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Sobre a morte de Primo Levi (1919-1987), químico e escritor italiano de origem judaica, sobram controvérsias e faltam materialidades. De um lado os que alegam ter sido acidental a queda no vão da escada do prédio de três andares em Turim, onde ele morava coma família, que lhe tirou a vida, naquele fatídico 11 de abril de 1987. No outro extremo, os que insistem na tese de suicídio. Dizem os primeiros, alguém com o conhecimento avançado em química que Primo Levi detinha, com certeza, usaria outro meio para tirar a própria vida e não meramente se jogaria no vão de uma escada; atribuindo a queda ao efeito dos remédios que o escritor tomava na época. E, alegam os defensores da tese de suicídio, que um homem deprimido, rememorando os horrores vividos em Auschwitz e assolado por um câncer de próstata, segundo relatos de pessoas próximas dele, não hesitaria em dar cabo da própria vida, que havia se tornado pesada em demasia. Não importa com quem esteja a verdade desse desfecho trágico. O incontroverso é que Primo Levi, como escritor, deixou obras que lhe asseguram um lugar de honra no panteão dos grandes nomes da literatura universal.
Obras como “Se questo è un uomo” (Se isto é um homem ou É isto um homem?, dependendo o título da versão em português que se queira usar como referência), escrita em 1947, fizeram de Primo Levi um dos principais memorialistas das atrocidades cometidas pelos nazistas. Esse livro, especificamente, que obteve sucesso e reconhecimento de mérito tardio, foi construído a partir da experiência vivida por ele como prisioneiro em Auschwitz, entre fevereiro de 1944 e janeiro de 1945. Primo Levi foi um dos raros sobreviventes no grupo de judeus italianos enviados pelo governo fascista de Mussolini a Auschwitz e passaria o resto da sua vida dando testemunhos sobre os horrores do holocausto. E “Os afogados e os sobreviventes”, o último livro de Primo Levi, publicado em 1986, em que ele retomou a temática que mais o angustiava: a lembrança do terror nazista e a possibilidade, e isso ele nunca descartou, que pudesse acontecer tudo novamente.
A obra sui generis de Primo Levi é “A Tabela Periódica”, uma combinação de autobiografia e química, publicada em 1975. Nesse livro, em que cada um dos 21 capítulos é intitulado pelo nome de um elemento químico, Primo Levi, que tinha doutorado em química e trabalhou profissionalmente na área, usou uma linguagem poética recheada de metáforas para construir a historia de um átomo de Carbono, contada no capitulo 21, que, apesar de sabidamente fictícia, descreveu magistralmente o ciclo biogeoquímico desse elemento na natureza. Ilustrou, nesse capitulo, um passagem de 200 anos de um átomo de Carbono, que desde liberado pela queima de um pedaço de carvão arrancado a picaretadas de uma mina próxima à superfície do solo, por volta de 1840, circulou oito anos na atmosfera até ser fixado pelo processo de fotossíntese em uma folha de videira, tempos depois retornando à atmosfera e novamente sendo fixado no tronco de um carvalho, com passagem pela estrutura orgânica de um inseto broca, e, como desfecho, tendo retornado, pela terceira vez, para a atmosfera.
A obra “A Tabela Periódica”, de Primo Levi, foi escolhida, em evento patrocinado pela Royal Institution of Great Britain, em 2006, como o melhor livro escrito sobre ciência em todos os tempos. E o inusitado é que não se trata especificamente de um livro sobre ciência, a exemplo de alguns correntes de peso que teve de enfrentar: “A Viagem do Beagle”, de Charles Darwin, “The Double Helix”, de James Watson, e “O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins.
Então, não foi sem razão que na antologia “The Oxford Book of Modern Science Writings”, organizada por Richard Dawkins como corolário da sua carreira de professor da cátedra de Compreensão Pública da Ciência, que ocupou na Universidade Oxford, entre as obras reverenciadas podemos encontrar um excerto do capitulo 21 do livro “A Tabela Periódica”, de Primo Levi.

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