Andanças de Beth

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Em meados de 1960, um grupo de músicos de Bairro Santa Tereza de BH não tinha grana para ir a clubes de gente endinheirada. Disseram: nosso clube é aqui mesmo, na esquina. Então, Milton, os irmãos Lô e Marcio Borges, Tavito, Wagner Tiso, Toninho Horta, Flavio Venturini, Beto Guedes, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Nelson Angelo e Robertinho Silva estabeleceram, ao acaso, uma inovação cultural – O Clube da Esquina. Viria a compor o imenso mosaico da nova música do Brasil; o baião, a marcha rancho, os boleros, o uso intensivo do acordeão, os cantores de voz possante e as cantoras estridentes davam vazão ao novo, Agora, a Bossa Nova, uma maneira inusitada de tocar violão de um jeito e cantar de outro. A paixão pela magia de João Gilberto (conhecido na época como Zé Maconha), a tal ponto de os futuros famosos Roberto Carlos e Caetano iniciarem suas carreiras tentando imitá-lo. A ele acompanharam Marcos e Paulo Sergio Valle, Roberto Menescal, Carlos Lira, Edu Lobo, Tom...). A Tropicália dos baianos (Gil, Caetano...) e a mágica baiana da Cor do Som, o rock estonteante dos Mutantes. Tinha um grupo que descia do Nordeste era composto por Fausto Nilo, Zé Ramalho, Raymundo Fagner, Teca e Ricardo e, na minha opinião, o melhor de todos, cearense de Sobral, Antonio Carlos Belchior. Era o Brasil campeão do futebol, do Cinema Novo. Em SP o rock aprofundado, como em Porto Alegre, Curitiba e Brasília – cidades sem praias; no Rio, o fenômeno Blitz, o grupo do Alagoano Herbert Viana (Paralamas)com rock de bermudas, tipo Luau. 

 

Apesar da efervescência dos novos movimentos o nosso samba resistia e ainda nos anos sessenta surgia Martinho, Paulinho da Viola, Clara Nunes, Jair Rodrigues (carinhosamente chamado de Cachorrão), Elis e Beth Carvalho. Beth vinha a continuar a beleza das vozes de Doris Monteiro, Eliseth Cardoso, Elza Soares. Beth teve a percepção de acompanhar grandes compositores e gravar sucessos retumbantes. Andança, por exemplo, acompanhada do vocal dos Golden Boys, marca registrada de sua carreira. Inigualável. Mas, acrescentaria Meu Homem (música e letra de Martinho), homenagem prestada, na imaginação do artista, de Winnie para Nelson Mandela. Difícil ouvi-la sem dar vontade de chorar... ”será quando que meus sonhos, meu homem, serão só doces sonhar???”


A velha guarda agora está se reunido em outro lugar. E nesse outro lugar há uma plateia seletiva a tietar. Minha mãe está lá no gargarejo e é homenagem a ela e a todas as mães que reitero mensagens de reconhecimento a artistas absolutamente insubstituíveis. Em inúmeros momentos da vida de todos, ricos ou pobres, felizes ou infelizes, jovens ou nem tanto, os artistas apresentam um verniz democrático da vontade de sacolejar, rir ou chorar, de lembrar de amores que se foram ou contemplar o novo amor. O artista faz o pensamento voar e como a gente voa quando o pensamento voa e remete todos a um patamar de uma vida que pode não ser, mas que poderia ter sido. Quando morre fisicamente um artista morre emocionalmente uma legião de admiradores.


Obrigado Beth, você não foi, continuamos a ouvi-la e a segurar lágrimas. Continuamos também a sacolejar, a repetir refrões, a agradecer a presença de Zeca Pagodinho em Xerem, a eternizar momentos de luz. Obrigado mãe, dê um abraço na Beth em nome de seus milhões de admiradores.

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