Entrevista

Entrevista | Publicado em 04/07/2010 23:38:07

Reforço gaúcho no Nordeste

Técnicos que elaboram o principal documento sobre a devastação em Alagoas são de Passo Fundo

Glenda Mendes/ON

Pelo menos três conhecidos dos passo-fundenses integram a força-tarefa que está auxiliando os desabrigados pelas enchentes de Alagoas: major Aurivan Chiocheta, sargento Lago e tenente Waterson Simor. Os três técnicos atuam hoje na Defesa Civil do Estado.

Há mais de 15 dias, fortes temporais com enchurradas devastaram pelo menos 20 municípios de Alagoas, atulamente 15 edeclararam estado de calamidade pública e cinco situação de emergência. A devastação soma prejuízos em 27 municípios, incluindo alguns do Estado de Pernambuco. A ajuda é bem-vinda de todas as formas, seja em doações de roupas, alimentos, produtos de limpeza ou trabalho voluntário.

Na edição de sexta-feira (2) do Diário Oficial da União, está publicada a Portaria 336, que autoriza o pagamento antecipado de benefício previdenciário aos moradores dos municípios atingidos pelas enchentes das últimas semanas. Do Ministério da Saúde foram liberados R$ 21,8 milhões para Alagoas e R$ 26,8 milhões para Pernambuco. O dinheiro será destinado à reestruturação da rede de atenção à saúde. Até a tarde de sexta-feira eram 57 mortos, mais de 50 mil desabrigados e mais de 100 mil desalojados.

Do Ministério da Integração Nacional estão disponíveis R$ 200 milhões para a reconstrução da infraestrutura pública, como pontes, estradas e bueiros. Mas a correta aplicação desses recursos depende da avaliação dos estragos e da indicação dos locais onde a reconstrução deve ser feita. Para que esse trabalho possa ser realizado, é preciso a elaboração de um documento minucioso, que requer atenção, conhecido como Avadan. Para cumprir essa missão, foram escolhidos técnicos da Defesa Civil da força-tarefa enviada pelo governo do Rio Grande do Sul a Alagoas, que tem na liderança o major Aurivan Chiocheta, além de outros integrantes, como o tenente Waterson Simor, natural de Passo Fundo.

A reportagem de ON entrou em contato com esses agentes para conhecer a realidade do trabalho que estão realizando e também para avaliar a situação estrutural e da população daquele Estado. Confira a entrevista.

O Nacional - Qual foi a primeira tarefa da equipe do RS ao chegar em Alagoas?
Major Chiocheta -
Tão logo o episódio afetou o Estado de Alagoas, o governo gaúcho determinou que compuséssemos uma força-tarefa e colaborássemos com o povo alagoano. De imediato nós para cá [Alagoas] nos deslocamos com quatro técnicos, sendo uma das primeiras equipes a chegar para auxiliar o governo alagoano e a Defesa Civil no enfrentamento dessa catástrofe. As primeiras ações foram no sentido de organizar todo o aparato de ajuda humanitária que era necessário para socorrer as vítimas e, ao mesmo tempo, organizar o auxílio da comunidade, que tinha milhares de desabrigados em diversas cidades afetadas.

ON - Em que missão a equipe foi enquadrada pelo gabinete de gerenciamento da crise?
MC -
Recebemos a missão de trabalhar no levantamento de danos das áreas afetadas, um estudo que é elaborado concomitantemente com a ajuda humanitária. De imediato, na semana passada mesmo, chegamos no domingo à noite, dia 20, na segunda-feira, já estávamos atuando na área devastada pela catástrofe, verificando as demandas, as necessidades de cada comunidade, gerenciando essa questão e procurando orientar o comando de qualquer alteração em relação ao que deveria ser feito. A partir de então, recebemos a incumbência de fazer esse levantamento de campo em todas as áreas afetadas. Constituímos 13 equipes de trabalho com técnicos gaúchos, por nós liderados, e também com técnicos aqui de Alagoas para formatar o Avadan, que é um documento importantíssimo que sintetiza toda a destruição e devastação que uma catástrofe acarreta em uma comunidade.

ON - Como é elaborado esse documento?
MC -
A partir da verificação de campo nas áreas tanto de danos humanos quanto de danos materiais, ambientais, os prejuízos econômicos e sociais. Este trabalho ainda está sendo feito por nós, porque é muito meticuloso e ocorre concomitantemente com o planejamento da reconstrução das áreas destruídas. Esse levantamento é fundamental, porque o Avadan é uma referência importantíssima para qualquer ministério do governo federal e do governo do estado elaborar planos de trabalho que visem à reconstrução das cidades.

ON - É esse documento que vai possibilitar a aplicação dos recursos para a reconstrução da infraestrutura?
MC -
Já estão em caixa, em Brasília, R$ 200 milhões para gastar na reconstrução das cidades devastadas, que são para aplicar tão somente na infraestrutura pública. São recursos do Ministério da Integração Nacional para recuperação e reconstrução de estradas, pontes, pontilhões, bueiros, prédios públicos, praças, prédios comunitários, rede de esgoto, enfim tudo aquilo que é infraestrutura pública das cidades. Já a questão da construção de casas, por exemplo, é de competência do Ministério das Cidades, escolas são com o Ministério da Educação e assim por diante. Cada área está com o ministério correspondente. Só que o preponderante para que os ministérios dispensem os recursos é na verdade o trabalho de campo que nós elaboramos e a referência é o Avadan.

ON - Esta não é a primeira vez que o senhor participa do enfrentamento de uma catástrofe. Quais as situações mais importantes que o senhor participou?
MC -
Desde 2007 estou na Defesa Civil do Estado e passei por inúmeras situações bastante adversas. Uma que me chamou bastante a atenção, que não era tanto de danos, mas na qual também atuei, foi a operação envolvida no acidente aéreo em 2007 com o avião da TAM. No que tange a esse levantamento de danos, nós atuamos fortemente no RS em várias catástrofes que afetaram as nossas comunidades do Estado e também da região Norte.

ON - E a situação em Alagoas, como pode ser descrita?
MC -
O que mais chama atenção é que aqui nós estamos em um cenário totalmente singular, em função da magnitude da catástrofe que aconteceu. Nós estamos tratando de evento adverso, chamado enxurrada brusca. Ela vem com tanta força e com tanta veemência que se nós pegássemos as áreas devastadas e as colocássemos junto a uma orla litorânea, iríamos dizer que ali havia passado um tsunami.

ON - Existe uma forma de justificar uma devastação tão grande?
MC -
Não há como saber o porquê disso ter acontecido aqui, mas vários fatores contribuem. Tanto os aspectos que envolvem a ocupação desordenada em locais de extremo risco como questões que envolvem o próprio assoreamento dos rios aliado ao fato que houve precipitação muito intensa, que culminou com um volume de água muito elevado, causando uma devastação inimaginável. Comunidades inteiras serão transferidas, será uma mudança histórica, uma quebra de paradigmas, uma mudança que é certamente muito dolorida para essas pessoas e com certeza Alagoas nunca mais será a mesma após essa catástrofe.

ON - Com a participação em todas essas situações, já é possível se considerar um especialista em enfrentamento de catástrofes?
MC -
Efetivamente, digo sempre que nós aprendemos muito ao longo da vida. A grande escola, em que pese os bancos acadêmicos, que são importantíssimos, é a dos enfrentamentos que nós fazemos no dia a dia das nossas atividades técnicas. Nós sempre temos de buscar um aprendizado e uma qualificação maior a cada dia que passa. Certamente, hoje, eu me encontro em um estágio em que posso me considerar, não digo um especialista, mas que domino um pouco a matéria na qual labutamos, entendendo que em cada catástrofe aprendemos algo mais, porque jamais um evento adverso vai ser igual ao outro, jamais uma ocorrência dessa proporção é igual à outra.


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