Há sempre um livro à sua espreita

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George Steiner, no instigante ensaio “Aqueles que queimam livros”, baseado na fala que deu na Feira do Livro de Turim, em 10 de maio de 2000, foi taxativo na afirmação: “aqueles que queimam livros, que banem e matam poetas, sabem exatamente o que fazem.” E sabem o que fazem porque são conscientes do poder imprevisível de transformação que um texto bem escrito pode ter sobre um leitor. Entre os “queimadores de livros”; ou censores, se preferirem, estão, em geral, os fundamentalistas mais aguerridos, que, em dados momentos da história, não hesitam sequer em propor que sejam “queimadas” as constituições nacionais legitimamente aprovadas. A censura – “a fogueira dos livros/textos” – é tão antiga e onipresente quanto a própria escrita. Nada está imune a essa sanha avassaladora que tenta, a qualquer custo, banir aquilo que não concorda e pode, potencialmente, abalar o status quo vigente.


Ainda que a oralidade no mundo seja a tônica e a escrita, por mais incrível que possa parecer, a exceção; é sobre essa que, geralmente, recai a ira dos “queimadores de livros”. São sabedores que é do encontro “livro” e “leitor”, em um processo dialético de reciprocidade, que, potencialmente, pode surgir algo maior do que o “livro” ou o “leitor” individualmente. Ninguém ignora que, para o bem ou para o mal, ao mesmo tempo em que lemos um livro também esse livro “nos lê”. E, nesse caso, pode ser mais simples “queimar o livro” do que “incinerar” o leitor.


Não raro, o encontro entre “livro” e “leitor”, a exemplo do que aconteceu com o homem ou com a mulher que mudou a sua vida, dá-se casualmente. Esse livro que tem a capacidade de converter a nossa fé, que nos faz aderir a uma ideologia ou que dá um sentido à nossa existência pode estar à nossa espreita naquele balaio de saldos da feira do livro. Ou, talvez, seja aquele livro coberto de poeira, no fundo da estante da obra que você buscava numa livraria qualquer. Ou aquele que encontrou, casualmente, numa busca pela Internet. Não hesite em pegar e abrir esse livro, se porventura a sonoridade do titulo ou o nome do autor despertarem a sua atenção. Nunca se sabe o que pode acontecer nesse inusitado encontro “livro” e “leitor”. Os livros são a chave de acesso para nos tornarmos melhores (a regra) ou, eis a justificativa usada pelos “queimadores de livros”, piores (a exceção) do que somos.


Um livro, nesse processo dialético de leitura, pode suscitar reações diferentes, dependendo do momento da vida de cada leitor. Esses textos que estamos nos referindo podem ser tanto da lavra dos legítimos pensadores clássicos quanto não passarem de banalidades expressas em best-sellers de vida efêmera. Não sejamos preconceituosos em relação aos best-sellers! Não abra mão do prazer da descoberta que uma obra desconhecida pode lhe proporcionar. Essa obra seminal na sua vida pode ter estado ali à sua espreita por muitos anos. Esperando, sem pressa, para ser lida por você. Ei mais uma razão porque não se justifica “queimar livros”, pois, graças a esse tipo de espera (e posterior descoberta), muitas das ditas “grandes obras” devem a sobrevivência e o reconhecimento que por ora gozam.


O ato clássico da leitura requer silêncio, concentração, intimidade com o texto, certa cultura literária e, para o domínio pleno do conteúdo, consultas frequentes a obras de referência, dicionários, etc. Em tempos de pessoas apressadas, quem se dispõe a ser esse leitor? Felizmente, apesar da conectividade digital dos tempos atuais, esse tipo de leitor sobrevive e, diferente do que muitos imaginam, em especial entre os jovens. O legado deixado pelas Jornadinhas de Literatura – Viva a Professora Tania Rösing e equipe UPF! – está materializado em um publico de jovens leitores (com vocação para a escrita) que Passo Fundo nunca teve na sua história. Duvida? Olhe à sua volta. Converse com pais de adolescentes e com o pessoal das livrarias locais, antes de tirar qualquer conclusão apressada. Não é uma guerra de gerações, mas as mais jovens são mais leitoras do que a minha e a sua, prezado leitor!

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