Memórias do Esporte 30-31/01/10
Sexta-Feira, 29/01/2010 por Meirelles Duarte

Eles pagavam para jogar futebol

O Gaúcho, com Cavalheiro, Amâncio, Sariba, Branco, Maneca e Hugo. Agachados: Meca, Montezana, Rebechi, Chita e Banana - 0 x 0 diante do Novo Hamburgo

Meirelles Duarte

O futebol foi sempre uma fonte de renda ou sobrevivência para seus praticantes? Uma indagação que provoca uma meditação bem profunda, considerando-se, hoje, os milhões ou bilhões que o futebol, no mundo inteiro, consegue movimentar. Na verdade os primeiros anos, especialmente na década de 1930 quando o futebol realmente explodiu com a disputa das primeiras Copas do Mundo, é que os grandes clubes começaram a remunerar seus atletas. Muitos anos passariam para chegar ao interior onde o futebol era um esporte como qualquer outro sem se pensar dele conseguir sobreviver. Aqui mesmo em Passo Fundo, ao final da década de 1930, exatamente no ano de l939, o Gaúcho conseguiu memorável campanha sagrando-se vice-campeão amador do Estado, eliminando grandes equipes da época como o Grêmio de Bagé que tinha até jogadores que passaram pela seleção Uruguaia. Veio perder o título diante do representante de Livramento, quando o favoritismo pendia para as cores alviverdes. No time do Gaúcho daquele ano, surgiram uns poucos que recebiam e viviam do futebol. A maioria tinha profissão definida, fazendo do futebol a prática de um esporte que lhes dava orgulho e satisfação. Já a partir da década de 1940 começaram as remunerações, mas sempre modestas. Quem fazia do futebol seu meio de vida, vivia num nível de quase pobreza, residindo em vilas e bairros, longe dos meios sociais da cidade. Quando aqui veio pela primeira vez o Internacional para um amistoso contra o 14 de Julho, o time colorado local, que empatou em 4 x 4 com o poderoso rolo compressor da capital, tinha jogadores que pagavam para jogar, como o goleiro Suzin, Hélio Ferreira, depois formou-se na medicina, Gojo, forte madeireiro em Erebango que não só nada cobrava como colaborava com valores substanciais com o time. Vieram muitos outros como Centenário do Amaral, contabilista, Flávio Araújo, viajante comercial, Zizi, funcionário do Banrisul, Beto, funcionário da Varig, Caico, funcionário do Banco do Brasil, Jorge Berthier de Almeida, forte madeireiro da cidade; Plínio Rossetto de família do alto comércio da cidade. Heitor Verardi, odontólogo, Nívio e Alceu Belotti, do comércio, inúmeros ferroviários que tanto jogaram pelo Riograndense como também nos demais clubes da cidade. No Gaúcho tivemos Branco, o Luiz Wilson Ughini, filho de família abastada do comércio atacadista. Este contribuiu com somas consideráveis e até material esportivo com o Gaúcho. Armando e Guilherme Rebechi, irmãos, nunca cobraram e terminaram dirigindo e gastando somas consideráveis com o futebol. Armando veio para salvar o Gaúcho, sem importar no quanto gastaria, mas foi afastado pelos invejosos e destruidores do clube alviverde. Neri Simão, que foi industrial com fábrica de café no bairro Santa Marta, com seu irmão, o arqueiro Abei Simão, foram outros que nunca cobraram para jogar, sendo, ambos, excelentes jogadores, Neri tido como um dos maiores goleadores do clube colorado em seu tempo. Poderia enumerar vários outros e bem sei que os próprios leitores, especialmente da velha guarda, têm grandes nomes que deveriam ser incluídos. Mas o espaço nem sempre comporta tudo o que se poderia divulgar. Hoje, numa homenagem ao que fez como grande jogador e pelo muito que deu ao Gaúcho no seu tempo, divulgo a foto abaixo onde, dentre todos os jogadores que a compõem, Branco, e Rebechi, pagavam e distribuíam tudo que recebiam nas vitórias, com os seus demais companheiros de equipe.

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Memórias do Esporte 23-24/01/2010
Sexta-Feira, 22/01/2010 por Meirelles Duarte

O maior galã do futebol: Heleno de Freitas

Heleno de Freitas,o maior galã do futebol brasileiro

Meirelles Duarte
O futebol brasileiro, especialmente na década de 1940, preocupava-se e muito em apontar, entre os maiores jogadores dos grandes clubes tanto do Rio de Janeiro como de São Paulo, os que eram  tidos como os galãs, figurando nas colunas sociais e namorando as jovens, não só as mais bonitas como as mais ricas, que desfilavam e participavam dos maiores eventos sociais das duas grandes capitais. Naquela década, Passo Fundo também teve o seu galã, jovem de bela estatura, frequentando os bancos escolares do Instituto Educacional, filho de pai rico e jogador de futebol. Caio Rostro, goleiro, era filho do empresário, senhor Deoclécio Rostro e irmão de Amílcar, que foi dirigente do Gaúcho. Caio jogou nos primeiros times do Independente que teve em seu pai um dos fundadores. Nada cobrava para jogar e namorava as moças mais belas e ricas da cidade. Formado e casado, residiu em Porto Alegre, nunca mais para cá retornando. Caio, dentre os jogadores existentes em sua época, era o único que frequentava os Clubes Comercial e Caixeiral. Hoje, no futebol brasileiro, temos vários atletas que já foram apontados como galãs, pela sua beleza física, mas nenhum com status de pessoas do alto mundo social. Um destes é Kaká, hoje no Real Madrid que até seu casamento, era disputadíssimo pelas jovens torcedoras do São Paulo e do Milan. Ninguém, até hoje, se igualou ou superou Heleno de Freitas. Era um jogador que os jornais e TV de hoje chamariam de jogador diferenciado, que é um eufemismo para dizer que o sujeito não tem origem humilde, que já nasceu rico, que frequentou os principais colégios de sua época, ou seja, teve um nível sociocultural diferente da maioria dos seus colegas de profissão. Filho de forte comerciante de café em Minas Gerais, formou-se em Direito no Rio de Janeiro. Era bonito, fazia sucesso com as mulheres na sociedade carioca. Jogando pelo Botafogo contra o Fluminense, a torcida tricolor o chama de Gilda, a mais bela artista do cinema da época. Um grande centroavante, escolhia o clube onde jogar sem cobrar luvas e ordenado. Assim sendo, passou pelo Vasco da Gama, onde encerrou a carreira, pelo Boca Júnior, da Argentina e o Milionários da Colômbia, que era o time mais rico da América Latina, na época. O escritor Marcos Eduardo Neves é o autor do livro Nunca houve um homem como Heleno. Depois de brilhar, inclusive na Seleção Brasileira, Heleno, retornando ao Brasil, cumpriu sua promessa jogando, novamente no Vasco da Gama onde encerrou sua carreira em 1949. Muitas e tentadoras ofertas recebeu, mas preferiu viver uma vida sem compromissos , livre para desfrutar os sabores que o Rio de Janeiro lhe oferecia. Muito jovem, com apenas 39 anos de idade, faleceu, em l959, de sífilis, que na época era incurável. Viajando com a delegação do Vasco da Gama para um amistoso na Bahia, tinha consigo a carteira de cigarro, que muito apreciava. Do alto da janela do hotel onde estava a delegação, amassou a carteira e a jogou na rua. Lá embaixo um grupo de fãs que foram tentar ver de perto o tão badalado galã brasileiro. Vendo Heleno jogar a carteira, disputaram com gritos e empurrões a sua posse como uma lembrança da estada no craque e galã na sua cidade. Apesar de nada ganhar para jogar, Heleno fazia questão de manter-se na disciplina de todos os demais companheiros nos treinos e nas concentrações, o que dava a ele um clima de muito respeito e admiração por todos. Até hoje, com todas as características que desfrutou, ninguém conseguiu superá-lo mantendo-se na lembrança e na imagem dos que tomaram conhecimento de sua vida de atleta, como algo exclusivo, insuperável e marcante na história do futebol brasileiro.

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Flagrantes 23-24/01/2010
Sexta-Feira, 22/01/2010 por Meirelles Duarte

  O desfile  dos carros alegóricos no Centenário, em 1957. Vemos as jovens do Instituto de Belas Artes. Dentre elas, Dolores Martins, Luiza Rui, Juliana Freitas dos Santos, Ione Rosado, rainha, e Inês Donida

Os 77 anos do professor e historiador Welci Nascimento, comemorados no dia 14, com esposa Clair, filhos, genros e netos. A presidente da Academia de Letras, Elisaheth Ferreira e a vice Santina Dal Paz, foram cumprimenta-lo

Duas das 230 integrantes da Pastoral da Criança, da Diocese, e seguidoras de Zilda Anrs, falecida no Haiti, Adriana Pinno e Maria Cristina Cheng, entrevistadas para o programa Meirelles Duarte do Canal 20, da última semana

 Meu encontro com Brizola, dia 30 de janeiro de 1986. Se vivo fosse teria ele comemorado 88 anos de idade, na sexta-feira, dia 22

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Memórias do esporte 16/01/2010
Sexta-Feira, 15/01/2010 por Meirelles Duarte

Os heróis do automobilismo sem patrocinadores

Meirelles Duarte

  Sinval Bernardon e Daniel Winik, com a barata 34, sem nenhum patrocínio, como vemos pela parte externa do veículo

Quando deparamos com corredores em qualquer categoria do automobilismo, quer seja nacional ou internacional, constatamos a série de emblemas e logomarcas que possuem, numa quantidade gigantesca de grandes empresas divulgando suas marcas a custa do sucesso dos corredores. Existe, até, uma disputa de marcas, como aconteceu na área de cervejas e refrigerantes em busca de um lugar em determinada categoria. Diante de tal situação, vale recordar os tempos de ouro das carreteiras, quando Passo Fundo era o maior centro de seus disputantes, conseguindo somar uma série de memoráveis conquistas até hoje lembradas e nunca superadas. Ninguém analisou esses momentos referentemente aos possíveis patrocinadores, com marcas de produtos expostos nos carros. Era muito raro encontrarmos alguém que fosse em socorro de nossos grandes competidores, dando-lhes meios financeiros a título de patrocínio.
Depois de uma série de vitórias, surgiu um que ficou no mais completo anonimato, a ponto de nem seus filhos terem tomado conhecimento de seu gesto. João Carlos Burlamaque, o patriarca da família Burlamaque, patrocinava a dupla Orlando Menegaz e Ítalo Bertão ou quem com Orlando corresse, dando sempre um jogo completo de pneus. Aido Firnardi, que era denominado como o rei das cursas, sócio da poderosa empresa da época, Transportadora Sulina, tinha desta um modesto patrocínio que nem cobria seus gastos de viagens e estadias nas provas. Alcides Schoroeder, que foi o pioneiro, chegou a obter do governo do Estado e políticos influentes do seu partido, o PSD, contribuições para fazer frente às suas participações. Ítalo Bertão, que tinha uma frota de caminhões-tanque conseguiu, da empresa com quem trabalhava, alguma participação, também muito modesta. Daniel Winik chegou a vender um terreno seu na promissora Vila Vergueiro, para conseguir equilibrar seus gastos nas provas em que tomava parte com vários competidores. Sinval Bernardon, graças a algumas colaborações dos seus familiares, ligados ao ramo de bebidas, mantinha-se em atividade com enormes dificuldades.
Imaginem os senhores leitores se tudo isto estivesse acontecendo agora. A disputa por patrocinadores até do exterior, considerando-se a marca dos veículos utilizados, seria uma realidade. Recordam alguns amigos de Aido Finardi que ele, ao adquirir algumas peças para sua carreteira, o máximo que conseguia era um bom desconto o que lhe era suficiente diante de tanta falta de apoio ou patrocínio inteiro. A empresa passo-fundense, Auto Esporte era a que mais colaborava com todos os corredores, tornando-se, pelos irmãos Walter e Eloy Sobiesiack, como verdadeiros patronos, sendo, até há pouco homenageados. Um dos jantares em que participou, poucos dias antes de sua morte, quando veio rever amigos e parentes, Orlando Menegaz foi recepcionado no salão de festas da Auto Esporte, num atestado da amizade que perdurou dos irmãos Sobiesiack e os nossos corredores. Também na residência do empresário Armando Burlamaque, foram homenageados com um grande churrasco, Alcídio Schoereder, Sinval Bernardon, Orlando Menegaz, Daniel Winik e o fotógrafo Deoclides Czamanski.
Se não houve os patrocinadores de que tanto necessitavam os nossos bravos corredores, ficou a amizade sempre latente até a morte da maioria, que infelizmente, já nos deixou.

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