhardia helênica na defesa de sua nação, sendo escorraçadas até o interior da Albânia, de onde haviam chegado. A Grécia seria submetida apenas com a intervenção maciça da Wehrmacht, em janeiro de 1941. Até a Libertação, os nazifascistas foram duramente combatidos por guerrilha grega, sobretudo comunista. A aventura italiana na Grécia permitiu a primeira vitória aos Aliados na II Guerra e pesou sobre a invasão da URRS pelas tropas hitleristas.
Sete décadas mais tarde, desta vez é o governo alemão que apresentou, na segunda-feira, 30 de janeiro, quase oficialmente, a proposta de uma Segunda Campanha da Grécia, na reunião dos chefes de governos da União Europeia, convocada sob o pretexto de discutir o relançamento da economia e do emprego, mas voltada nos fatos para a administração das dívidas soberanas que assombram, em diversos graus, praticamente todas as nações europeias, com destaque para Grécia, Portugal, Espanha e Itália.
O documento alemão propunha literalmente a submissão do governo grego, “preferencialmente através de uma mudança constitucional”, a um “comissário” europeu (leia-se alemão), com a autoridade plena sobre a administração grega, no relativo aos gastos públicos, a fim de que se dê “absoluta prioridade” ao pagamento da dívida externa. Ou seja, exigia-se o abandono literal da independência nacional do país, em favor de comissário estrangeiro.
Inicialmente através do governo de centro-esquerda e a seguir sob a direção de governo técnico pluripartidário (socialista, direita, extrema-direita), a Grécia vem sendo submetida a exigências arrasadoras quanto à privatização dos bens estatais; cortes dos gastos e do emprego públicos; redução dos direitos trabalhistas; diminuição dos salários públicos e privados; extensão da jornada de trabalho e da idade de aposentadoria; aumento dos impostos, etc.
Como resultado dessas medidas, meio milhão de gregos perderam o trabalho e difundiu-se a população sem-teto e incapaz – sobretudo velhos – de financiar a própria alimentação, antes fenômenos praticamente inexistentes no país. O alcoolismo, as drogas, a violência, o suicídio, a prostituição, etc. alcançam agora níveis antes impensáveis para a Grécia. Exigida pela Troika ¬- Comissão Europeia, Banco Central Europeu, FMI, essas medidas são condições para que o país receba novos empréstimos para pagar os empréstimos vencidos, devidos sobretudo aos bancos alemães e, secundariamente, franceses.
A crise da dívida soberana grega estourou quando as “agências de classificação de risco”, sob o controle do grande capital anglo-estadunidense, desclassificaram a capacidade do país de pagar sua dívida, motivando aumentos insustentáveis nas taxas de juro dos empréstimos de curto, médio e longo prazo do país. A aplicação das exigências da Troika ensejou que o país mergulhasse em brutal recessão – superior a 5,5% −, expandindo relativamente o déficit público, com a queda dos impostos e taxas.
Em 2011, os ingressos públicos estatais retrocederam e quase novecentos milhões de euros, enquanto as despesas aumentaram neste período, devido à explosão do custo da vida no país! As medidas draconianas impostas à população grega procuram apenas ampliar a recuperação dos capitais emprestados pelo capital financeiro, antes que o país se encontre em impossibilidade de pagamento – default −, programada ou não.
A proposta alemã foi rejeitada peremptoriamente pela enorme maioria dos representantes dos estados presentes à reunião de 30 de janeiro, certamente pela sua pletórica inabilidade. O próprio presidente do Eurogrupo, o luxemburguês Jean-Claude Juncker, denunciou como inaceitável tal projeto, lembrando ser “fortemente contrário à ideia de impor um comissionamento completo apenas à Grécia”. Em verdade, um dos objetivos da reunião é a institucionalização de sanções automáticas para os Estados que não respeitem o equilíbrio orçamentário determinado pela governança europeia, já instalada informalmente no continente, sob a hegemonia do capital financeiro alemão e internacional. Ou seja, a ocupação pelo grande capital financeiro é prevista para todo o continente! O que acontecerá muito logo, se o europeu se mostrar “Gente que não Gosta de Combater”!
O governo do Irã sabe que, para manter a autonomia e o controle de suas riquezas naturais, necessita obter a arma atômica. Por possuí-la, a pequena Coréia do Norte mantém sua independência. Por não terem alcançado a dominá-la, o Iraque e Líbia perderam sua independência nacional, o controle de suas riquezas e tiveram suas populações massacradas.
Sobretudo na Tunísia e no Egito, o movimento popular-revolucionário contra as ditaduras pró-ocidentais mobilizou-se por melhores condições de existência, expressando a tensão insustentável de sociedades já frágeis, submetidas a políticas neoliberais de privatizações, cortes de subsídios, arrocho salarial, desemprego, etc.
Apenas no Egito os trabalhadores tem desempenhado um papel relevante na revolução, sem porém conseguir dirigi-la. Na falta de direção operária consequente, as revoluções árabes vivem a ameaça de verem os parcos ganhos democráticos sumirem no ralo da estabilização eleitoral, com o apoio, sobretudo, dos setores mais atrasados da população ao fundamentalismo religioso, expressão alienada do radicalismo social com que sonham igualdade, fraternidade etc.
Com a legitimação de eleições democráticas, novas direções fundamentalistas já discutem e propõem novas formas de reorganização da dominação e submissão. Nesse momento, os partidos islâmicos vencedores na Tunísia e no Egito, com destaque para a Irmandade Muçulmana, negociam com o imperialismo estadunidense a substituição das antigas e desgastadas ditaduras militares.
A bestial intervenção na Líbia foi salto de qualidade no restabelecimento do controle imperialista no mundo árabe. A falta de oposição mundial àquela intervenção expressou a pungente dificuldade subjetiva que o mundo do trabalho e o movimento social vivem através do mundo, jamais superada após a grande vitória conservadora mundial de fins dos anos 1980.
A agressão imperialista à Líbia deu-se sob o quase silêncio das populações árabes envolvidas pelos ventos revolucionários. Mais grave ainda, contou com o apoio da maioria das auto-proclamadas organizações de esquerda e de esquerda revolucionária ocidentais, inebriadas com a retórica bélico-humanitária do imperialismo de que se depunha um ditador e não se massacrava uma nação.
Com a instauração na Líbia de ordem indiscutivelmente pró-ocidental, as organizações que festejaram o massacre da população líbia pela Otan simplesmente abandonaram a discussão daqueles sucessos, cada vez mais impossibilitados de apresentarem como revolução social, popular e democrática a criatura medonha parida pelo imperialismo. Mas seguem no geral apoiando a agressão imperialista à Síria.
A intervenção na Líbia procurou também demonstrar que o imperialismo pode arrasar o país árabe que quiser, quando quiser. Além do controle das reservas petrolíferas, o imperialismo procurava a construção de base de intervenção na região, devido à situação instável do Egito e do Iraque, de onde teve que retirar todas as suas forças armadas.
Atualmente, a pressão imperialista concentra-se fortemente na Síria, o atual elo frágil, caminho necessário para a neutralização do Irã, o seu objetivo maior tático. Devido ao poderio militar do Irã, os USA apostam no esgotamento do país, através do boicote internacional às exportações de petróleo. Ao contrário, Israel pretende ataque imediato, não havendo mais dúvida sobre sua responsabilidade nos ataques terroristas contra cientistas iranianos.
A submissão da Síria constitui importante golpe contra a Rússia, que perderia o último aliado na região e sua base naval de Tartus. Em resposta, o governo russo declarou que não aceita “intervenção militar na Síria”. E aumentou a frota naval na região, garantindo à Síria cobertura de radar, no caso de estabelecimento de “zona aérea de exclusão”, na fronteira com a Turquia, para organizar território livre no país, como proposto.
Até agora, a China mantém-se silenciosa no que se refere a eventual ofensiva orientada estrategicamente contra ela. Na Austrália, em 16 de novembro, Obama declarou o deslocamento do centro de intervenção do imperialismo estadunidense do Oriente Médio para a Ásia-Pacífico – daí o interesse na Colômbia, Peru e Chile.
O controle da Líbia foi importante passo na estratégia imperialista para submeter a China através do controle das suas fontes exteriores de abastecimento de petróleo, das quais é totalmente dependente. Com a liquidação do Irã, a China seria submetida ao mesmo cheque-mate aplicado ao Japão pelos USA, na década de 1930, que levou à guerra do Pacífico.
•Mário Maestri, 63, é historiador e professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS. E-mail: maestri@via-rs.net
Meu último assado em Santiago foi em inícios de 1973. Os dias eram ainda longos e o verão não começara a encolher-se, mantendo a ilusão que as noites geladas do inverno continuariam para sempre escondidas por detrás das cordilheiras que cercam a cidade.
A flaca Cecilia preparava o tecito com ayulla e huevitos revueltos que servia após a reunião. Eu olhava os exemplares de El Rebelde que o Chino trouxera para vendermos, ali mesmo, na Vila Macul, na manhã do dia seguinte. Mário, ao meu lado, falou-me em voz ainda mais baixa do que a normal.
– Compañero José Antonio, já comeste cabrito? Gostarias de comer um assado de cabrito, domingo? Meus companheiros de trabalho querem te conhecer.
Tínhamos grande respeito por Mário, devido a sua trajetória e idade. Entre nós, era o mais velho. Teria já quarenta anos. Era do campo, trabalhara na Concha y Tora, mudara-se para Santiago, onde dirigia, agora, pequena equipe na construção civil.
– Como no! Jamais comi cabrito! Será um prazer. Levo o vinho, respondi, al tiro!
O convite era maná dos céus! A direita, financiada pelo imperialismo, sabotava sem dó a economia para exasperar a população com o desabastecimento. Se a carne sempre fora um quase luxo para a população, agora era verdadeira raridade. Jamais comera um assado, desde minha chegada em Santiago, em fins de 1970!
Após a venda dos jornais, paramos em uma botilleria, onde Mário iniciou sua já célebre operação. Confabulou com obotillero, dirigiu-se por entre os engradados de cerveja para a prateleira de vinhos do pequeno negócio. Selecionou algumas garrafas. Leu os rótulos, cheirou as rolhas, examinou o líquido contra a luz do sol. Saímos com quatro garrafas do excelente vinho chileno. Bastariam para os cinco comensais, já que Mário bebia apenas água.
Tomamos uma liebre, sentamos nos bancos de trás, pois íamos até o final da linha. Iniciamos longa viagem em direção à cordilheira, através de poblaciones ornadas com as bandeiras orgulhosas dos partidos de esquerda. Caminhos por meia hora em direção da residência do asador, em uma toma realizada poucos meses antes da vitória da UP.
Os companheiros encontravam-se na frente de uma meia-água, acocorados em redor do fogo coroado, para meu gáudio, por não um, mas dois cabritos!
Os três anfitriões, jovens, atarracados, de cabelos negríssimos e pele bronzeada, eram mapuches que trabalhavam comopeões da construção. Nativos do centro-sul chileno e argentino, os mapuches resistiram com tenacidade à invasão castellana. A vitória de Allende fora o sinal para vasto movimento de recuperação de terras históricas ocupadas por latifundiários.
Ainda mais lacônicos do que Mário, os companheiros deixaram logo claro que eu, brasileiro, refugiado e universitário, estava ali para contar e eles para ouvir. Me interrogaram, sempre em voz baixa, sobre a ditadura, sobre o futebol, sobre a comida no Brasil, a política chilena, sobre o governo de Allende. Tudo regado com o tinto generoso.
As garrafas do excepcional vinho escolhido por Mário chegavam ao fim e eu permanecia com os olhos grudados nos cabritos, que seguiam sendo girados com paciência canina sobre o fogo.
Aproveitei pausa na conversa para avançar a faca sobre o cordeiro mais carnudo e pontificar, confiante: – Al combate, sin miedo!
O companheiro ao meu lado explicou, ao segurar meu braço: – Cabrito tem que ser comido quemadito, quemadito.
Uma vida mais tarde, desmaiando de fome, provei por primeira vez a carne deliciosa de cabrito, ainda que demasiadamente passada para o gosto de rio-grandense comedor de carne sangrenta. Ao final, diante das carcaças e das duas garrafas já derreadas de vinho popular apresentadas pelos anfitriões, perguntei onde era o banheiro.
– Alivia-te no más nos fundos, compadre – responderam-me.
Meio trôpego, procurei a proteção da parede de alvenaria semi-levantada do pequeno quintal, que permitia entrever as últimas moradias da vila em construção. Ao retornar, vi os dois couros de cachorros, estaqueados com habilidade, apoiados na parede da moradia.
Dias mais tarde, um colega do curso de História me explicou que, no passado, os mapuches aproveitavam as carnes dosperros cimarrones que proliferaram quando das vacarias espanholas, que retiravam os couros e abandonavam as carnes dos animais nos pampas. Informação que jamais pude confirmar. Mário me chamava para me acompanhar, com os companheiros, até a parada. Na vila eram todos trabalhadores, mas não havia que facilitar com os cogoteros – me explicaram. O céu cada vez mais avermelhado anunciava que o dia findava sem piedade.
* Mário Maestri, 63, historiador, professor da UPF, viveu de 1970 a 1973, como estudante, em Santiago. E-mail:maestri@via-rs.net
Mário Maestri & Florence Carboni *
Como os engenheiros, advogados, médicos, etc., também os pedreiros, mecânicos, eletricistas, informáticos, motoristas, torneiros-mecânicos, enfermeiros, policiais, etc. necessitam possuir competência comunicativa, verbal e escrita, correta, lógica e rica, e conhecer em forma substantiva os elementos básicos de matemática, física, química, história, geografia, língua estrangeira, para desempenharem em forma qualificada suas funções sociais.
Sobretudo, antes de propostas modernosas e estapafúrdias tiradas da algibeira pelo novo governo, como o diálogo com as “novas tecnologias” e a preparação da “inteligência para os novos desafios”, o ensino médio no Rio Grande do sul tem que fazer bem sua lição básica de casa – ensinar os alunos a pensar, a expressar-se, a ler e a escrever corretamente.
Durante todo o ciclo fundamental e médio, o ensino deve desdobrar-se em atividades teóricas e práticas, distribuídas e integradas harmonicamente. Deve também fornecer formação básica e sólida em práticas hoje imprescindíveis à vida social e profissional – digitação, informática, etc. Aprendizado que implica que todas as escolas possuam efetivamente laboratórios e bibliotecas acessíveis a todos os alunos, o que exige, convenhamos, escassos investimentos. Essa formação é a base imprescindível para qualquer cultura técnica.
Não há outro caminho a ser seguido. Uma escola pública livre, laica, gratuita e de qualidade, capaz de propiciar uma formação básica sólida e efetiva, constitui o único caminho capaz de armar uma enorme parte da população sulina para a vida social e profissional, alavancando poderosamente o próprio know-how elementar do Estado. Uma escola pública de qualidade constitui igualmente de um dos mais poderosos instrumentos de sociabilização.
Para alcançarmos a escola que necessitamos, não serve atos de alquimia, que se sucedem no Rio Grande do Sul, monotonamente, a cada governo empossado, contribuindo inexoravelmente ao sucateamento do ensino público estadual. Impõe-se apenas formação de qualidade para o corpo docente, com remunerações e jornadas de trabalho condizentes com a atividade de ensino.
Desde talvez o distante governo de Leonel de Moura Brizola, a partir da ditadura militar, o ensino público estadual tem sido objeto de inexorável desmonte pelos governos de todos os sabores políticos, associado à transferência dos recursos públicos aos grandes interesses privados. Uma política que sempre teve como corolário a expansão do ensino privado, em uma ótica mercantil de voracidade pantagruélica.
A atual situação da escola pública no Rio Grande do Sul não se deve à incapacidade, ao descuido, à corrupção, etc. dos políticos, ainda que tudo isto desempenhe papel substancial nesse processo de degradação inexorável. Essa política corresponde apenas ao assinalado desvio dos recursos públicos para os grandes interesses privados, baseado em convicção ideológica da imprescindível construção e reprodução de sociedade de classes a “duas velocidades”. Nos fatos, vivemos o mesmo processo de degradação dos investimentos públicos na saúde, segurança, cultura, etc.
Sem inovar e inventar absolutamente nada, Tarso Genro e seu escudeiro para assuntos escolares prosseguem apenas e simplesmente em cavalgada histórica insana embalada pelo terrível aforismo de Friedrich Nietzsche de que, “se queremos criar escravos, não devemos educá-los como senhores”.
Mário Maestri, 63, é historiador e professor do Curso e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. E-mail: maestri@via-rs. Florence Carboni, 59, é linguista e professor do Curso de Letras da UFRGS. E-mail: fcarboni@via-rs.net