Entrevista | Publicado em 30/07/2010 22:37:07
ENTREVISTA – Adelar Aguiar, Secretário do Trânsito, Mobilidade Urbana e Segurança
Bruno Todero
Vivendo o momento de maior calmaria desde que assumiu, há 19 meses, a secretaria de Trânsito, Mobilidade Urbana e Segurança (STMUS), o secretário Adelar Aguiar avaliou a sua gestão em entrevista concedida em seu gabinete a O Nacional. Em meio a assuntos polêmicos, como o da inversão da Moron, revelou que até agora só gerenciou as decisões tomadas pela administração anterior, quando Airton Dipp também era o prefeito, mas tinha como secretário o atual vereador José Eurides de Moraes, e que somente daqui para frente a cidade conhecerá o jeito Adelar de trabalhar.
Perguntado sobre como avalia o funcionamento do sistema de monitoramento eletrônico do trânsito, surpreendeu ao afirmar que, fosse ele o secretário em 2008 (ano em que a ordem de serviço para contratação da empresa que faria a instalação do sistema foi assinada), nunca teria feito, sem antes iniciar o projeto de recuperação das vias alternativas. “Eu não daria ordem de serviço antes de ver as obras em andamento. Mas ela foi dada e eu tive de assumir. Assumi e fiz o meu melhor, mesmo com todas as limitações que reconheço ter tecnicamente”, afirmou.
De acordo com Aguiar, com a assinatura do empréstimo junto ao BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), que deve injetar na economia local mais de 19 milhões de dólares após o período eleitoral, o trânsito, que vai ficar com a maior parcela dos recursos (55%) vai poder fluir da forma como se deseja. Apenas para efeito de comparação, atualmente o orçamento da secretaria é de 5,6% da arrecadação do município, o que representou, em 2009, cerca de R$ 10 milhões.
Nesta entrevista, o secretário avalia as mudanças que foram implantadas desde que assumiu a STMUS, em janeiro de 2009, iniciando no ponto em que ele afirma o que acredita ter sido o maior equívoco da administração em termos de trânsito na cidade:
O Nacional – Como o senhor avalia o sistema de monitoramento eletrônico instalado no ano passado?
Adelar Aguiar – Foi a maior crise que enfrentamos, porque criou na comunidade expectativa de que o trânsito ia melhorar. Mas, na verdade, os equipamentos eletrônicos trouxeram mais prejuízos do ponto de vista da circulação do que o sistema antigo. Primeiro, porque se passou a multar, o que antes não acontecia. Segundo, porque circuito integrado de pedestre aumentou o tempo dos veículos parados no semáforo. Isso causou insatisfação. E terceiro, porque não foram feitas obras para sustentar esse novo sistema. Se eu fosse implantar esse sistema que tive de gerenciar, eu faria primeiro as obras e depois instalava equipamentos. É o que vamos fazer agora, só que na ordem inversa.
ON – O senhor está dizendo que faria diferente?
AA - Eu não faria implantação do sistema de monitoramento eletrônico sem antes ter feito obras e serviços de reestruturação do trânsito, criando alternativas para aqueles que não querem se submeter a esse sistema. Hoje, na verdade, na medida em que eu monitoro a avenida Brasil e a Presidente Vargas, sem melhorar nenhuma outra via, eu automaticamente estou dizendo que todo o fluxo vai acontecer naquele espaço. Evidentemente que a decisão foi do prefeito e do secretário que estava na época. O erro não é o projeto em si, mas a ordem que ele foi executado. Monitorou primeiro para depois iniciar melhorias. Teria que fazer melhorias para depois monitorar.
Do meu ponto de vista, deste homem que gerenciou toda essa crise, e o fez da melhor forma possível, gerenciei sendo contrário a implantação. Repito, jamais orientaria fazer monitoramento sem recuperar vias alternativas. Não poderíamos ter colocado monitoramento na única passagem que tinha disponível. Agora nós temos a Presidente Vargas totalmente destruída, mas monitorada eletronicamente. O certo seria as coisas inversas, ou no mínimo andando junto. Eu nunca daria ordem de serviço para esse projeto sem ter expectativa de início das obras. Mas ela foi dada e eu tive de assumir. Assumi e fiz o melhor. Com todas as limitações que reconheço ter tecnicamente. Sou formado em gestão pública, não tenho formação técnica do ponto de vista do trânsito, mas isso não é requisito para ser secretário, nem nunca foi.
ON – O senhor é contra o sistema de monitoramento?
AA - Não estou dizendo que sou contra o sistema de monitoramento. Eu prefiro punir só aquele que comete a irregularidade do que manter um sistema arcaico de lombadas físicas e redutores, que pune a todos motoristas. Prefiro punir somente o infrator, e só consigo fazer isso de duas formas: com fiscalização dos agentes, que não têm estrutura para isso, ou pela fiscalização eletrônica. Mas da forma como a coisa foi implantada, eu puni a população sem dar nada em troca.
ON – O que deu certo do seu ponto de vista neste tempo em que está à frente da secretaria?
AA – Conseguimos padronizar a velocidade nas lombadas em 50 km/h, constituímos sistema integrado para o pedestre no semáforo. Essa foi outra briga que compramos, porque obriga o usuário a parar um tempo a mais no semáforo. A medida teve objetivo de preparar os usuários para o princípio da acessibilidade às pessoas portadoras de necessidades especiais. Lançamos campanha incentivando a transformação das multas leves em advertências. Essa informação não era de conhecimento público, por isso adotamos campanha para que fosse conhecida, o que aumentou e muito a procura por recursos. Fizemos a realocação dos semáforos antigos para pontos considerados de conflito, entre eles na esquina da Brasil com a Diogo de Oliveira, no Boqueirão, também na Uruguai, nas esquinas com a Benjamin Constant e com a Fagundes dos Reis, medidas que demonstraram eficácia. Também constituímos mão única na Benjamin e na Fagundes, que foram plenamente aprovadas. Revitalizamos a General Osório com perspectiva de fluidez e já vemos utilização maior. Retiramos estacionamentos oblíquos em alguns lugares e proibimos estacionamento em outros. Redefinimos e marcamos estacionamentos exclusivos para pessoas com deficiência. Tivemos ainda outro ponto de conflito que foi a mudança na Moron, onde por uma questão mais política do que técnica tivemos que nos adequar. Iniciamos também a instalação dos pórticos e semipórticos de sinalização na cidade, que era uma reivindicação da comunidade. Em tudo isso, ressalto que atuei de forma gerencial, ou seja, até agora essa administração não colocou nada de projetos próprios. O nosso projeto, com nossa intervenção, é o projeto do BID. Com esse caminhamos para a constituição do sistema binário e para a recuperação imediata das vias, processo que já iniciou, ainda de forma leve já que os recursos utilizados até aqui ainda são próprios, mas com o BID serão tocados mais rápido.
ON – O senhor quer dizer que somente agora poderá mostrar o seu trabalho de fato?
AA - Nos próximos 60 a 90 dias, estaremos de fato executando as intervenções no trânsito que dizem respeito a este período administrativo. Até hoje só gerenciamos projetos anteriores, decisões já tomadas anteriormente. Agora iniciamos projetos desta gestão, quando vamos intervir e intervir forte na área do trânsito. É evidente que projeto do BID vem do período anterior, mas vai se efetivar agora. Agora começaremos a mostrar a cara deste período administrativo. Obviamente que o prefeito é o mesmo, mas muitos gestores não são os mesmos.
ON – Quais serão as prioridades da secretaria assim que os recursos do BID estiverem disponíveis?
AA – No primeiro momento vamos constituir os binários, que vão abrir vias e criar vias preferenciais, sejam paralelas ou perpendiculares a avenida Brasil. Aliado a isso iniciam as melhorias no acesso aos distritos do interior, que são prioritárias. Em um segundo momento, a expectativa é de completar o sistema semafórico usando sistema de monitoramento eletrônico integrado, com monitoria em tempo real dos pontos mais críticos usando as imagens das câmeras que serão instaladas na cidade com recursos do Pronasci. Com isso poderemos alterar a sincronia e o tempo de abertura dos semáforos à distância e conforme foi preciso. Poderemos usar as câmeras para um monitoramento completo, sem a necessidade de um agente no local. Possivelmente no andamento do projeto do BID, se comece a pensar com mais ênfase em obras de maior porte. O prefeito mesmo não descartou a construção de trincheiras, que foram sugeridas em audiências. Mas são projetos a longo prazo.
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