100 anos de Bergman

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No próximo final de semana, dia 14 de julho, cinéfilos do mundo inteiro estarão relembrando a carreira de Ingmar Bergman, um dos maiores diretores da história do cinema. Bergman estaria completando 100 anos (nasceu em 1918). O diretor sueco é um extra-classe por diferentes motivos. A começar pelo fato de que, ainda que o cinema se anuncie como seu território máximo de expressão, foi um emanador de saberes que transitou entre as telas do cinema, o teatro (escreveu dezenas de peças), a tela pequena da TV (para onde filmou depois sua última obra para o cinema, em 1982) e as páginas dos livros, já que também assina dezenas de obras. É, portanto, um personagem que parece pertencer a outra realidade em comparação com os realizadores de hoje.

A distância de Bergman para o público de hoje vai, porém, além de suas qualidades e de sua produção cultural ampla. Os filmes de Bergman parecem cada vez mais distante do que a geração Avengers parece aceitar consumir – até porque, para o consumo, é preciso antes sentir do que refletir, e o ritmo para um tempo em que é normal fazer muitas coisas ao mesmo tempo precisa ser incessante. Bergman foi o diretor que mais profundamente explorou a alma humana e suas contradições, seja em dramas ou em comédias, que ele, inesperadamente, descobriu ter vocação para filmar, mas nunca de forma gratuita: até nelas havia algo nas entrelinhas que justificasse os habituais 90 minutos de dedicação que seus filmes pediam.

Comecei, há uma semana, uma maratona em homenagem ao autor, vendo pela primeira vez obras que não conhecia e revendo outras que já havia visto. Ao visitar a carreira do diretor, é possível perceber como os temas vão se formando,  as abordagens vão amadurecendo e o artista vai  tomando forma. Em seus primeiros filmes, no final dos anos 40, Bergman era profundamente influenciado pelo neo-realismo italiano, as chagas do pós-guerra refletidas no ambiente e, sobretudo, na condição humana. Personagens desprezados pela sociedade, sobreviventes enfrentando o pior do homem e de sua classe. Seus filmes, até o ano de 1950, alternam esses temas ao mesmo tempo que alternava-se a recepção dos estúdios, público e crítica ao seu trabalho. É a partir de 1950 que inicia uma nova fase, deixando para trás o tom pessimista para investir nas relações humanas, principalmente a partir do seu olhar sobre os relacionamentos jovens nos chamados “filmes de verão”. Inevitavelmente, teremos personagens que olham para seus passados de forma nostálgica, e haverá o contraponto  entre o campo, idílico e feliz, e a cidade, claustrofóbica e triste.  Filmes como “Juventude” (1950) e “Mônica e o Desejo” (1953) fazem  parte dessa fase.

Junto com  ela, Bergman vai desenvolver um olhar carinhoso à alma feminina. Como poucos, ele soube dar voz às aspirações, aos desejos reprimidos e aos segredos da alma feminina, através de personagens fortes manifestando-se em um tempo absurdamente masculino. “Quando as mulheres esperam” (1951) e “Sonhos de Mulheres” (1955) representam o início dessa característica tão marcante de Bergman, que seguirá presente em muitos de seus filmes nos 20 anos posteriores.

Além da juventude, dos relacionamentos amorosos e da alma feminina, outro tema caro ao diretor surge também com força nessas primeira década de carreira: a religião, e todas as constestações que podem surgir vindas de um homem educado a partir do olhar severo de um pai extremamente rígido, luterano fervoroso. Bergman exprime em sua carreira, normalmente, dualidades. A fé cega e a contestação, o paganismo e a religiosidade extrema, o amor e a punição, a devoção a Deus e a raiva a ele. Seus dramas medievais são os que com maior força trazem esses temas. “O Sétimo Selo”, um filme que é irônico, crítico e até cômico,  é lembrado pela imagem icônica do cavaleiro que volta das cruzadas e joga xadrez com a morte. É uma ideia que resume a contestação sempre presente à Deus, ao sentido da vida e ao comportamento dos homens – essa contestação assume ares ligeiramente diferentes, mas igualmente críticos, em outra obra-prima, “A Fonte da Donzela”, de 1960, em um tempo em que se percebem influências de Kurosawa, um cineasta cuja obra ele conheceu nos anos 50.  É o filme que marca o fim de uma nova etapa da carreira do diretor – antes, uma de suas obras-primas, “Morangos Silvestres” já reservava um olhar maravilhoso em sua forma e conteúdo ao ato de envelhecer e entender a construção do seu próprio “eu”. Depois de “A Fonte da Donzela”, Bergman dará início á sua famosa trilogia do silêncio e assinará nos anos 70 obras impactantes sobre relacionamentos. Sobre isso, a gente fala no próximo final de semana... 

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