Entrevista

Entrevista | Publicado em 30/12/2009 19:56:12

Vice-diretor médico do Hospital São Vicente de Paulo, Julio Stobbe

Vice-diretor médico do Hospital São Vicente de Paulo e um dos homens da linha de frente no enfrentamento da gripe A, Julio Stobbe, conta como foi enfrentar a situação de pandemia sem ainda conhecer a fundo o comportamento da doença

Glenda Mendes/ON

Os meses de inverno estão sempre relacionados ao aparecimento de problemas respiratórios. Mas até o ano passado, a palavra gripe não era motivo de susto. Até que no hemisfério norte um surto de uma gripe, que se falava ter surgido do contato entre homens e porcos, começou a fazer vítimas. A chegada do inverno no hemisfério sul trouxe a apreensão pelo aparecimento da nova gripe. E foi o que aconteceu. Por semanas, a população acompanhou, alarmada, o crescimento do número de vítimas, a gravidade da doença e a grande ocorrência entre pessoas jovens.
De outro lado, equipes de saúde precisavam entender como funcionava a doença, qual a medicação mais adequada e como salvar os pacientes. Em meio a tudo isso, algumas pessoas precisaram tomar o comando e entrar na linha de frente para enfrentar a epidemia. Uma dessas pessoas foi o vice-diretor médico do Hospital São Vicente de Paulo, o médico Julio Stobbe, que conta como foi o aprendizado com a doença.


O Nacional - Como foi se deparar com uma gripe que atingiu pessoas jovens e com tanta gravidade, como foi visto com a gripe A?
Julio Stobbe
- Sem dúvida, foi uma situação inusitada, vamos dizer, porque obviamente estudamos como funciona o vírus da gripe nas épocas das epidemias de forma de teórica. Estudamos também, durante a faculdade, durante a formação, como é o comportamento nas epidemias. No entanto, você estudar isso de forma teórica é uma coisa, e vivenciar isso e colocar em prática planos estratégicos para grandes epidemias certamente é muito diferente. Então, apesar de todas as dificuldades, de todos os sofrimentos vivenciados neste ano que passou, certamente, essa foi uma experiência de aprendizado ímpar.

ON - Qual foi o principal aprendizado no momento da pandemia?
JS -
Nós aprendemos muito. Aprendemos como se comporta a doença. No início é uma coisa que causa certo tumulto, porque nós não temos vivência em grandes epidemias, em pandemias, como é o caso da gripe A. Foi um estresse bastante grande no início. Nos meses que se seguiram, já tínhamos um domínio, um conhecimento maior de como que se comportava a doença. E quando conseguimos entender uma doença, começa-se a ter um domínio melhor sobre ela e também diminui os temores das próprias equipes, da equipe médica, da equipe de enfermagem, de fisioterapia, etc, que vão trabalhar de forma harmônica em uma situação de epidemia. Quando a gente conseguiu vislumbrar como era o comportamento do vírus, em que momento era importante tratar, isso nos trouxe segurança. A própria equipe médica que trabalhou de uma forma diuturna, praticamente, teve mais segurança, porque obviamente a apreensão é muito grande nesses momentos. No início, tínhamos certa dificuldade do entendimento do comportamento da doença, e quando não entendemos alguma coisa, isso nos provoca medo, surgem mitos, que acabam causando uma certa desestabilização na própria equipe, porque os próprios integrantes da equipe poderiam ser vítimas da doença, como até alguns que tiveram a gripe. Então, no momento em que conseguimos entender melhor a gripe, isso nos trouxe segurança.

ON - Durante o tempo em que a pandemia ocorreu, existia uma certa divergência entre alguns setores da saúde sobre divulgar ou não o número de casos. A atitude tomada pelo Hospital São Vicente de Paulo, por exemplo, foi de emitir boletins sobre os atendimentos. Como o senhor avalia essa atitude?
JS -
Desde o princípio, nossa atitude foi de transparência. Os dados dos casos e atendimentos foram divulgados exatamente como aconteceram. E o trabalho da imprensa foi muito importante, pois foi a única forma de informar a população massivamente sobre as formas de prevenção. Talvez, sem o auxílio dos meios de comunicação, a disseminação da doença tivesse sido maior. Foi por intermédio da imprensa, por exemplo, que a população aprendeu as normas de higiene que poderiam mantê-las longe da gripe A.

ON - Como se tratava de uma doença nova, muitos boatos surgiram e notícias falsas acabaram se espalhando. Com isso, familiares de pacientes procuravam os meios de comunicação na tentativa de denunciar possíveis demoras no diagnóstico ou no tratamento. Como foi lidar com essa situação?
JS -
Todos os pacientes foram tratados de forma científica. Era um momento de conhecer uma doença nova e não podíamos nos deixar levar por "achismos". Precisávamos trabalhar da forma como manda a ciência, a medicina. O momento foi de muitas opiniões desencontradas, vindas de todos os lados. Mas a única maneira de trabalharmos era de forma científica, e foi o que fizemos.

ON - Em algum momento a sua família chegou a pedir para que o senhor não comparecesse ao hospital, com medo da gripe A?
JS -
Sempre que se trabalha em um hospital, estamos bem próximo de situações como essa. Mas eu repito que sempre trabalhamos de forma científica, tomando todos os cuidados dentro e fora do hospital. Eu tenho filhos pequenos e muitas vezes fiquei apreensivo de estar levando a doença para dentro de casa. A única forma de me manter tranquilo foi trabalhar de acordo com os protocolos e dentro das normas científicas.

ON - Depois de tudo isso, é possível dizer que hoje a equipe está preparada para enfrentar uma nova pandemia de gripe A
JS -
Posso dizer que hoje estamos melhor preparados para enfrentar uma pandemia. Se a gripe A novamente tiver um pico de casos, já saberemos como lidar com ela. Quando tudo começou não sabíamos como seria. Existia a dúvida: "será que vamos ter mais de 2 milhões de pessoas contaminadas. Será que teremos menos?" Estima-se que vamos ter vacina para o início do mês de março e a vacinação será distribuída para um grupo que ainda terá os critérios estabelecidos, não vai ser vacina utilizada por todo mundo. Existe ainda uma série de dúvidas e fatores questionáveis para os quais ninguém ainda tem uma resposta. Se formos olhar hoje o México, por exemplo, vamos ver que a quantidade de casos é muito maior do que no ano passado, quando o país foi praticamente fechado. Ficamos na dúvida, não podemos dizer qualquer coisa com certeza. A única convicção que temos é que estamos melhor preparados dos que estávamos no ano passado.


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