Eficiência, Substituição e Redesenho

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Indiscutível o papel da Revolução Verde na elevação da produtividade e da produção agrícola mundial;contribuindo para ofertasem precedentesde alimentosna história da humanidade. Foi primando pela escolha de novas variedades de plantas e raças melhoradas de animais, uso intensivo de fertilizantes químicos e pesticidas industrializados, irrigação e mecanização agrícola; que, indiferente ao crescimento da população mundial, para cada habitante do planeta Terra, a disponibilidade de alimentos, na atualidade, chegou a 1,5 vezes a quantidade que havia no começo dos anos 1960.


Assim,ainda que tenha trazido prosperidade econômica e, pelo lado da oferta, eliminado a fome no mundo (a fome que existe hoje se deve à limitação de acesso aos alimentos por falta de renda ou, se preferirem, pobreza), essaintervenção tecnológica e a intensificaçãona produção agrícola também nos deixou como legado um passivo ambiental de vulto, que, por diversas razões, não pode mais ser ignorado ou, como preferem alguns, simplesmente negado. Por sorte, há solução!


E o caminho que emerge para o mundo continuar produzindo alimentos, fibras, energias renováveis etc., frente à demanda em expansão e um cenário de escassez de terras agricultáveis e de oferta de água, é o mesmo que foi tomado no início da segunda metade do século passado: a intensificação, pela via tecnológica, da produção. O diferencial é que, a essa nova proposta de intensificação, sobrepõe-se o adjetivo sustentável.


A intensificação sustentável, que ora se propõe em agricultura, envolve produzir mais, na mesma área de terra, sem custos adicionais impeditivos e, preferencialmente, não causando danos e, mais do que isso, trazendo ganhos aos bens e serviços ambientais. Esse é o apelo!


A transição da intensificação convencional, em geral praticada pelo uso de mais insumos, para a intensificação sustentável em agricultura, exige que estágios sejam cumpridos. E esses ditos estágios, que não são lineares, podem ser resumidos em três palavras: eficiência, substituição e redesenho.


Eficiência, que implica em fazer melhor uso dos recursos (terra, capital e trabalho) por unidade produzida, não se questiona. Cada vez mais deve ser merecedora de atenção. A substituição de insumos (cultivares/raças, fertilizantes, agrotóxicos, etc.), práticas e processos de produção motivada pela destruição criativa da inovação tecnológica, especialmente quando traz ganhos associados, também não pode ser perdida de vista. Mas, eficiência e substituição apenas, ainda que imprescindíveis, podem não ser suficientes para garantir ganhos em rendimento nos sistemas de produção agrícola e, ao mesmo tempo, trazerem benefícios ao ambiente, especialmente quando se olha para as chamadas externalidades. Mais além dos meros incrementos em ganhos, facultados pela eficiência e substituição, a intensificação sustentável, pode, pelo seu caráter transformativo,que inclui particularidades sociais e institucionais,exigiro redesenho dos sistemas agrícolas produtivos.


Entenda-se que intensificação sustentável em agricultura, da forma que está sendo apresentada, é um conceito aberto. Enfatiza resultados, mais do que meios. Não predetermina uma tecnologia ou tipo de produção. Nem se alvoroça, pelo caráter dinâmico da atividade, a pregar a existência de um sistema único e perfeito que dure para sempre e seja aplicável para todas as situações.
No redesenho dos nossos sistemas agrícolas produtivos,pode ser essencial favorecer processos ecológicos que, uma vez maximizando a biodiversidade e envolvendo ações de predação, parasitismo, alelopatia, fixação biológicade nitrogênio, etc., venham a contribuir para a redução do consumo mundial de pesticidas sintéticos, que anda ao redor de 3,5 bilhões de kg de ingredientes ativos ao ano (Jules Pretty, Science362, nov. 2018. DOI:10.1126/science.eaav0294), evitar o cultivo de mais terras e melhorar o desempenho dos serviços ambientais.

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