Memórias do esporte 16/01/2010
Sexta-Feira, 15/01/2010 por Meirelles Duarte

Os heróis do automobilismo sem patrocinadores

Meirelles Duarte

  Sinval Bernardon e Daniel Winik, com a barata 34, sem nenhum patrocínio, como vemos pela parte externa do veículo

Quando deparamos com corredores em qualquer categoria do automobilismo, quer seja nacional ou internacional, constatamos a série de emblemas e logomarcas que possuem, numa quantidade gigantesca de grandes empresas divulgando suas marcas a custa do sucesso dos corredores. Existe, até, uma disputa de marcas, como aconteceu na área de cervejas e refrigerantes em busca de um lugar em determinada categoria. Diante de tal situação, vale recordar os tempos de ouro das carreteiras, quando Passo Fundo era o maior centro de seus disputantes, conseguindo somar uma série de memoráveis conquistas até hoje lembradas e nunca superadas. Ninguém analisou esses momentos referentemente aos possíveis patrocinadores, com marcas de produtos expostos nos carros. Era muito raro encontrarmos alguém que fosse em socorro de nossos grandes competidores, dando-lhes meios financeiros a título de patrocínio.
Depois de uma série de vitórias, surgiu um que ficou no mais completo anonimato, a ponto de nem seus filhos terem tomado conhecimento de seu gesto. João Carlos Burlamaque, o patriarca da família Burlamaque, patrocinava a dupla Orlando Menegaz e Ítalo Bertão ou quem com Orlando corresse, dando sempre um jogo completo de pneus. Aido Firnardi, que era denominado como o rei das cursas, sócio da poderosa empresa da época, Transportadora Sulina, tinha desta um modesto patrocínio que nem cobria seus gastos de viagens e estadias nas provas. Alcides Schoroeder, que foi o pioneiro, chegou a obter do governo do Estado e políticos influentes do seu partido, o PSD, contribuições para fazer frente às suas participações. Ítalo Bertão, que tinha uma frota de caminhões-tanque conseguiu, da empresa com quem trabalhava, alguma participação, também muito modesta. Daniel Winik chegou a vender um terreno seu na promissora Vila Vergueiro, para conseguir equilibrar seus gastos nas provas em que tomava parte com vários competidores. Sinval Bernardon, graças a algumas colaborações dos seus familiares, ligados ao ramo de bebidas, mantinha-se em atividade com enormes dificuldades.
Imaginem os senhores leitores se tudo isto estivesse acontecendo agora. A disputa por patrocinadores até do exterior, considerando-se a marca dos veículos utilizados, seria uma realidade. Recordam alguns amigos de Aido Finardi que ele, ao adquirir algumas peças para sua carreteira, o máximo que conseguia era um bom desconto o que lhe era suficiente diante de tanta falta de apoio ou patrocínio inteiro. A empresa passo-fundense, Auto Esporte era a que mais colaborava com todos os corredores, tornando-se, pelos irmãos Walter e Eloy Sobiesiack, como verdadeiros patronos, sendo, até há pouco homenageados. Um dos jantares em que participou, poucos dias antes de sua morte, quando veio rever amigos e parentes, Orlando Menegaz foi recepcionado no salão de festas da Auto Esporte, num atestado da amizade que perdurou dos irmãos Sobiesiack e os nossos corredores. Também na residência do empresário Armando Burlamaque, foram homenageados com um grande churrasco, Alcídio Schoereder, Sinval Bernardon, Orlando Menegaz, Daniel Winik e o fotógrafo Deoclides Czamanski.
Se não houve os patrocinadores de que tanto necessitavam os nossos bravos corredores, ficou a amizade sempre latente até a morte da maioria, que infelizmente, já nos deixou.

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