Entrevista

Entrevista | Publicado em 28/08/2010 00:21:08

"O maior desafio foi ter a clareza das coisas que não poderiam ser feitas de jeito algum"

ENTREVISTA - Gilberto Cunha, chefe-geral da Embrapa Trigo

Créditos :: Arquivo ON
Novo chefe-geral terá um orçamento anual de R$ 30 milhões para coordenar 236 funcionários

Em seus últimos dias como chefe-geral da Embrapa Trigo, Gilberto Cunha concede entrevista a O Nacional falando dos desafios dos quatro anos de gestão à frente da unidade, da situação atual da Embrapa Trigo, o que o próximo chefe-geral irá enfrentar, a situação do trigo no Brasil e seu futuro profissional, diante de convites para dirigir laboratórios da Embrapa no exterior. Cunha deve entregar o cargo a Sérgio Roberto Dotto até o final da próxima semana. O novo chefe-geral foi anunciado nessa sexta-feira (27)

Daiane Colla/ON

O Nacional - Quando o senhor assumiu a chefia da Embrapa Trigo em 2006, em entrevista a ON disse que seu legado seria a responsabilidade e a ampliação da atuação da Embrapa Trigo. Alcançaste o que pretendia?
Gilberto Cunha - N
aquela ocasião, recordo que fiz menção especialmente ao sentimento de responsabilidade que me assolava ao receber como legado a direção de uma intuição com uma história de 32 anos de reconhecidas contribuições para o desenvolvimento da agricultura brasileira de modo geral e, em particular, do cultivo do trigo. Tínhamos consciência do desafio que era levar adiante essa história de êxitos do passado em um novo momento histórico. Na nossa primeira mensagem pública, em março de 2006, deixamos claro que iniciava um período de grande demanda de trabalho, de responsabilidades nunca antes por nós experimentadas, mas também, e disso nunca tivemos qualquer dúvida, de ocupação dos postos mais importantes da nossa carreira na empresa. Seguramente, o nosso maior desafio profissional.
Em 1974, quando a Embrapa Trigo foi criada, os problemas da triticultura brasileira eram muitos. Pouco a pouco, graças aos esforços da Embrapa e de outras instituições de pesquisa atuantes no País, boa parte deles foi solucionada. Os avanços foram muitos e significativos. Todavia, alguns problemas persistiam e ainda persistem, além de que outros mais complexos surgiram, criando novas demandas para a pesquisa agropecuária brasileira. Paralelamente, mudanças políticas, econômicas e sociais formataram um novo mundo e um novo Brasil muito diferentes daqueles que predominavam nos primórdios da criação da Embrapa. E isso, evidentemente, exigiria, no âmbito institucional, uma nova prática de gestão que, ao mesmo tempo preservasse o que até então fora arduamente conquistado mas que, sem inovação, sabíamos bem disso disso,não asseguraria o futuro. Precisávamos ir adiante sem romper com o passado. E foi o que fizemos. Acredito que, com o trabalho que imprimimos, damos o primeiro passo para uma mudança de cultura da organização.
ON - De que forma o senhor deixa a chefia da Embrapa Trigo. Qual é a situação atual da unidade?
Cunha -
Deixo a chefia-geral da Embrapa Trigo com o sentimento do dever cumprido. Procurei dar o meu melhor em todos os sentidos e nas coisas que me envolvi. Deixamos uma Embrapa Trigo renovada em infraestrutura, foram 50 obras contratas e realizas nesses quatro anos e meio, uma carteira de projetos de pesquisa ampliada, duplicando o orçamento anual da Unidade, um novo plano diretor, um plano de segurança do conhecimento sensível elaborado em convênio com a ABIN, um quadro renovado de pessoas, 76 novos colaboradores se integraram à equipe de Passo Fundo, laboratórios construídos e equipados, frota de veículos de máquinas atualizadas, parcerias formatadas e acordadas, uma proposta de desenvolvimento do trigo no Brasil, materializada na Política de Desenvolvimento Produtivo do Trigo, na agenda estratégica do MAPA, em convênios com o INCRA, em ações de transferência de tecnologia e de comunicação, etc.
Esse trabalho, evidentemente, é fruto de um esforço realizado em equipe, sendo mérito de toda uma equipe. Credito o êxito da nossa gestão aos colaboradores diretos desta chefia, no caso os chefes adjuntos e suas equipes, especificamente, na área de comunicação e negócios, ao Dr. Osvaldo Vasconcelos Vieira, na área de pesquisa e desenvolvimento, ao Dr. João Leonardo Fernandes Pires, e na área administrativa à Dra. Eliana Maria Guarienti e ao Dr. Leandro Vargas. As falhas são de minha responsabilidade.
ON - Qual foi seu principal desafio nesses quatro anos como gestor de uma das mais importantes unidades da Embrapa?
Cunha
- O maior desafio foi ter a clareza das coisas que não poderiam ser feitas de jeito algum. Isso pode parecer simples, mas não é. Procuramos sempre fazer o melhor para a instituição. Olhando retrospectivamente fica até fácil identificarmos algumas cosias que não teríamos feito ou realizaríamos de uma maneira a diferente. Mas isso só a experiência permite ter essa visão. Um dos desafios que destaco foi seguir em frente mesmo diante de algumas decepções pessoais que são inerentes ao cargo. Superamos esse tipo de coisa e chegamos ao final de nosso mandato com serenidade.
ON - Do seu ponto de vista, o que o novo chefe-geral da Embrapa Trigo precisa ter e o que irá enfrentar nesses próximos três anos?
Cunha -
O fundamental para um dirigente de uma organização pública nos moldes da Embrapa é saber conviver com as divergências de opinião. Aceitar que não dispõe de poder de coerção e que precisa, mais que mandar, aprender a lidar com pessoas e buscar tirar o melhor delas para a consecução dos resultados almejados. Acima de tudo, por se tratar de uma empresa pública, atentar para as responsabilidades do cargo e seguir estritamente a legalidade. Muitos não entendem e costumam não aceitar que a um gestor de empresa pública só é permitido fazer o que a lei define. Aquilo que mesmo não sendo proibido por lei, mas não sendo permitido, não é possível de ser feito. Isso restringe muito a liberdade de ação do gestor público comparativamente ao gestor privado, sendo algo que nem sempre é bem entendido e ou/aceito pelos interessados, dificultando sobremaneira os relacionamentos público-privado. O novo chefe-geral deverá continuar enfrentando os mesmos desafios que nós enfrentamos e buscar levar adiante o trabalho da Embrapa Trigo em um mercado de alta competitividade tecnológica, como é ocaso da agricultura moderna. O desafio é esse: conquistar espaço no mercado de inovação tecnológica e manter o reconhecimento e prestígio que a Embrapa goza perante a sociedade brasileira.
ON - O que podemos esperar da cultura do trigo para os próximos anos?
Cunha -
Sou um entusiasta do trigo no Brasil. Acredito que é inaceitável a posição que o cultivo deste cereal tem historicamente ocupado em nosso País. O Brasil, no caso do trigo, perde uma excelente oportunidade de negócios, de, a exemplos de outras culturas, ocupar posições importantes no mercado internacional. Existe um comércio mundial que supera as 100 milhões de toneladas ao ano e, paralelamente, diante da expectativa de crescimento da população mundial, que se espera atinja os nove bilhões de pessoas por volta do ano 2050, há uma tendência de crescimento da demanda de trigo que, dificilmente, os países tradicionalmente produtores poderão atender. Nesse caso, o Brasil sobressai-se por possuir espaço para crescer em área cultivada, domínio tecnológico próprio, produtores experientes e condições de ambiente adequadas, especialmente no cerrado. Estamos trilhando um caminho de forma errática em trigo, ora ampliando a oferta e ora diminuindo área cultivada e a produção. Precisamos reverter a situação, estabilizando a produção e definindo um padrão de qualidade para o trigo brasileiro que tenha a confiança do mercado. Identidade, regularidade na produção e padrão de qualidade tecnológica são coisas que, em certa medida, ainda faltam para nos configurarmos efetivamente no mercado mundial de trigo.
ON - E o senhor segue como pesquisador da Embrapa Trigo? Quais são seus planos? Podemos esperar novos desafios profissionais?
Cunha -
Faço parte da equipe de pesquisadores da Embrapa Trigo desde 1989. Quando deixar a direção, agora em setembro, devo retomar minhas atividades de pesquisa junto ao Laboratório de Meteorologia Aplicada à Agricultura, onde, por ora, estão em andamento vários projetos, envolvendo mudanças climáticas, zoneamento agrícola, indicadores de sustentabilidade e modelagem e simulação, além de estudos em bioclimatologia. Quando dispensado das funções gerenciais vou poder colaborar mais efetivamente com os colegas que estão tocando estes projetos no momento e que, por absoluta falta de tempo, têm contado com uma pequena participação minha nos últimos anos.
Intelectualmente, sinto que, hoje, estou melhor preparado para a prática científica. A experiência que adquiri, lidando com pessoas e os mais diversos contextos do ambiente de ciência, tecnologia e inovação, me deram qualificações que eu não possuía antes de assumir o cargo e passar pela experiência de dirigir a Embrapa Trigo. Isso, aliado a uma melhor preparo teórico, me dá a certeza que ainda posso contribui muito na área científica. Efetivamente nunca houve um afastamento total da pesquisa científica, ampliei campos de estudo e formatei uma visão mais clara das questões que de fato são relevantes para que possamos avançar, via inovação de valor, nas ciências agrárias no Brasil.
No âmbito profissional, no curto-prazo, são estes os planos. Há convites e estímulo pela direção da Embrapa para um período de licença sabática em alguma instituição de ensino e pesquisa integrada aos laboratórios virtuais (Labexs) que a Embrapa mantém no exterior, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos da América, que estamos estudando. De pronto, vamos concluir, se possível antes do final deste ano, duas obras que foram iniciadas e estão inacabadas. Uma delas é o resgate da vida e dos trabalhos dispersos do geneticista Iwar Beckman, criador do trigo Frontana, que, com o auxílio da família, conseguimos organizar um acervo relevante para a compreensão do desenvolvimento da triticultura brasileira. E o outro é um livro sobre trigo no Brasil.
No plano pessoal, penso retomar e concluir o curso de Direito, com o objetivo de qualificar um livro que estou escrevendo sobre a história recente da Embrapa Trigo.


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