Eu vi o menino correndo...

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Neste plantão noturno do Hospital São Vicente duas músicas me vêm à cabeça: Menino do Rio e Força Estranha, ambas do genial músico Caetano. Menino do Rio é sobre Petit (José Artur Machado), sobre o qual escrevi há algumas semanas. Garoto de Ipanema, 1.80 de altura, surfista e praticante de artes marciais, flertava com o mar e com a vida e aos 22 anos mereceu essa música como reconhecimento de Caetano à liberdade de ser. Era o ano de 1980. A fama, as mulheres, a cocaína levaram ao acidente de moto em agosto de 1987 e as sequelas, após 40 dias de coma. Em março de 1989 Petit desistiu da vida e se enforcou com sua faixa de jiu-jitsu. Eu vi o menino correndo...era 1978 e Caetano retribuía ao Rei a composição Debaixo dos caracóis de Seus Cabelos (1972) em homenagem ao baiano exilado em Londres. Neste álbum do Rei constava, além de Força Estranha, Lady Laura, entre outros sucessos que o Rei emendava continuamente.


Há quase trinta anos, como o tempo passa depressa, eu vi o menino correndo...alto atlético, loiro, educado, fino. Tinha sido atleta profissional de voleibol; contava que jogou ou conviveu com os mestres Amauri, Marcelo Negrão, Bernardinho, Jorge Edson, Tande, William, Domingos Maracanã, Bernard, Montanaro, Pampa...atletas que conhecíamos pela TV. Parecia mágica, eu que na memória desses esportes de quadra lembrava do basquetebol de Ubiratã, Carioquinha, Marcel, Marcelo Vido, Gerson, Ary Vidal... e, ali, através do amigo convivia de alguma maneira com os astros desportivos; e sabia de algumas de suas intimidades. E era bacana ouvi-lo falar da vida e das quadras. Agora, não mais atleta, era médico residente da cirurgia geral e nós, de alguma forma, éramos seus novos ídolos.

Doutor Hélio Renan e eu vimos o menino correndo nos plantões, nas cirurgias que partilhamos, nos churrascos, nas cervejadas...ele fazia sucesso, ele fará sucesso, todos diziam. E assim foi no São Vicente, Cesar Santos, UPF, Unimed...Era um garoto, era um menino, tinha saúde, tinha gás...tinha tudo.


Certo dia, por motivos alheios ao meu conhecimento, forças estranhas foram se avolumando e o menino começou a soçobrar. Perdeu o viço, perdeu a luminosidade do olhar, enfraqueceu sua aura. Era um set perdido, um atrás do outro; a reação não vinha e não veio. E foi paulatinamente deteriorando e ficando avesso a quase tudo; para seus colegas sempre pareceu menino. Sua partida aos 57 anos, trouxe desalento poucas vezes visto no círculo de homens cascudos acostumados à vida e morte, que são os médicos seus colegas. Um dia, há muito tempo, ele desistiu da vida e nesta semana a vida desistiu dele. Era um menino...sim...e eu juro prá vocês...eu vi o menino correndo...correndo...correndo guiado por uma extraordinária força estranha...prá Deus...para a paz. Viverá em nossas memórias sempre na plenitude de sua energia...e por ela e por tudo o mais que ficou dito, vivido e nas entrelinhas, o que consigo escrever com os olhos marejados, tal qual o da maioria dos que conviveram contigo é...obrigado por tudo, Doutor Pitágoras.

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