OPINIÃO

Economia: uma projeção para 2020

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 A economia brasileira acelerou o crescimento no terceiro trimestre, surpreendendo a maioria das previsões, inclusive as da Dimac/Ipea. O consumo das famílias foi o principal determinante dessa aceleração, enquanto o investimento manteve ritmo firme de expansão. Os dados mais recentes da atividade econômica, de outubro, indicam continuidade do crescimento no último trimestre do ano, embora estimativas para novembro mostrem algum recuo na indústria – muito influenciada pela queda na produção do setor automobilístico. A previsão da Dimac/Ipea é de que o crescimento no 4º trimestre seja de 0,4% ante o trimestre anterior e de 1,5% ante o 4º trimestre de 2018. Com isso, o crescimento do PIB neste ano será de 1,1%. 

As projeções da Dimac/Ipea para 2020 indicam aceleração do crescimento do PIB, para 2,3%. Pelo lado da oferta, todos os setores terão aumento em sua taxa de crescimento, com destaque para a agropecuária, que deve crescer 3,8%. Pelo lado da demanda, prevê-se forte aceleração do investimento e do consumo das famílias, enquanto as exportações líquidas novamente absorverão esse aumento da demanda doméstica, a exemplo do aconteceu em 2019. A inflação prevista para 2019 é 3,7% e a de 2020, 3,8%.

O choque do preço das carnes tende a se dissipar, e a inflação de alimentos cairia de 4,2% em 2019 para 3,1% em 2020. Nos dois anos, a variação de preços monitorados será superior à média: 5,7% em 2019 e 5,5% em 2020. A inflação dentro da meta reflete, entre outros fatores, a existência de recursos ociosos na economia, permitindo uma aceleração do crescimento sem pressões inflacionárias. A estimativa para o hiato do produto é de que ele termine 2019 em 2,8%, caindo para 2,0% ao final de 2020 – o que indica que ainda haveria ociosidade mesmo com a aceleração do crescimento.

O desempenho recente tem refletido diversos fatores: um ambiente externo menos adverso que no início do ano; uma recuperação gradual do mercado de trabalho, com expansão da ocupação e aumento da taxa de participação – o que acaba se traduzindo em queda relativamente lenta da taxa de desemprego; e, expansão do crédito para as famílias e empresas bem como do financiamento via mercado de capitais. A inflação sob controle, apesar dos recentes choques derivados do aumento do preço das carnes e da desvalorização cambial, e o hiato do produto ainda elevado (2,7% no terceiro trimestre deste ano) permitiram uma redução inédita da taxa de juros, cujos efeitos sobre a demanda agregada ainda estão por se materializar plenamente.

Como pano de fundo para essa evolução dos juros tem-se a aprovação da reforma da Previdência, o esforço para manter as despesas no limite do teto e a obtenção de um deficit primário em 2019 muito inferior à meta. Além disso, o encaminhamento de outras reformas constitucionais visando um maior controle das despesas obrigatórias, especialmente de gastos com pessoal, também afeta positivamente as expectativas em relação à trajetória da relação dívida-PIB. Vale destacar a estimativa do componente idiossincrático do risco-país (indicador Ipea de risco do Brasil), que caiu de -54,4 pontos em meados de novembro para -69,2 pontos na segunda semana de dezembro.

O processo de recuperação da economia brasileira ganhou fôlego no período recente. Diversos fatores podem ser apontados como responsáveis pela aceleração observada. O cenário internacional, apesar de ainda muito volátil, melhorou em relação às condições que prevaleciam no final do ano passado e início deste ano. Naquele momento, havia uma combinação perversa de expectativas de recessão com a sinalização, pelo Federal Reserve (Fed), de normalização das condições monetárias nos Estados Unidos, o que implicaria continuar a aumentar os juros e desfazer parte da expansão quantitativa dos anos anteriores. As tensões comerciais eram elevadas, assim como os riscos geopolíticos (Brexit, indefinições políticas na Itália, crise com o Irã, entre outros).

Os mercados acionários globais, assim como os de ativos de risco em geral, incluindo os mercados emergentes, refletiam essa incerteza, afetando os preços e spreads de risco. A Bolsa de Nova Iorque chegou a cair 16,5% entre o início de novembro e a penúltima semana de dezembro de 2018.

 

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