Jorge 62

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Estava passeando pela internet e li que Fausto Silva esteve de aniversário completando 69 e eu pensei: orra, meu!!! É brincadeira!!! 69, não sabia que tinha tanto assim. Até que me dei conta que tenho 62. Faustão, que conheci pelo rádio no Perdidos na Noite, época em que brilhava também o talento de Big Boy “hello, crazy people”, mesma época em que aquela garota de branco vinha caminhando lentamente na areia da praia, “vem aí, Atlântida FM”. Tudo novo, época em que meu colega de ginásio Bibo Nunes conseguia uns videoclipes para as reuniões dançantes dos clubes cruz-altenses e a gente alternava dançar com as gatinhas e assistir aos clipes.


De qualquer maneira, 62 anos, dia 05 maio, não pensei que merecesse tanta confiança do Criador. Às vezes, imagino a vida com a duração de um jogo de futebol. Quanto precisaria de um jogador pra mostrar a que veio? 10, 20, 50, 90 minutos? Pois ganhei 62 anos, 22630 dias e noites, nem sei quantos mais terei. E a gente faz inconscientemente um balanço do desempenho. Afinal, qual o objetivo de minha passagem? No que contribuí? O que falta fazer? Quantos minutos ainda tenho para corresponder?


A autoanálise deve evitar a tendência da abdução emocional, ou seja, a autopaixão, a contemplação narcisística, o apego a própria figura. Ninguém conhece a ti como tu mesmo, conheço-me como ninguém. Há coisas, algumas, que me envaidecem e outras que me envergonham. Sou o que sou pelo somatório de genética, biologia e biografia. Na biografia há o histórico de pequenas vitórias e derrotas, há o congraçamento dos relacionamentos, há o eterno aprendizado pelas histórias dos outros. Há escolhas que implicam renúncias. O eu que sou agora abandonou outros eus que queria ser. Há o Jorge engenheiro florestal, aquele que queria salvar o planeta; há o garoto que queria jogar ao lado de Pelé na Vila Famosa, há o que queria ser músico, filósofo, ator de teatro e o que queria simplesmente andar por aí com uma calça jeans azul e desbotada, sem lenço, sem relógio, sem aliança e sem documentos. Gosto de todos eles e em alguns momentos procuro-os para indagar se são felizes, eles que certamente habitam estradas paralelas, eles que foram abandonados pelo que escolhi ser. Há os eus que casaram com todas as mulheres pelas quais se apaixonou e que mora definitivamente em todas as cidades por onde andou; ah, esse Jorge tão simples e tão complexo e tão cheio de dúvidas e defeitos, muitos dos quais escondidos até de si mesmo. Ah, o Jorge enigmático, meio viajandão, perdido e encontrado em si mesmo, fraco e forte, otimista e melancólico, bipartido e...exatamente igual a vocês.


Essa crônica de mim mesmo, análise inacabada sobre minha trajetória, tem uma intenção, somente uma: agradecimento!!! Agradecimento a ti que me lê, a ti que me ouve no rádio e no centro espírita, a ti que confia na minha pessoa e nos meus serviços profissionais. Agradecimento a ti que não gosta de mim, que me critica, que me acha evasivo, que não gosta de minhas aulas, que não gosta de saber que voltei em Jair Bolsonaro. Agradecimento a ti que entrou e saiu de minha vida e aos que entraram e permanecerão pela eternidade que são os das famílias Salles Anunciação e Quadros Martins. Agradecimento aos amigos que confidenciam vivências e agradecimento ao Pai maior que me permitiu chegar a essa idade. Poderia morrer agora porque já tive tudo. É possível, porém que receba a graça de perceber meus filhos encaminhados. Se assim for quero ter a oportunidade de dizer: estou pronto. Valeu.

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