Entrevista

Entrevista | Publicado em 19/08/2010 23:29:08

Especialistas consideram sistema de segurança arcaico

Palestrantes do segundo dia do painel “Diálogos para o Desenvolvimento”, da Imed, defenderam o trabalho integrado entre diferentes especialidades para melhorias no sistema de segurança brasileiro e de outros países

Créditos :: ASSECOM IMED/DIVULGAÇÃO
Miguel Gandarillas Solinís e Pilar Mairal Medina

Bruno Todero/ON

Na segunda noite do projeto “Diálogos para o Desenvolvimento – Violência e Segurança Pública”, a Imed trouxe a Passo Fundo dois pesquisadores espanhóis que estão percorrendo o mundo em busca de experiências positivas em gestão integrada de segurança pública. Miguel Gandarillas Solinís, professor da University IE (Segovia, Espanha), e Pilar Mairal Medina, professora da Universidad Complutense de Madrid, defendem um sistema integrado de segurança pública, que envolva não só “técnicos policiais”, mas profissionais de diferentes áreas, como psicologia, direito e ciências sociais. Para eles, o atual sistema, não só do Brasil, mas também da Espanha e de outros países, é arcaico, porque se baseia na repressão e não no planejamento. Antes do evento, os pesquisadores atenderam a reportagem de O Nacional para uma entrevista. Acompanhe:

Entrevista
O Nacional – Por que vocês entendem que os sistemas de segurança pública atuais não funcionam como deveriam?
Miguel -
Segurança é uma questão interdisciplinar. Requer trabalho planejado e integrado de diferentes especialidades. Precisa de pessoas de várias áreas atuando junto, seja do âmbito do direito, da psicologia, do urbanismo, das ciências sociais. Nosso estudo internacional está mostrando que, na maioria dos países, os principais problemas da segurança estão relacionados ao trabalho que acontece de forma isolada. O que estamos encontrando, conforme vamos conhecendo novos locais, é que a segurança tem de avançar para uma maior governança comunitária.
Pilar - Esse é o maior desafio que encontramos. Vemos que as instituições não estão mudando para fazer essa integração e definir de maneira efetiva políticas de segurança. O que acontece hoje é que temos iniciativas isoladas, que buscam isso por necessidade, mas não há uma política de segurança global.
 
O Nacional – Em um ano e meio de estudos pelo mundo, já encontraram alguma política de segurança que poderia ser tida como a ideal?
Miguel –
Na verdade, não. Chegamos dos Estados Unidos, que tem tradição de governança comunitária, mas só na teoria. O que vimos na verdade é que, também lá, os serviços de saúde, segurança, educação, são muito setoriais, isolados. Entendo que para conseguir eficiência no emprego de recursos, tem que aplicar os recursos de forma integrada, e isso ainda não encontramos em nenhum país.
Pilar - Nos Estados Unidos, no Brasil, na Espanha, vemos que a maioria dos policiais não estão satisfeitos com o resultado do seu trabalho, no sentido da eficácia da repressão. O povo americano, por exemplo, têm muito claro que o dinheiro aplicado em segurança pelo governo é muito alto, mas sabe que, se houvesse mais investimento em saúde, educação, prevenção, cultura, o orçamento da segurança seria bem mais baixo.

O Nacional – Vocês consideram que o Brasil tem um bom sistema de segurança pública?
Miguel –
O Brasil tem muitas boas possibilidades. Vemos que pode se tornar um país inovador nessa área, porque as pessoas aqui acreditam em projetos, participam e acreditam de iniciativas que podem dar certo. Além disso, há um grande senso de comunidade. Na Espanha não temos essa união do povo. Problema é que, por aqui, assim como lá e em todo mundo, se investe em repressão, e não em prevenção. Trata-se de uma metodologia antiga que está bloqueando avanços em segurança, a integração social e o desenvolvimento comunitário de muitos países.

O Nacional – Como enxergam o papel das instituições de ensino nessa mudança?
Miguel -
Vemos que as universidades não estão se envolvendo na questão da segurança pública. Na Espanha e em outros países, os pesquisadores e professores não estudam segurança e policiamento. Isso faz com que o planejamento de segurança seja feito apenas por técnicos de segurança (policiais), sem espaço para novos estudos, novos métodos. Hoje o policiamento é basicamente o mesmo que no século IXX, um sistema arcaico. Precisamos das universidades atuando, de pessoas envolvidas nesse estudo, como acontece aqui (na Imed). Porque entendo que temos soluções. Por exemplo: sou psicólogo, e diferentes vertentes da psicologia têm estudado que o crime é uma conduta. E conduta pode ser modificada, pode ser dissipada, prevenida. Podemos trabalhar com essa pessoa sem criminalizá-la. Infelizmente, todo esse conhecimento científico que temos não é aplicado em segurança pública.  

Imed é destaque nacional
A Faculdade Meridional (Imed) recebeu ontem o Selo Renaesp (Rede Nacional de Altos Estudos em Segurança Pública) que reconhece práticas inovadoras e bem sucedidas para disseminar conhecimento em segurança pública. A Imed e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul são as únicas instituições de Ensino Superior do Estado a fazerem parte da lista de 11 universidades e academias de polícia de todo o país que receberam o reconhecimento. O diretor de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão da Imed, Henrique Kujawa, esteve em Brasília para o recebimento da distinção.
A Faculdade Meridional obteve a certificação do curso de especialização em Políticas e Intervenção da Segurança Pública em Violência Intrafamiliar. O coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Violência e Segurança Pública (GEVISP) da Imed, professor Júlio Cezar Consul, comemorou a honraria. “Sabemos que essa distinção é fruto de um longo e meticuloso trabalho, desenvolvido pela direção, professores, colaboradores e alunos, na ampla área do sistema de Segurança Pública”, salienta.


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