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Não é difícil, hoje, produzir conteúdo. Se há alguns anos ter um blog era o ápice do processo de produção de conteúdo, hoje dificilmente alguém opta pela escrita: o vídeo é mais direto, atrai mais interesse, é menos trabalhoso para consumir, e qualquer um com um bom celular pode fazer. Grande parte da audiência de canais no YouTube é composta por gente jovem, para quem infelizmente é sempre melhor assistir à opinião de alguém sobre algo do que ler essa mesma opinião. O problema é que a facilidade em produzir conteúdo em vídeo diminui, de certa forma, a noção de responsabilidade sobre esse conteúdo.

Boa parte de quem decide criar um canal no YouTube escolhe falar de cinema, séries, games ou música. O motivo é simples: são mídias fáceis de consumir, o que faz com que todo mundo ache que entende muito sobre elas. Como muitos deles dizem, que basta ver muitos filmes para poder falar sobre filmes. E aí surgem as bobagens. A velha frase: uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.

Meu interesse são os canais sobre cinema. Acompanho muitos, a maioria de fora do Brasil produzindo vídeo-ensaios. Aqui no Brasil, muito poucos, porque a maioria é composta de gente que replica as mesmas informações, mas pouco se aprofunda na área da qual falam, e muitos, inclusive, optam pelo humor e efeitos engraçadinhos nos vídeos para conquistar um público que está mais interessado na cobertura doce do que no recheio do bolo.

 O correto seria que comunicadores dotados do poder de atingir tanta gente tivessem um compromisso com esse público, mas o problema é que o nível dos seguidores se nivela ao dos próprios youtubers. E no processo, além das famigeradas Fake News, surge a disseminação de conhecimentos errados. Se de um lado as notícias falsas impregnam a rede, de outro a informação enciclopédica começa a se perder. A internet é uma bênção e uma praga.

Na semana que passou a comunidade de críticos e profissionais de cinema reverberou um vídeo conjunto feito por dois youtubers. Nenhum dos dois com formação na área, mas ambos se dizendo críticos de cinema. Empolgados, eles cunharam um novo termo para a série de bons filmes de terror que têm surgido nos últimos anos, o “meta-terror”. Identificam como “novidades” o grande número de temas adjacentes ao terror, ao fato de o filme não querer dar sustos, aos temas sociais abordados, a questões técnicas envolvendo o som, ao fato de serem dirigidos por jovens talentosos. Se mostraram realmente empolgados pelas suas “descobertas”.

O problema é que as “novidades” detectadas pelos dois existem desde os anos 30. Passaram e foram desenvolvidas por diretores como Tourneur, Lang, Carpenter, Polanski, Craven, Bava, Mizoguchi. Vem se repetindo nos anos 50, 70, 90. Tudo o que eles apontam como revolucionário vem se repetindo ciclicamente no gênero desde o começo do cinema. Está longe de ser uma novidade, mas eles, que pouco conhecem da história, do passado do cinema, ou que se formam vendo filmes dos anos 2000 em diante, não conseguiram perceber isso.

O problema, que o vídeo deixou claro, é o lapso de conhecimento de uma geração de produtores de conteúdo que tem acesso aos meios, mas cuja formação se dá em cima de uma parcela muito pequena do conhecimento. Gente que busca informação na internet, mas não se debruça sobre livros, que não assiste outros cinemas, que não renova suas preferências, e que inacreditavelmente acha que, mesmo com tão pouca bagagem, podem ser referências. E o pior, hoje, é que eles, realmente, se tornam referências, tanto quanto para muitos Netflix é referência em cinema. 

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O novo Vingadores é tema para a semana que vem!!

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