OPINIÃO

Estrada sem lei

Por
· 3 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?

Os Estados Unidos têm uma tradição de cultuar e mitificar transgressores. Bandidos e assassinos como Jesse James e Billy the Kid, que atuaram no final do século XIX no oeste americano já foram cultuados e transformados em heróis e anti-heróis na literatura e no cinema. O mesmo vale para Bonnie Parker e Clyde Barrow, o casal de foras-da-lei que mobilizou uma caçada em diferentes estados no começo dos anos 30, em plena depressão pós-crise de 29. Os jovens assassinos e ladrões de banco já foram visitados pelo cinema e pal TV várias vezes, a mais famosa em 1967, com “Bonnie & Clyde – Uma rajada de balas”, de Arthur Penn, um dos mais importantes filmes do cinema norte-americano contemporâneo, por ter dado a “largada” na chamada Nova Hollywood que mudaria o cinema da terra do Tio Sam ao longo dos anos 70. Na semana que passou, a Netflix lançou uma desconstrução da mitificação do filme de 67, que marcou de forma definitiva a cultura popular, “Estrada sem Lei”, dirigido por John Lee Hancock e estrelado por Kevin Costner e Woody Harrelson.

Produzido por Costner, o filme de Hancock, um diretor irregular mas que já havia entregue uma bom filme no anterior "Fome de Poder", segue uma direção diferente do icônico filme de Arthur Penn. O principal motivo é o de, justamente, destruir uma imagem eternizada pelo clássico de 1967, que glamouriza o casal de bandidos assassinos. Costner e Harrelson são Frank Hammer e Maney Gault, dois veteranos Rangers aposentados, que viveram seus dias de glória caçando criminosos nos últimos tempos do velho oeste e cuja força foi desmantelada por seus métodos violentos. Sem conseguir prender Bonnie, Clyde e seu bando, que são protegidos pela população por onde passam – para quem o casal representa uma espécie de Robin Hood moderno assaltando bancos e desafiando o governo – a governadora do Texas pede a contragosto ajuda a Hammer, o mais famoso Ranger da história, conhecido por seus métodos pouco ortodoxos, frieza e violência. O filme de Hancock se dedica a mostrar a caçada solitária da dupla, que enfrenta o cansaço, a mudança dos tempos, a concorrência dos métodos modernos do FBI e a proteção da população aos foras-da-lei. De um lado, não é difícil entender a postura da população: Bonnie e Clyde assaltavam e matavam, no auge da depressão norte-americana, os poderes estabelecidos e seus representantes - os bancos, o governo, a polícia – representantes de um sistema falido e opressor. Para que haja uma identificação com os objetivos dos personagens é preciso primeiro que se acredite em suas causas, e por isso o diretor opta por nunca mostrar os rostos do casal: acompanhando a história com os agentes, apenas vemos de longe a trilha de violência. Sem jamais visitar o outro lado da história, e acompanhando a narrativa junto de Hammer e Maney, essa desconstrução é necessária e a criação do antagonismo essencial para a própria narrativa.

É interessante também como o próprio Hammer, personagem de Costner, cresce aos olhos do espectador aos poucos, assim como o aparentemente ultrapassado Maney se revela pouco a pouco, culminando em uma sequência em um banheiro, que, justamente por não nos dar a saber do seu potencial - e só termos visto o quanto os dois estão ultrapassados em suas habilidades - consegue construir certa tensão. Há cenas muito boas e reveladoras a partir da interação entre os personagens, mas preste atenção em uma cena conversa de Hammer com o pai de Clyde Barrow, quando se estabelece definitivamente um paralelo entre caçador e presa. O ocaso tanto transforma Clyde em um bandido como transforma Hammer em um policial.  O que torna o personagem tão instigante é que, aos poucos, descobrimos que tanto a aptidão como o ocaso tornaram Hammer um assassino ainda mais cruel do que Barrow. O filme, no entanto, tem certa irregularidade, ganhando muita força a partir do momento se isola com seus dois personagens e abandona outras sub-tramas que tentam trazer certo humor, mas não ajudam na narrativa. Fica melhor quando se concentra nos protagonistas e permite que a fotografia afunde cada vez mais os personagens, principalmente o de Kevin Costner, em sombras que revelam sua natureza, culminando em um choque quando finalmente vemos os rostos dos bandidos e a sensação  é de incredulidade, diante de expressões aparentemente inocentes e infantis: Hancock entrega, nesse clímax e na adoração do povo aos corpos dos bandidos, pouco depois, uma reflexão sobre a banalização da  violência e o culto à transgressão. É nesse tratamento que “Estrada sem lei” cresce, mais do que nos  momentos de leve humor, tornando-se uma obra ainda mais robusta em sua melancolia e seus válidos questionamentos quanto à natureza da violência, de sua glamourização pela imprensa e mitificação pela sociedade. 

Gostou? Compartilhe