Entrevista | Publicado em 27/11/2010 01:42:11
Tenente-coronel Lima deixa o comando do CRPO-Planalto no próximo dia 30 após mais de três décadas de serviço à BM. Ele e a equipe comemoram as conquistas sem deixar de pensar em novos desafios
Leonardo Andreoli/ON
Depois de três décadas de prestação de serviços à Brigada Militar (BM) o tenente-coronel Pedro Luiz Lima deixa o Comando Regional de Policiamento Ostensivo(CRPO)-Planalto no próximo dia 30. A trajetória dentro da corporação contou com passagens pelo Primeiro Batalhão de Porto Alegre, Pelotão de Operações Especiais, passagens por Novo Hamburgo, Soledade, Santana do Livramento. Já foi chamado inclusive para trabalhar no Palácio Piratini. No comando do CRPO-Planalto conseguiu resolver problemas antigos, fazer funcionar projetos adormecidos em gavetas e preparar um planejamento estratégico a ser cumprido até 2014. O orgulho ao falar da Bike Patrulha e do Posto Móvel Comunitário – premiados recentemente – demonstra o sucesso de duas idéias que deram certo em Passo Fundo e que deverão ser ampliados.
Formado em Educação Física pelo IPA em Porto Alegre, e estudante do sétimo semestre do Direito, o coronel Lima é natural de Getúlio Vargas e criado em Passo Fundo. Casado, tem dois filhos, e duas netas. Em entrevista ele fala de todas as conquistas alcançadas dentro da BM sem deixar de apontar o que ainda deve ser feito, confira.
O Nacional – Em toda a trajetória na BM o senhor passou por diversas cidades. Quando iniciou o trabalho em Passo Fundo?
Coronel Lima - Em 1988 vim para Passo Fundo como primeiro tenente. Comandei em Soledade durante um ano, fui promovido e assumi o esquadrão de Carazinho, onde fiquei três anos. Voltei para Passo Fundo como capitão e assumi o Primeiro Esquadrão. Criamos o Segundo Esquadrão e o Esquadrão Comunitário. Neste tempo aconteceu o episódio dos irmãos Campos onde foram dois dias de tiroteio e mortes violentas na cidade. Quatro deles ficaram mortos e um conseguiu escapar, depois foi preso no Paraná. Depois comandei o 3° regimento em 2006 e 2008 e quando começamos uma série de projetos e até hoje alguns não foram concluídos ainda. Como o grupamento aéreo e a creche para os filhos dos brigadianos. Dois deles conseguimos implementar: a Bike Patrulha e agora recentemente, o Posto Móvel Comunitário que há quase um ano já rende bons frutos e trabalha só nos bairros.
ON – E quais avanços que foram alcançados pela BM em Passo Fundo?
CL - Lá no 3° Regimento de Polícia Montada (RPMon) tínhamos 11 projetos. Um dos mais urgentes era resolver o problema dos resíduos dos cavalos que ficavam expostos a céu aberto - um criatório de moscas- bem próximo à área residencial. Também tínhamos um problema sério na sala de operações do regimento: chovia dentro por causa do telhado. Com qualquer trovão o 190 desligava e levava de 24h a 48h para religar. Fizemos dois projetos: um para a estação de tratamento de resíduos de equinos e outro para cobertura do quartel. Aproveitando as dez câmeras de videomintoramento implantamos uma sala de monitoração modelo. Colocamos em funcionamento uma central telefônica que estava guardada há dez anos para atender ao 190 e todos os ramais do quartel.
Descentralizamos o terceiro esquadrão, que era um projeto que estava parado há dez anos numa gaveta e ninguém tinha coragem de assinar a retirada dele de dentro do quartel e levá-lo para o módulo do Hospital São Vicente. Ali tínhamos o problema da praça e do pessoal que vinha de fora que era assaltado. Levar o esquadrão para lá resolveu o problema e o estado teve gasto zero. Tudo foi feito com doação do hospital e das entidades das proximidades. Ajudamos o Comando Regional a trazer o Batalhão de Operações Especiais. Criamos o Batalhão Ambiental o Batalhão Rodoviário que veio pra cá. Transformamos a guarnição de Passo Fundo na maior do interior do Estado
ON – E o que falta ser realizado?
CL - Está faltando policlínica, a creche, o ginásio, mais baias para os cavalos. Em 2005 foi implantado o projeto do criatório de equinos lá na nossa fazenda. Esses cavalos são de primeira qualidade não tem perda nenhuma. O criatório é auto-sustentável e agora precisamos as baias. O projeto que estamos deixando é para dobrar esse número para que até 2014 tenhamos 60 conjuntos montados para trabalhar na copa. O projeto do Posto Móvel Comunitário inclui mais quatro microônibus devidamente equipados que devemos ter no próximo ano por meio de um aporte de verba federal do Pronasci para atender majoritariamente as comunidades de bairros e vilas. Teremos que ampliar a sala de operações para receber mais 20 câmeras de videomonitoramento é mais um projeto que vai dar certo e vai aumentar a sensação de segurança na nossa cidade.
Vim pra cá para fazer funcionar o Colégio Tiradentes e concretizar esse sonho e tivemos toda a sociedade trabalhando conosco. Fomos em busca de equipamentos e valores para fazer funcionar o Tiradentes e hoje temos esse êxito. No próximo ano vamos totalizar 270 alunos que tem aulas extraclasse e por isso precisamos o nosso ginásio que vai ser comunitário e vamos buscar verbas para isso. Agora com a política alinhada tenho certeza que todos os projetos que ainda não saíram vão ser concretizados em pouco tempo.
ON – A gente percebe um grande envolvimento da BM e da comunidade em Passo Fundo. Isso faz a diferença nos trabalhos da corporação?
CL – Com certeza. Saímos de uma posição, em 2008, de 11° no ranking de 16 comandos regionais e hoje estamos entre os cinco primeiros do Estado graças as parceria. Por exemplo, a Patrulha Rural. Tínhamos apenas uma funcionando em Soledade. Hoje estamos implantando a décima, que será em Tapera tudo por meio de contato com os produtores, sindicatos e apoio fundamental deles no equipamento e treinamento ao pessoal junto a Farsul. As patrulhas rurais contam com GPS em todas as viaturas para dar atendimento melhor ao homem do campo. Não tem como polícia cidadã estar separada da sociedade, por isso que dá certo.
ON - Tem algum episódio que represente bons momentos que o senhor passou na Brigada?
CL - Com certeza, o Programa Educacional de Resistência às Drogas e a Violência (Proerd) é uma coisa boa que ajudamos a criar. O Programa Social Educativo de Profissionalização de Adolescentes (Prosepa), voltado aos adolescentes que não podemos deixar terminar. As polícias comunitárias, as reuniões que a gente faz com as comunidades e sempre tivemos um entrosamento muito bom com toda a comunidade. Tem o outro lado como o tiroteio da caçada da quadrilha que vinha assolando Passo Fundo e região e que resultou na morte de quatro dos cinco irmãos Campos. Eles foram mortos em confronto direto com a Brigada. O quinto conseguiu escapar e depois foi morto pela Polícia Militar do Paraná.
ON – E o problema das drogas que assola a região e o país. Como é possível resolver?
CL - Vejo que a sociedade é importantíssima. Através das denúncias anônimas a gente tem conseguido o êxito que temos até agora. Temos que ter a prevenção forte e a repressão mais forte ainda. E estamos fazendo isso. No dia 1° de dezembro, por exemplo, teremos a formatura de mais de 700 alunos que fazem parte do Proerd. Então é lá no início, na escola, que a gente vai com pessoas da Brigada gabaritadas e instruídas que fazem esse trabalho. E também com o envolvimento dos pais, não tem como a gente fazer esse trabalho com eles sem envolver a família. Em primeiro lugar vamos continuar com a prevenção com o Proerd - que não é uma campanha midiática, é um programa de longa duração que já tem mais dez anos e não abrimos mão disso. E a repressão no dia-a-dia. Uma coisa importante de se destacar é a confiabilidade e o alto entrosamento que as forças policiais têm em Passo Fundo. Não tem aquele melindre com Policia Federal, Promotoria, Polícia Civil e Azuizinhos. É um ajudando outro, porque é aqui em Passo Fundo que vivem as nossas famílias, amigos filhos, netos e aqui reside gente boa e temos que trabalhar em todos os sentidos para que tenhamos uma sensação de segurança melhor e que as quadrilhas que são de fora saibam disso. Que chegando aqui eles encontram uma polícia que é unida e que bota na cadeia mesmo.
ON - E daqui pra frente o que o senhor pretende fazer?
CL - Estou pronto para fazer tudo e muito mais e também estou pronto para não fazer nada, que é um direito que me cabe. Depois de 35 anos de trabalho, de serviços voltados à Brigada chegando ao coronelato e sendo comandante do comando regional mais importante do estado, profissionalmente estou realizado. Pessoalmente talvez ainda falta fazer algum trabalho voltado ao social, ao comunitário, mas isso ai não falta, com certeza em Passo Fundo precisamos muito. O Ginásio Teixeirinha tem de ser melhor ocupado, a nossa gurizada dos bairros e vilas tem de ter um local para que possam alocar energia em coisas positivas, no esporte e não ficar quebrando vidraças. Adolescentes quebrando vidraças às 3h da madrugada, e os pais não sabem disso. Com certeza se tivessem uma ocupação dentro de atividades sadias eles nesse horário estariam dormindo exaustos se preparando para outro dia. Usando essa energia para produzir saúde para eles. Sou professor de educação física e de repente possa exercer essa atividade para ajudar, até no Tiradentes. Sabemos que com mais três turmas poderemos ter dificuldade para conseguir professores, mas espero que não. O importante é que as associações da Brigada e todas as guarnições permaneçam unidas.
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