Entrevista

Entrevista | Publicado em 15/10/2010 23:13:10

Manuela d’Ávila: “A sociedade tem que ter o cuidado de não tiriricar a política”

Deputada federal mais votada no Estado, Manuela d’Ávila fala sobre o recorde de votos que fez na última eleição, consagrando-se como uma das campeãs do país, apresenta seus planos e pretensões na política nesta entrevista concedida a O Nacional

Créditos :: Divulgação

Leonardo Andreoli/ON

Todo político tem uma “simpatia” pelo povo. Alguns mais espontâneos, outros treinados. É nesse ponto que muitos se destacam, o tratamento com as pessoas pós eleição. Não é raro você encontrar um político que dificulta a entrevista, transfere compromissos e responsabilidades para assessores, enfim não tem tempo. Surpreende quando você solicita um espaço na agenda e recebe de cara a ligação do entrevistado que sem rodeios conversa, desbanca uma pergunta, concorda com você em outro tema e ainda termina tudo com um ar de quem é amigo de infância.

Assim foi o início desta entrevista com a deputada federal Manuela d’Avila. A mais votada no Estado, com 482.590 votos, sonhos e esperanças depositados nas urnas, como ela mesma define. A candidata a reeleição superou em quase 80% o resultado anterior. Em 2006, ela fez 271.939 votos. Duas vezes eleita, duas vezes a mais votada. Muitas histórias para contar sobre ela, não caberiam nessas páginas, mas podem ser encontradas no site www.eaibeleza.com.br - bordão que marca o contato da política com a população. A deputada dispõe ainda de Twitter - @deputadamanuela -para se manter conectada com jovens, adultos, mulheres, homens, pessoas de todas as partes do Estado que contribuíram nesses números surpreendentes.

Confira a entrevista:
O Nacional - Todo o candidato eleito tem responsabilidade para com os seus eleitores. Você como uma das deputadas mais votadas no Brasil sente um peso maior em relação aos seus colegas?
Manuela d’Ávila -
A responsabilidade de todos os parlamentares deve ser igual, independente da quantidade de votos que eles façam. Quando a gente entra na Câmara todos somos deputados e deputadas com as mesmas responsabilidades. Todos nós juramos respeitar e fazer valer a Constituição Brasileira. Na verdade a minha responsabilidade continuará sendo a mesma, que já foi muito grande, do primeiro mandato. Agora o que eu acho é que o meu trabalho certamente será ainda mais intenso pra corresponder as expectativas das pessoas.

ON - Por ser jovem, e pela tua ligação com o movimento estudantil, muitas vezes a tua imagem é associada aos jovens, e ao trabalho em favor deles. Esse pode ser um dos fatores que te levou a essa votação recorde?
MD -
São vários fatores. O primeiro que temos que levar em consideração é a avaliação do meu trabalho. Eu já tenho um mandato, que foi submetido a uma avaliação durante as eleições. E essa avaliação foi positiva. Tanto que eu já tina uma votação muito grande. A minha votação já tinha sido a terceira maior na história do Estado na última eleição. Já era uma responsabilidade muito grande.
O segundo fator é honrar os compromissos nesse trabalho e ampliar as possibilidades de diálogo. Muitas pessoas questionavam: ah, ela não é de Passo Fundo, nem por isso deixamos de dialogar com a prefeitura e lutar por mais R$ 700 mil em recursos investidos na cidade. Então assim, não é um trabalho eleitoral. É um trabalho permanente e acho que isso conta muito para a população.

ON - Os jovens viram em ti uma candidata que pudesse representar eles e acabaram apostando em ti mais uma vez?
MD -
A juventude votou em mim já na primeira eleição e continua votando – setores da juventude – por concordarem com minhas opiniões e projetos. Tem que ter claro que eu não tenho voto só dos jovens. Tenho votos de vários segmentos.  Nessas eleições, nas ruas, eu senti que tenho muito voto de mulheres que acreditam que as mulheres precisam estar representadas, mulheres combativas, de esquerda. Não é um único segmento. Alguém que faz quase meio milhão de votos não pode dizer com certeza que foi apoiada por um único setor. Por exemplo, o Paim foi eleito pelo aposentado. Não. Ele tem uma marca, mas não é só isso.
Até porque o tema da juventude é um tema que tem preocupado cada vez mais a sociedade como um todo, não só os jovens. É como o tema dos aposentados. É uma boa comparação, muitas vezes as pessoas falam: ah, só os aposentados interessam aos aposentados; e não é verdade.

ON - Como o uso de mídias digitais influencia na hora de escolher um candidato?
MD -
Isso potencializa. Ninguém constrói trabalho pela internet. A internet é a reprodução do mundo real. A internet não é um mundo irreal por ser virtual. O que tá escrito ai, é o que eu faço em carne e osso no meu cotidiano. É a transformação virtual da realidade. Então ele aproxima, ele reforça a ideia de voto. Ele dá transparência para o mandato. Por isso que muitas campanhas não tiveram sucesso na internet. Porque as pessoas achavam que usariam pra fazer só campanha, mas não. É o cotidiano. É um contato direto com o trabalho da pessoa. [O eleitor] tem a opção de permanentemente saber e opinar.

ON - No primeiro mandato você presidiu as frentes parlamentares do Esporte, em Defesa da Liberdade na Internet e pela Cidadania LGBT. Que bandeiras serão defendidas neste mandato?
MD -
Tive várias áreas de atuação. Até acho que meu mandato teve a característica da juventude que dialoga com várias áreas – cultura, esporte, etc. Tem a questão da educação que é uma marca da minha atuação, e eu me identifiquei muito com a questão do direito dos trabalhadores, tanto que eu atuei durante os quatro anos na Comissão de Trabalho da Câmara. Pretendo continuar com o trabalho nisso, mas acho também que o próximo congresso, se a Dilma ganhar a eleição, como eu acho que vai acontecer, tem a responsabilidade de contribuir para que reformas estruturantes sejam feitas no nosso país. O deputado tem os projetos dele, mas ele também tem formas de tencionar e contribuir para que grandes projetos que não são individuais, mas que são necessários para o Brasil sejam aprovados: as reformas política, tributária, da educação, da saúde.

ON - Pensar e falar em comunismo pode parecer ultrapassado atualmente. Você chegou com a bandeira do comunismo com um ar de modernidade. Isso pode ser considerado uma transformação?
MD -
Eu defendo com o jeito de alguém que tem 29 anos. A gente sempre tem que levar em consideração que as coisas, a mudança não é negativa, mas porque o socialismo que a gente defende é uma ciência. Se é uma ciência, muda de acordo com o tempo que a gente vive. Não pode ser igual em 2010 como era em 1910. Como os nossos partidos são partidos que existem há muito tempo, que não surgiram ao Deus dará. Agora existe uma outra questão. Eu não acho que a sociedade tem ainda essa visão preconceituosa. A gente viu no final de 2008 e em 2009 uma crise econômica mundial que provou que as nossas idéias são mais próximas de serem aquilo que a sociedade precisa para não enfrentar crises que geram, por exemplo, em países com uma economia central, como é os EUA, 20% ou 30% de desemprego.  Porque o Brasil superou essa crise. Superou porque o país tinha uma participação maior do Estado no desenvolvimento nacional.

ON - Você tem o sonho de ser prefeita de Porto Alegre, e já concorreu ao cargo. Como você pensa que isso pode ser possível? Em 2012 teremos uma nova tentativa?
MD -
Não sei. Acho que esse é o sonho do meu partido que a gente possa contribuir para o desenvolvimento da capital que é de todos os gaúchos. Morei mais da metade da minha vida fora de Porto Alegre e sei que a cidade representa muito para todos os gaúchos e não só para os porto-alegrenses. Como isso vai se dar, e se vai se dar, é um debate que envolve muitos fatores. O principal deles é a vontade da população, nem a minha, nem do partido, nem a do campo político. É a da população acreditar que a gente tem um projeto a altura da capital do Estado. Se vai ser em 2012, em 2016, se não vai ser, tem muitas pessoas que não realizam sonhos. Muitos partidos que não realizam seus sonhos.Tento representar bem o meu partido, e as idéias e a parte expressiva da população que sempre deposita confiança em mim. Acho que a gente não tem o direito de brincar com a esperança das pessoas. Sonho e esperança são coisas muito sérias. Muitas pessoas tratam essas questões como subjetivas como é a esperança, o sonho a vontade de ver nosso Estado e país melhorar como se isso não fosse importante. Pra mim sonho e esperança são as principais coisas que a gente mantêm vivas nas pessoas porque é a partir disso que elas têm força e coragem pra enfrentar os obstáculos e mudar, então eu não tenho o direito de ignorar a quantidade de expectativa e esperança depositada em mim. O que eu costumo fazer é honrar essa confiança depositada. Hoje, eu to preocupada com o segundo turno das eleições presidenciais. Tem um verso do Galeano que diz que a utopia é que faz a gente andar. A gente dá dois passos na direção dela e ela dá dois passos mais longe. No final isso serve pra gente seguir caminhando, a gente não tem tanto controle, mas precisamos ter metas e objetivos para seguir caminhando.

ON - Em uma entrevista você disse que é uma miopia das pessoas acreditar que todos os partidos são iguais. É isso que você percebe no contato com as pessoas?
MD -
Algumas pessoas e alguns veículos de comunicação tentam passar a imagem de que os partidos são todos iguais, e não são.  Cada partido tem propostas e métodos para alcançar suas propostas. Eu acho que a gente tem que conseguir diferenciar pra poder fazer as melhores escolhas dentro daquilo que a gente acredita ser o melhor para a sociedade.

ON - No Brasil existem muitos partidos e esse número continua crescendo. Por outro lado, a cada nova eleição vemos alianças sendo formadas em favor de um ou outro candidato. Esse grande número de partidos não pode ser considerado frágil, uma vez que cada vez mais se segmenta, e falta representatividade tanto em políticos, quanto em militantes para essas bandeiras?
MD -
Não acho que o principal problema da democracia brasileira seja o excesso de partidos, eu acho que é a falta que algumas pessoas têm de propostas. Não tenho nada contra existirem tantos partidos quanto forem necessários para representar as idéias de um povo tão diverso como é o povo brasileiro. A gente deve ver quais são as idéias dessas pessoas.

ON - No Brasil temos a consagração de Tiririca que teve uma votação recorde. Marina Silva superou os números apontados em pesquisas. Qual a sua opinião sobre essas manifestações populares no momento da eleição?
MD -
Todas as manifestações são legítimas. A sociedade tem que ter o cuidado de não tiriricar a política. Existe só um Tiririca, nós somos 513 deputados. O povo não votou massivamente em tiriricas. A gente deve dar o peso adequado pra cada coisa, sob o risco de transformar manifestações de deboche com a política, maiores do que elas são de fato.

ON - A maioria das perguntas feitas pra ti que vemos são clichês ligados a tua idade, beleza, o “e ai, beleza?”. Qual pergunta você gostaria de responder que até hoje ninguém te fez?
MD -
Eu acho que a gente acaba padronizando, porque as pessoas têm dúvidas comuns. Enfim acho que eu respondi quase tudo. Agora eu fiquei pensando nisso, nunca ninguém me fez essa pergunta. Essa pergunta é uma pergunta que eu nunca respondi.

(Foto: Rafael Remus)
Deputada Manuela atribui sucesso nas urnas, entre outros fatores, a avaliação positiva do primeiro mandato
(Foto: Agência Câmara)
Candidata a reeleição, Manuela d’Ávila, superou em quase 80% o resultado anterior que era de 271.939


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