Entrevista

Entrevista | Publicado em 28/05/2010 22:44:05

Por uma reitoria de portas abertas

Bruno Todero/ON

Em eleição histórica, o professor José Carlos Carles de Souza foi eleito na terça-feira (25) reitor da Universidade de Passo Fundo. A chapa 2, de oposição, obteve 35,5% dos votos. Nesta entrevista concedida a O Nacional, Souza fala sobre a certeza da vitória, lembra o processo de construção da chapa vencedora, explica alguns pontos polêmicos que surgiram durante a campanha, aborda as perspectivas da nova reitoria quanto ao crescimento da instituição e, por fim, revela como será o perfil do reitor José Carlos.

O Nacional - A comunidade acadêmica, e também a comunidade externa, esperava uma votação muito apertada, muito em função da quantidade de chapas e das propostas que se equivaliam. Mas isso não aconteceu. A chapa 2 teve quase mil votos a mais do que o segundo grupo mais lembrado. O senhor acreditava na vitória, e com essa diferença de votos?
José de Souza -
Havia sim uma expectativa muito grande em relação à eleição. Primeiro pelo fato de haver quatro chapas, todas com representantes de unidades importantes dentro da universidade, e mais do que isso, representadas por pessoas de destaque dentro da instituição. À medida que o pleito foi se definindo durante a campanha, fomos percebendo a aceitação das propostas da chapa 2. O Movimento UPF cada vez tomava mais corpo, principalmente entre os professores, o que se comprovou nas urnas. Como estávamos assistindo ao crescimento da chapa, tínhamos a convicção da vitória, mas não sabíamos se seria apertada ou não.

ON - Na sua opinião, qual foi o principal fator que motivou essa grande diferença de votos em relação à segunda chapa mais votada?
JS -
No que se refere aos professores, tenho plena convicção que foram nossas propostas, aquilo que pregamos, em razão do trabalho desenvolvido pelo movimento em mais de dois anos de reuniões. O sentimento de desgosto, de desejo de mudanças, de querer novos ares para a universidade, isso estava muito presente entre os docentes. Eles queriam mais liberdade para exercer suas atividades, mais segurança para poder implementar seus projetos. Trouxemos a eles uma palavra de diálogo e isso abriu a possibilidade de se manifestar e responder com o voto. Já em relação aos alunos, em todas as visitas que fizemos às salas de aula, dissemos aos acadêmicos que o voto deles seria decisivo. Investimos em um grupo de alunos dentro de algumas unidades para garantir que viriam conosco. E foi o que as urnas mostraram.

ON - O fato de a chapa ser a única declaradamente de oposição à atual Reitoria pode ter contribuído para o número expressivo de votos?
JS -
Somos oposição justamente em função do tipo de tratamento que a atual Reitoria vem dando aos professores, funcionários e alunos. Queríamos e queremos que seja restabelecido o tratamento digno para todos os segmentos da UPF, e os alunos perceberam que efetivamente a proposta da chapa 2 não era demagógica, mas sim a leitura do contexto.

ON - O senhor considera que a votação sugere uma espécie de resposta da comunidade acadêmica à atual Reitoria?
JS -
Eu não diria exatamente uma resposta, mas as eleições proporcionaram à comunidade uma grande reflexão. Era essa reflexão o principal chamamento do Movimento UPF, que desde o início mostrou-se um espaço de diálogo, discussão e debate sobre os rumos da universidade. Como a comunidade acadêmica estava carente desse espaço, ela atendeu de pronto ao chamado.

ON - O senhor fala do Movimento UPF, que foi o nome adotado pela chapa, mas que na verdade representa um grupo de professores que já se reunia antes das eleições para debater a universidade. Como foi o início desse movimento? Quantas pessoas participavam do grupo?
JS -
O grupo iniciou pequeno, com 12 professores. Resolvemos chamar os 12 diretores das unidades para discutir. De início, dez vieram. Depois, quando se iniciaram os debates com perspectivas de formação de uma chapa, ainda sem nomes, mas com propostas de mudança, percebemos que alguns diretores e unidades se retiraram do movimento. Entretanto, o movimento mostrou-se firme e convicto do propósito de manter o espaço de diálogo. Nessa caminhada, fomos elegendo as propostas, cada vez mais consistentes, e já suficientes para sustentar uma candidatura. Lançamos as ideias e partimos para a busca dos nomes. Tínhamos representantes em cada uma das unidades. O movimento passou a eles a incumbência de fazer em cada unidade a prospecção de professores que poderiam concorrer à Reitoria, com perfil para implementar as propostas elegidas como prioritárias. Esses representantes trouxeram alguns nomes, e os mais votados foram os que foram levados à composição da chapa. Nunca escondemos de ninguém que a escolha da nominata seria em assembleia. Trazíamos os nomes, colocávamos em discussão e decidíamos em conjunto. Enfim, o movimento foi um trabalho de dois anos de construção.

ON - Esse perfil adotado pelo movimento, de ouvir os integrantes para tomar decisões, vai ser o perfil seguido pelo senhor como reitor?
JS -
Eu sempre defendi a decisão colegiada. Ela legitima qualquer processo. Vamos continuar agindo dessa forma. Se olharmos documentos constitutivos da universidade, seus regimentos, estatutos, vamos perceber que a estrutura é colegiada, com diversos espaços de decisão, quer seja nos conselhos ou nas próprias unidades. Queremos qualificar essa decisão, dando a todos os colegas condições de estar preparados a uma tomada de posição, sempre com decisões democráticas, nunca autoritárias.

ON - Podemos concluir com isso que seu gabinete de reitor vai ser um gabinete aberto?
JS -
Com toda certeza. Precisamos ouvir a comunidade. Não podemos pensar em uma gestão fechada, esperando as coisas aconteceram ou simplesmente tomando decisões entre quatro paredes, sem chamar os interessados para o debate, para a discussão. Queremos levar à comunidade acadêmica a certeza que terão na reitoria e nas vice-reitorias pessoas abertas ao diálogo e extremamente democráticas, cujas decisões serão tomadas em razão e em benefício de toda coletividade.

ON - Além de professor, o senhor atua como advogado. Como reitor, terá dedicação integral a universidade?
JC -
A atividade profissional é importante, mas o cargo que eu passarei a exercer a partir de julho não permite que haja dedicação a uma atividade particular. A atividade do escritório seguirá com os demais advogados que lá estão, entre eles a minha filha. Sinto-me muito a vontade quanto a isso. Portanto, vou sim me dedicar exclusivamente ao cargo de reitor.

ON - Quanto ao futuro, na análise do novo reitor, qual é o limite da UPF. Até aonde ela pode ir?
JC -
A UPF tem um potencial de desenvolvimento gigante. Digo isto olhando exatamente para a capacidade dos professores e pelos desafios que estão pela frente. Vejamos que em breve será instalado em Passo Fundo o Parque Tecnológico, onde vai ser possível desenvolver inovação da tecnologia em várias áreas. Vejo a UPF com um futuro promissor, que deve ser buscado incessantemente por todos os alunos, funcionários, mas principalmente pelos professores, que é onde está concentrado o conhecimento da universidade.

ON - Esse crescimento que o senhor prevê passa pela reestruturação dos cursos de graduação?
JC -
Na verdade, os cursos são periodicamente reestruturados, principalmente no aspecto curricular, adequando as necessidades de mercado e as exigências do Ministério da Educação. Não vejo problema de fazer readequações, porque são pontuais e visam sempre a melhoria no curso. Mas o crescimento da UPF vai se dar em razão do constante olhar para o mercado do entorno da universidade, no olhar para a comunidade, e principalmente para as novas tecnologias. Precisamos ter uma universidade com capacidade de inovação, recepcionando ou antecipando o novo. A UPF tem de ser protagonista do desenvolvimento. Ela tem de andar na frente. Essa é a minha visão de universidade.

ON - Para que ocorra o crescimento, é preciso olhar para a parte administrativa. Três das quatro chapas falaram em tornar a administração da UPF sustentável. Hoje ela não é sustentável?
JC -
Não há como se pensar uma universidade comunitária sem pensar em sua sustentabilidade. O que mantém a UPF hoje são as mensalidades pagas pelos alunos. A nossa proposta é continuarmos atuando nesta área da prestação de serviço educacional mediante pagamento de mensalidade como um dos meios de arrecadação, mas não o único. Vamos sim buscar outras fontes de receitas, principalmente através de recursos junto aos governos federal e estadual, incentivando programas específicos para sustentar projetos de pesquisa, ou mesmo cursos novos que sejam de interesse dos governos. Sabemos também que é possível a otimização da prestação de serviços da universidade, através dos vários laboratórios que a UPF têm, mas que hoje prestam serviço de uma forma um tanto quanto rudimentar. Precisamos aprofundar esse sistema de forma que se torne efetivamente uma fonte de receita para a universidade. Isso vem ao encontro do que pregamos durante toda a campanha, a aproximação com a comunidade. Se conseguirmos interagir, fazendo com que a universidade, que tem a inteligência, e a indústria, que tem a necessidade da inteligência, possam se aproximar, isso vai ser bom para os dois lados.

ON - A chapa se preocupou em colocar na cartilha entregue aos funcionários que não ocorreriam demissões de cunho político caso fosse eleita. Porque essa preocupação?
JC -
Nos últimos meses surgiram alguns boatos de que, se a oposição ganhasse, iria demitir de forma linear funcionários. Chegaram a falar no absurdo de 30 % de funcionários demitidos. Nunca, em nenhum momento, tratamos de demissão no movimento. Como essa informação mentirosa chegou até nós, procuramos agregar às propostas o comprometimento do movimento de não fazer nenhum tipo de demissão de cunho eleitoreiro. Jamais faremos algo deste tipo. Tranquilizamos a comunidade acadêmica, principalmente funcionários, de que não há proposta de demissão. Ao contrário, queremos valorizar o funcionário. Fazer com que trabalhe em melhores condições e que se sinta acolhido dentro da UPF. Isso é importantíssimo para que possa desenvolver da melhor forma o seu trabalho. O mesmo vale para os professores, que são aqueles que detêm o conhecimento, que é o que os alunos buscam quando ingressam na universidade.

Posse
A posse da nova reitoria, eleita com 3.926 votos, dos 11.147 registrados, acontecerá na segunda quinzena de julho , junto com os novos diretores das unidades acadêmicas. O grupo que vai comandar a UPF no período 2010/2014 é formado ainda pelos professores Neusa Maria Rocha, como vice-reitora de Graduação; Leonardo Barcellos, como vice-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação; Lorena Geib, na pasta de Extensão e Assuntos Comunitários; e Agenor Dias Meira, a frente da vice-reitoria Administrativa.


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