Brincadeira de mau gosto

Morador de rua foi desafiado por jovens a entrar em casinha de cachorro instalada na praça da Vera Cruz

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Morador de rua disse ter sido desafiado pelos jovens, mas não sabia que estava sendo fotografado

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A imagem de um homem com parte do corpo dentro de uma casinha de cachorro, como  estivesse dormindo no local, que circulou pelas redes sociais durante a quinta-feira, e fez com que uma pessoa providenciasse uma casa maior para ele, no  mesmo local, não passou de uma 'brincadeira de mau gosto'. A cena, registrada com uso de um telefone celular, aconteceu no início da gélida noite de quarta-feira, na praça da vila Vera Cruz.

Quem esclareceu a história foi o próprio protagonista. Um homem de 45 anos, sendo os últimos sete deles vividos como morador de rua. Figura conhecida da vizinhança e dos  frequentadores da praça, ele disse que a ideia de entrar em uma das três casinhas instaladas no local, partiu de um grupo de jovens. "A gurizada começou a  me provocar,  duvidar; dizendo  que eu não entrava; que não tinha coragem. Aí resolvi mostrar para eles. Fiquei um tempinho lá dentro,  só não vi que estavam filmando", revelou.

 

A imagem do morador de rua, com a cabeça e parte do tórax dentro da casinha,  não ficou restrita aos debates nas redes sociais. Sensibilizada, uma mulher, que ajuda a cuidar dos cães da praça, no dia seguinte providenciou uma casa de madeira maior, medindo cerca de 1,40 metro de altura. A instalação ocorreu  no final da tarde de quinta-feira, ao lado dos outros três  abrigos dos cães.

"Ela chegou e disse que a casa era minha, que era para eu me virar com ela. Entrei, tinha até uma tranca na porta. Uma maravilha", revela. Após passar a primeira noite no novo abrigo, o morador de rua foi surpreendido na manhã de ontem. Funcionários da secretaria de Serviços Gerais da prefeitura foram até a praça e fizeram a remoção da casinha.  Houve protestos por parte de alguns populares, que tentaram impedir a ação, gravada em vídeo e divulgada nas redes sociais.

O secretário da Cidadania e Assistência Social, Wilson Lill, disse que ainda na quinta-feira, funcionários estiveram no local  praça e tentaram, sem sucesso,  convencer o  morador de rua a ir para a unidade de acolhimento (antigo albergue). Segundo Lill, a legislação não permite instalação de casas para habitação humana em espaços públicos, como as praças.

"As pessoas adotam determinados gestos de coração, preocupadas em ajudar ao próximo. Entretanto,  essa proteção acaba fixando o morador de rua no local e dificultando a adesão dele nas políticas públicas oferecidas pelo município", afirma.

De acordo com o secretário, o morador da praça da Vera Cruz já havia sido contatado várias vezes pelo serviço especializado de abordagem, mas sempre optou em permanecer na rua. Na manhã de ontem, ele mudou de ideia e resolver aceitar o convite.

Enquanto apanhava um pouco de sol, sentado em um banco, em frente a unidade de acolhimento, o homem, disse ser natural do muncípio gaúcho de Condor. Há 13 anos em Passo Fundo, é pai de dois filhos, um menino de 14 anos, e uma menina, de 16. Uma desavença com a esposa, há sete anos, o levou para as ruas. Neste período, escolheu a praça da Vera Cruz como moradia.

Frequentadores assíduos de um quiosque existente no local, conhecem a rotina dele e o definem como uma pessoa querida por todos. "Os cachorros estão perdidos com a ausência dele. Tem muito carinho pelos bichos, ajuda a cuidar.  Conheço ele há 12 anos. É uma pessoa que não faz mal para ninguém. Costuma dormir ali na área do posto policial ou então aqui, no abrigo do quiosque", diz Gelson Rodrigues, funcionário do estabelecimento.

Unidade lotada

A expectativa da secretaria de Assistência Social, é de que o morador da praça permaneça na unidade de acolhimento por mais um período para ser avaliado, e, se necessário, internado para tratamento contra o alcolismo.

Com a queda da temperatura nas últimas semanas, a unidade está superlotada. A estrutura oferece 20 vagas para homens e 10 vagas para mulheres, além de banho e três refeições. Segundo o coordenador da unidade, Eduardo Mello Camargo, a média de permanência das pessoas é de 15 a 20 dias. "A permanêcia é uma decisão de cada um. São livres para escolher. Já conseguimos tirar das ruas e reencaminhar na sociedade,  11 pessoas de Passo Fundo e outras 19 de outras cidades. Parece pouco, mas é um número significativo", disse Lill. 

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