Darwin e o homem de Platão

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Quanto mais nos afastamos de Deus, especificamente do livro do Gênesis, 1:26 -Façamos o homem à nossa imagem e semelhança -, tanto mais nos aproximamos de Darwin e dos outros seres naturais. Isso significa tão somente a busca pela nossa origem e o que temos em comum com os outros animais. Não se trata de reviver o confronto entre uma origem divina ou uma origem zoológica para o homem. Quem sabe, encontrar, na teoria de Darwin, os possíveis vínculos entre evolução biológica e evolução cultural.


Queiramos ou não, fazemos parte dos seres naturais. Vivificamos o egoísmo como ação natural, sempre que colocamos em primeiro lugar o interesse próprio, e, em essência, não passamos de uma manifesta expressão do egoísmo dos genes. O que nos diferencia das demais criaturas naturais é a noção de liberdade. É na ação moral, vista como o contrário da ação que não leva em conta o outro, que a humanidade se define; carecendo a moralidade de significado e justificação, quando fora do contexto humano.


É raro um texto se referir à evolução biológica sem mencionar implicações na evolução do homem. Todavia, a presença humana na obra A Origem das Espécies, publicada em 1859, não é tão facilmente perceptível. A famosa frase, “luz será lançada sobre a origem do Ser humano e sua História”, posta no final do livro, talvez indique que Darwin estava convencido de que a seleção natural atuara no ser humano, mas decidiu não dizer explicitamente. Por quê?


Darwin tratou o tema de um ponto de vista teórico. Isso não o impedia de estender suas conclusões a todos os seres vivos, inclusive humanos. Para alguns, quis evitar controvérsias (previsíveis) com a igreja anglicana. Para outros, um dilema pessoal, vivido, na época, pelo grande naturalista britânico, acometido de sérios distúrbios psicológicos (atribuídos, erroneamente, como causados pelo Mal de Chagas) o impediu de fazê-lo.

 

Sobre Charles Waring, filho mais novo de Darwin, morto em 1858, ocasião que ele escrevia sua obra-prima, pairam controvérsias. Uma fotografia, quando ainda bebê, no colo da mãe, Emma, aparenta que ele sofria da síndrome de Down. E, na sociedade vitoriana, um ser “diferente” dos demais era visto como “reversão ao tipo selvagem”. Alguns anos depois, em 1866, em conferência no Hospital de Londres, John Langdon Down, apresentaria relatos de casos de pacientes com características de “reversão mongolóide”. Na época, as raças mongólicas eram tidas como “selvagens”. Enquanto escrevia o capítulo sobre “seleção natural”, há quem diga que mais aumentava a certeza de Darwin de que seu filho era resultado da tal “reversão ao estado selvagem”. Diante desse dramático envolvimento pessoal, presume-se quão difícil teria sido para ele tratar do assunto.

 

No conjunto da obra de Darwin, sobressai-se Descent of Man (1871). Nesse livro ele se refere especificamente ao caso humano, com muitos exemplos. Retomou a visão que já se encontrava definida (implicitamente), quando da elaboração de A Origem das Espécies. Uma obra que se não foi escrita pensando no ser humano, certamente foi lida por quem estava pensando nele.

 

Produzir conhecimento e a habilidade de transmissão eram considerados atributos exclusivamente humanos. Isso caiu por terra quando, em 1971, demonstrou-se que chimpanzés na Tanzânia também eram capazes desse feito. Cultura, inovação e transmissão de conhecimento deixou de ser algo que nos diferenciava dos outros animais e passou a ser algo pertinente a todos os animais sociais.

 

Via processos culturais, manipulamos não só o mundo ao nosso redor, mas também a nossa própria biologia. E isso talvez seja a essência do evolucionismo, que, um dia, possa vir a aproximar a evolução humana e os códigos dos computadores, deixando margem para um futuro surrealista. Platão definiu o homem como o único animal sem penas e que andava sobre dois pés. O grande filósofo teve o dissabor de engolir Diógenes, o cínico, que, aproveitando-se da situação, depenou uma galinha e declarou com alarde: Eis o homem do Platão!

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