Entrevista

Entrevista | Publicado em 30/12/2009 20:05:12

Entrevista: Cientista político, Antônio Kurtz Amantino

Para avaliar o ano que termina, com opinião sobre os governos Lula e Yeda Crusius e ainda para analisar o panorama das eleições 2010, ON entrevista o cientista político Antônio Kurtz Amantino. Ele considera que tanto Lula quanto Yeda deixarão heranças positivas para os futuros governantes e que o embate eleitoral será dos "não carismáticos" em Brasília (referência a Serra e Dilma), e de "gre-nal político" no Rio Grande do Sul, com o velho duelo PMDB x PT.

Bruno Todero/ON

Para Amantino, Lula ficará marcado na história política brasileira como o presidente que contribuiu de forma decisiva para a consolidação da democracia no país. "Lula foi um marco na política nacional, pelo fato de ter sido eleito e governado sem oferecer nenhuma ameaça de ruptura da nossa ordem constitucional." Segundo o estudioso, Lula teve papel decisivo nessa consolidação porque não insistiu, ao contrário de outros governantes latino-americanos, em violar a Constituição para poder ficar mais tempo no poder, por meio de uma reeleição. "Isso é algo que até os adversários ideológicos do presidente teriam de reconhecer", avalia.
Amantino destaca ainda a política econômica adotada pelo governo Lula, marcada pela continuidade do modelo instituído por Fernando Henrique Cardoso. Isso se deu, segundo o cientista, pelo fato de que a esquerda inteligente, chamada também de "esquerda vegetariana", percebeu que o regime comunista e a economia socialista não funcionam."Durante muito tempo o PT e a esquerda defendiam um plano econômico totalmente diferente do plano FHC. Queriam, por exemplo, reestatizar as empresas que haviam sido privatizadas, não reconhecer a dívida externa, não se preocupavam com a estabilidade monetária, enfim. Mas o Lula é um político pragmático, percebeu que a melhor maneira de se manter no poder é manter aquela estrutura monetária, é preciso manter o valor da moeda", explica Amantino.

Os "não carismáticos"
A expectativa de Amantino é de que não haverá grandes mudanças estruturais e econômicas no país, seja quem for o eleito, Serra ou Dilma, os chamados "não carismáticos". "Isso devido ao momento histórico que estamos vivendo. Os governantes brasileiros enfim se deram conta de algo que se sabe desde a Idade Média: a função principal do governante é manter o valor da moeda, isso é vital. Mantendo-se o valor da moeda, é meio caminho andado para que a sociedade produza riqueza", salienta.
Sobre Dilma, Amantino acredita que ela já demonstrou, como secretária de governo e ministra da Casa Civil, ser uma boa administradora. "Eu tenho ouvido muita gente falando no nome de Henrique Meirelles para vice da Dilma Roussef. Ele já se filiou ao PMDB e pode aparecer na disputa. Vejo isso como um recado do PT ao mercado financeiro: a Dilma é uma ex-guerrilheira, mas ela não vai fazer aventura econômica."
Sobre José Serra, o cientista considera que ele leva vantagem por ser um homem bastante conhecido, com boa biografia e sem nenhuma mancha política. "Trata-se de um social democrata de carteirinha. É um bom administrador, um político com ilibada biografia. O que se diz é que não é carismático e isso em política pode ser decisivo. Às vezes, um bom administrador e bom cidadão não vai bem porque não é carismático. Aliás, a própria Dilma é nada carismática", avalia.

Crise na direita

Outro fator destacado pelo cientista é que as disputas ao Piratini e ao Planalto estão demonstrando mais uma vez a crise nos partidos de direita no país. "Tanto PT quanto PSDB são partidos de centro-esquerda. As forças que dominam o PT são sociaisdemocratas. E onde está a direita? O antigo PFL, agora DEM, está enterrado depois da crise em Brasília e o PP é um partido que não tem viabilidade eleitoral para a Presidência", analisa.

Yeda Crusius
Na análise de Amantino, a governadora Yeda Crusius teve um grande mandato sob o ponto de vista da política econômica. "Essa será a grande herança do governo Yeda, e talvez os gaúchos serão gratos a isso por muitos anos. Ela alcançou o déficit nas contas do Estado. Isso significa dizer que os próximos governantes, se tiverem sabedoria, poderão se beneficiar de uma situação financeira favorável. Porque tradicionalmente os antigos governantes iam empurrando o déficit sempre com a barriga", considera. Para o estudioso, o problema do governo Yeda, que deve marcar negativamente a sua passagem pelo Piratini, foram a questão política. "Do ponto de vista político o governo foi um desastre", resume Amantino.

Gre-nal político
Amantino considera que a eleição no Estado será marcada por um "encontro clássico, quase que um gre-nal político: PT contra PMDB". Para ele, é muito difícil arriscar um palpite de quem será o vencedor, ainda mais existindo outros políticos importantes na disputa, como a própria governadora Yeda e possivelmente o deputado federal passo-fundense Beto Albuquerque.



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