Entrevista

Entrevista | Publicado em 16/07/2010 23:28:07

“Estamos entregando uma universidade muito melhor”

Entrevista com Rui Getúlio Soares, reitor da Universidade de Passo Fundo

Créditos :: Arquivo ON

Na terça-feira, dia 20, Rui Getúlio Soares encerra um ciclo como reitor da Universidade de Passo Fundo. Depois de passar oito anos à frente de uma das maiores instituições de ensino do interior do Estado, o professor Rui confessa que, vai levar um tempo até se adaptar ao novo ritmo de vida. Vai voltar a dar mais atenção ao consultório odontológico que manteve ativo durante todo este período. Num primeiro momento, pretende descansar. Nesta entrevista concedida a O Nacional, o reitor faz um balanço da gestão e revela o crescimento obtido neste período, tanto na estrutura física quando na de recursos humanos e de alunos. Falou das dificuldades enfrentadas e superadas e da expectativa que tem sobre o futuro.  Na solenidade marcada para terça-feira, Rui Getúlio Soares entrega o cargo ao professor José Carlos Carles de Souza.


ON - Há oito anos, quando o senhor assumiu a reitoria da Universidade de Passo Fundo, qual era o quadro da época?
Rui Getúlio Soares -
Quando assumimos o quadro não era bom. A universidade estava vivendo um momento de dificuldades. Havia problemas com a Justiça em relação à tentativa de empréstimo internacional e outros problemas, que dificultavam sobremaneira o encaminhamento da administração da instituição. O movimento da comunidade acadêmica também não era tranqüilo. Havia manifestações de alunos, de professores, tentativas de paralisação em função de problemas que existiam na universidade.

ON - Quando o senhor tomou pé da situação da instituição, o que o senhor e seus vice-reitores decidiram que seria necessário ou possível fazer naquela época?
Rui Getúlio -
Ao assumirmos, tivemos uma primeira dificuldade, que foi pensar em como poderíamos trazer tranquilidade à instituição. Em torno de 50 dias após assumirmos, tivemos a primeira grande dificuldade, que foi o falecimento do nosso vice-reitor Paulo Caratajú Simor, o que, além da tristeza, nos trouxe um sério problema, pois não tínhamos ideia de quem poderíamos trazer para substituí-lo. Passamos cerca de 20 dias dialogando com a comunidade acadêmica. Nesse período, tomei uma decisão de convidar o professor Nelson Germano Beck e, uma vez ele aceitando o convite, levei seu nome para a apreciação do Conselho Universitário, que aprovou o nome por unanimidade. Teve início novamente um trabalho, com todos os vice-reitores, no sentido de levar adiante nossa missão, já que a comunidade universitária sufragara nosso nome, confiara em nós, pois havíamos ganho a eleição em todos os segmentos – professores, funcionários e alunos e não podíamos fraudar a expectativa daqueles que confiaram nas nossas propostas.

ON Das metas que o senhor se propôs, o que foi cumprido ao longo de toda a administração?
Rui Getúlio -
Nós tínhamos elaborado um projeto de administração, mas, à medida que foram passando os dias, observamos que aquele projeto não poderia ser cumprido da forma como o havíamos elaborado, porque necessidades que desconhecíamos se apresentaram. Tivemos, bem no início da gestão, a necessidade de aprovar o novo Plano de Desenvolvimento Institucional, o PDI. Assim, convocamos a comunidade acadêmica para que debatesse conosco a respeito dos rumos da instituição nos quatro anos seguintes. Nessas discussões, alguns aspectos ficaram muito claros. Um exemplo que pode ser citado é o relativo à necessidade de, inicialmente, construirmos novos prédios, porque já no início de nossa gestão propusemos ao Conselho Universitário a criação de novos cursos, o que ensejava a necessidade de construção de prédios e reformas de alguns que há muito tempo não recebiam melhorias. Todos os diretores das unidades, percebendo que estávamos atendendo às expectativas com a construção de novos prédios, começaram a nos solicitar a reforma dos prédios antigos. Um exemplo é a Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, que foi o primeiro prédio construído no Campus I e que desde 1968 só havia passado por pinturas ou pequenos reparos. Passamos então a reformar todos os prédios.
Outras questões apontadas pelo PDI estavam relacionadas aos investimentos em equipamentos de informática. Para se ter uma ideia dessa necessidade, em 2002 a instituição possuía 1.837 microcomputadores e 62 projetores. Hoje, são 3.468 microcomputadores e 317 projetores à disposição da comunidade acadêmica. O investimento em informática nesse período foi de R$ 10,7 milhões.
Também, por decisão do PDI, tivemos de investir no acervo bibliográfico, tanto em qualidade quanto em quantidade. Entre 2002 e 2010 foram adquiridos cerca de 83 mil exemplares de livros, num investimento de mais de R$ 7,6 milhões. Precisávamos investir também na capacitação de recursos humanos. Quando assumimos, tínhamos 51% de professores com título de mestres e doutores e hoje esse índice é de 72%.
Portanto, os primeiros quatro anos foram de muita angústia, porque as necessidades eram muitas, não tínhamos recursos, fomos obrigados a procurar recursos em financiamentos, da mesma forma como ocorreu em toda a história da instituição, para atender todas as solicitações da comunidade universitária.

ON - Certamente, medidas duras tiveram de ser tomadas para manter a instituição no seu curso e em crescimento. E elas agradam ou não. Como foi enfrentar críticas, oposição e contrariedades nesse período?
Rui Getulio -
Todo gestor precisa estar preparado para as críticas. Ninguém ganha uma eleição com 100% dos votos, especialmente aqui na UPF, seja no grupo de professores, seja no de alunos ou funcionários. Por isso sempre há uma oposição velada. As pessoas que não votaram ficam na expectativa de que o que foi prometido não seja cumprido, e ai surgem as cobranças. Eu, sinceramente, fui para a Reitoria bem preparado, pois tinha uma história na instituição de 16 anos como diretor, oito anos como vice-diretor – quando este cargo existia e mais quatro anos como coordenador, membro do Conselho

Universitário há mais de 20 anos, do Conselho Diretor fui membro oito anos antes mesmo de ser reitor. Portanto, eu estava preparado para receber as críticas e as necessidades exigiam a tomada de medidas duras, justamente. Assim, não hesitei em tomar medidas, mesmo correndo o risco de pagar um preço político para que a instituição sobrevivesse, num contexto em que muitas do estado e do país corriam sérios riscos. Nós resistimos por entendermos que a UPF era grande e a cidade de Passo Fundo precisava da universidade, que foi a propulsora do desenvolvimento da cidade e da região. E eu arrisco mais, sou audacioso em dizer que Passo Fundo se divide em dois momentos: um antes e outro depois da UPF.
 
ON - Houve algum momento em que o senhor achou que não conseguiria atingir os propósitos como reitor?
Rui Getúlio -
Não. As decisões que o reitor toma não são individuais. O reitor não é um ditador e depende de decisões: na Reitoria, com os vice-reitores e, nas unidades, com os diretores e coordenadores. Ainda, acima do reitor, na mantida, existe o Conselho Universitário, onde estão representados os mais variados segmentos e cada unidade possui sua representação. Cada um pensa de uma forma e é preciso ter um equilíbrio político para poder atingir um denominador comum, às vezes transigindo, às vezes levando as questões ao Conselho Universitário. Acima de nós ainda existe o Conselho Diretor da Fundação UPF, a quem devemos prestar contas e que fiscaliza os nossos atos, de maneira que, sinceramente, não tive essa preocupação.

ON - Qual foi a maior dificuldade enfrentada neste período?
Rui Getulio
- Nossa principal dificuldade foi realmente financeira, como a inadimplência dos alunos, por exemplo. Tivemos de negociar muito para não perder os recursos da instituição. Mas no momento em que participamos de uma reunião com o ministro da Educação à época, Tarso Genro, para tratar do projeto do ProUni, que até então não existia, ficamos felizes. Estávamos reunidos com reitores de diversas universidades federais, particulares, estaduais, municipais, comunitárias, e a ideia foi lançada. Quando o ministro pediu que houvesse uma manifestação dos presentes, eu fui o primeiro reitor a levantar a mão dizendo que concordava, porque a ideia do ProUni vinha exatamente ao encontro do que fazíamos em uma universidade comunitária. Com isso, conseguimos trazer para a universidade hoje cerca de quatro mil estudantes, alguns com bolsa de 100% e outros tantos com bolsas de 50%. É algo que, mais do que nunca, está compatível com o que fazemos em uma instituição comunitária. Isso permitiu que mantivéssemos os empregos dos professores e mesmo a sustentabilidade financeira da instituição.
Outra dificuldade que cito e que a próxima Reitoria precisará enfrentar é com relação à reforma do Estatuto da UPF. Dois anos atrás, levei esta proposta ao Conselho Universitário. Nomeei uma comissão, que apresentou um projeto de reformulação, o qual, contudo, por razões que entendo políticas, foi sendo adiado e, quando faltavam poucos meses para a eleição da Reitoria, foi abortado o processo. Eu mesmo resolvi retirar a proposta, pois percebi que não havia mais clima, pois a reforma do Estatuto estava sendo discutida e repensada com vistas a ganhos políticos, e uma instituição séria não pode reformar seu Estatuto – que é o seu principal documento – levando em conta ganhos políticos de um grupo ou outro. A reforma do Estatuto precisa ser pautada por uma discussão técnica, séria, visando aos interesses maiores da instituição, seu bem-estar e seu futuro. Quando o Estatuto em vigor foi criado, a UPF era a única instituição de ensino superior em Passo Fundo, porém a legislação do Ministério da Educação de lá pra cá mudou muito. Urge que nossa instituição promova a adequação de seu Estatuto à legislação federal em vigor.  
Outra dificuldade enfrentada foi a questão da mercantilização do ensino. Com a entrada de 10 instituições em Passo Fundo e região, houve a oferta de cursos com valores incompatíveis com as dificuldades de uma instituição que mantém 72% de seus professores com mestrado e doutorado, que tem um grupo com salários altíssimos em função de benefícios adquiridos e onde mais de 90% das receitam provêm da mensalidade dos alunos. Não podíamos diminuir tanto os valores das mensalidades, pois precisávamos honrar a folha de pagamento – que hoje é de mais de R$ 10 milhões mensais. Nossa solução foi reformar todos os currículos dos cursos de graduação, o que nos proporcionou diminuir a duração dos cursos e praticar valores compatíveis com o mercado, para podermos concorrer, embora sempre visando à qualidade. Isso porque somos uma universidade, que, além do ensino, tem como focos também a pesquisa e a extensão. Isso representa um custo a mais que as instituições isoladas. Contudo, a marca UPF é muito forte. Prova disso é que, mesmo com tantas instituições de ensino, continuamos agregando novos alunos e atualmente estamos com aproximadamente 17 mil estudantes na graduação e, no total, com aproximadamente 22 mil estudantes matriculados, um recorde da instituição. Também há que se considerar que a cada vestibular agregamos um número maior de candidatos. Prova disso é que nos últimos vestibulares de inverno e verão batemos todos os recordes de inscritos.

ON Qual a maior satisfação ou alegria que o marcou na gestão da UPF?
Rui Getúlio -
É difícil afirmar qual foi a maior, mas creio que poder ser o reitor desta universidade talvez seja, sim, a maior. Fui aluno desta instituição, e não há satisfação maior que chegar a reitor. Acredito, inclusive, que esta tenha sido uma dádiva, primeiro de Deus, e, depois, da comunidade universitária que me elegeu.
Ao longo da gestão, várias ações me deixaram muito feliz. Um exemplo é a internacionalização da universidade. Fiz três viagens à Europa e lá fiz contato com as principais universidades do mundo. Por exemplo, Pádua, a segunda universidade mais antiga do mundo, com a qual formalizamos um convênio com a UPF. A Universidade de Coimbra, a La Sapienza, de Roma, que tem 140 mil alunos, Santiago de Compostela e outras instituições de toda a Europa são outros exemplos. Esses contatos permitiram que tivéssemos mais de 130 alunos estudando nesses países um semestre, sem custo de mensalidades, nem aqui nem na instituição estrangeira. Eles voltaram com outro nível cultural e puderam comprovar que aquilo que fazemos aqui é de qualidade. Por outro lado, recebemos mais de 50 alunos da Europa e da América, que estudaram aqui por um semestre e se encantaram com a nossa universidade. Ou seja, colocamos a UPF no mapa múndi das instituições de ensino superior, pois, quando assumimos, tínhamos apenas dois convênios de cooperação internacional e hoje este número é de 58 e com universidades de todo o mundo.
Outro fato que nos traz orgulho também é proveniente das parcerias internacionais. Tivemos a honraria de fazer o discurso inaugural do Seminário de Leitura e Patrimônio no Instituto Cervantes, em Paris, no ano de 2004, e também o discurso inaugural no mesmo seminário, na edição realizada em 2006, na Universidade Castilla La Mancha, na cidade de Cuenca, na Espanha. Também tivemos a alegria, por exemplo, de estarmos presentes duas vezes em audiência com o presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, ao qual pudemos apresentar projetos da universidade que posteriormente seriam aprovados. Poucos reitores de universidade do país tiveram essa oportunidade.

ON - Em oito anos, a Universidade foi uma das instituições que mais cresceu fisicamente. Que balanço o senhor faz deste crescimento envolvendo o campus central e os campi. Como era e como o senhor está entregando a instituição?
Rui Getúlio -
Desde o início da nossa gestão, a Universidade apresentou um acréscimo de aproximadamente 500 novos alunos por ano, e precisávamos de espaço para abrigá-los. Além disso, nessa mesma época propusemos ao Conselho Universitário a criação de novos cursos, o que também demandava espaços específicos. Não podíamos vender uma expectativa para os futuros alunos sem poder cumpri-la. Dessa forma, de 2002 a 2010, toda a infraestrutura da UPF passou por transformações, seja com a construção de novos prédios, seja com a reforma/ampliação de todos os que já estavam construídos. O resultado desse esforço foi a nota máxima 5 atribuída pelo MEC para esta dimensão em agosto de 2009, por ocasião do processo de recredenciamento da UPF. Podemos citar como obra principal desses oito anos a construção de dois novos campi: Lagoa Vermelha e Soledade. No Campus I viabilizamos, em parceria com o Banrisul, a construção do Centro de Convivência, além de outros prédios, como o Instituto de Ciências Biológicas, a Faculdade de Direito, o prédio dos cursos de Farmácia e Fonoaudiologia, o Centro Tecnológico, o Museu Zoobotânico Augusto Ruschi, a Brinquedoteca da Faculdade de Educação, a Central de Resíduos e a Estação de Tratamento de Efluentes e o prédio para abrigar o grupo gerador de energia. Quanto às reformas e ampliações, destacamos um bloco com 8 salas de aula na Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis; um bloco de salas de aula no Campus Palmeira das Missões; melhorias na Faculdade de Artes e Comunicação; uma ampliação na Faculdade de Odontologia; reforma completa no Campus II, na Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, no Instituto de Ciências Exatas e Geociências, na Faculdade de Educação, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, no prédio B3 para a instalação do Centro de Educação em Tecnologia e no prédio F1 para a instalação do Espaço de Lazer dos Funcionários, entre outras tantas obras.
 
ON - Qual foi o montante investido neste processo de crescimento?
Rui Getulio -
No período 2002 a 2009 houve uma evolução de mais de 28 mil metros quadrados de área construída, que era de 189 mil metros quadrados e hoje atinge 217 mil metros quadrados. As dependências voltadas ao ensino, que em 2002 eram 769, atualmente são 1.103, representando um acréscimo de 43,43%. Para viabilizar todas essas ações foram empreendidas parcerias com o Banrisul e com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que financiou R$ 15,9 milhões em obras. Ao todo, foram investidos R$ 26,3 milhões, entre recursos financiados e recursos próprios.

ON - Nesse período foi contratada uma auditoria, que indicou, entre outras mudanças, uma maior autonomia da Fundação Universidade de Passo Fundo. Dentre essas mudanças está a de repassar para a fundação setores que são estratégicos, como a comunicação. Qual é sua opinião a respeito disso?
Rui Getúlio -
Essa questão precisa ser tratada com muito cuidado, porque a universidade possui autonomia constitucional e, dentro dos regramentos da instituição, também possui autonomia. Portanto, a questão deve ser estudada com calma pelas partes envolvidas, pela Fundação e pela UPF, para que não haja uma ruptura entre a mantida e a mantenedora, como já ocorreu em outras oportunidades no passado. É necessário avaliar o que diz a legislação, para que ela seja cumprida.
 
ON - Quais os compromissos financeiros que ficam daqui para diante?
Rui Getúlio -
Fizemos um planejamento financeiro de curto, médio e longo prazo que nos permite afirmar que a Universidade de Passo Fundo está em situação totalmente viável e administrável. Estamos repassando todos os dados acadêmicos, administrativos e financeiros, integralmente, à nova Reitoria, bem como indicativos de desempenho de cada unidade acadêmica e seus reflexos no balanço da Fundação UPF.
 
ON - O que o senhor espera da próxima ou das próximas reitorias da Universidade de Passo Fundo?
Rui Getúlio -
O processo de transição está sendo o mais cordial e civilizado possível. Temos trocado impressões, temos conversado. Podemos ter sido adversários momentaneamente. Agora, com o término do processo eleitoral, acabou isso. Todos precisamos trabalhar pela Universidade de Passo Fundo. O que eu espero é que efetivamente a UPF continue essa evolução extraordinária que tem apresentado nesses últimos oito anos, porque sempre há riscos. Há outras instituições sendo autorizadas na região e a UPF precisa se manter e ser cuidada com todo o carinho.
 
ON - Para fechar esta entrevista, como o senhor está entregando a Universidade de Passo Fundo em relação ao período em que o senhor assumiu a instituição.
Rui Getúlio -
Estou entregando em condições melhores do que quando a assumi. Isso, modéstia à parte. Não pretendo, com isso, desvalorizar todas as pessoas que trabalharam para a instituição anteriormente e que deram sua contribuição. Cada um tem seu modo de gerenciar. Nós o fizemos da nossa maneira. A história vai julgar. Acredito que estamos entregando uma universidade muito melhor.



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