Madeireiros e construtores, pelos pincéis de Klenia Sanchez

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Entre o final dos anos 1980 e começo dos anos 2000, quem passasse pela Travessa Wolmar Salton, não tinha como deixar de reparar na beleza de um painel afixado na parte frontal do prédio de número 35 daquela pequena via que liga a Rua 15 de Novembro com a Rua Teixeira Soares, em Passo Fundo, RS. O prédio é o edifício Irma Helena, nome dado em homenagem à matriarca do clã Salton local e esposa do político e empresário passo-fundense Wolmar Salton, e o mural era uma obra da artista plástica Maria Klenia Nunes Sanchez. Digo era, pois, no começo dos anos 2000 (entre 2003 e 2005, provavelmente), por ocasião de uma reforma do edifício Irma Helena, os condôminos optaram por cobrir o aludido painel, que ocultava o quadro de força do prédio, com uma espessa camada de tinta. Eis que uma decisão simples e legitimada pela convenção do condomínio, uma vez que tomada por quem de direito, ditava a sentença de morte de uma obra de arte. Houve quem tivesse lamentado e quem nunca se apercebeu do acontecido.


A obra de Klenia Sanchez era um retrato da saga da família Salton, madeireiros e construtores por origem, expresso pelo traço de uma artista singular. Os elementos do mural realçavam a fase que a madeira era a prioridade para a edificação de casas pré-fabricadas. Depois, deixa bem evidenciada a fase da construção de prédios de alvenaria. Outros elementos, como toras de madeira empilhadas, pinheiros em pé, sol e pessoas, representando energia e vida, complementavam a obra.


Em 2008, uma nova reforma do edifício Irma Helena. Tomei conhecimento, por intermédio da síndica do prédio, que as portas do quadro de força, que, abaixo da pintura externa, albergavam a obra de Klenia Sanches, seriam substituídas por novas. Solicitei a doação das peças de madeira cujo destino era um contêiner de entulho de restos de construção. Fui atendido no meu pedido e com o auxílio de um colega de trabalho, Jorge Cerbaro, levamos, na camionete dele, as cinco lâminas de maneira para serem guardadas num depósito na casa do acadêmico Odilon Garcez Ayres, nas imediações do bosque Lucas Araújo. Essas lá permaneceram até 2014, quando foram transportadas para um novo local, na casa do acadêmico Paulo Monteiro.


Os anos foram passando e eu sempre em busca de uma maneira de remover a tinta e revelar a pintura oculta. Mas as tentativas nunca evoluíram para algo concreto. Até que, em 2019, o marceneiro Roque Gonzales Nascimento sugeriu que passássemos ácido naquelas portas e ver o que apareceria. Autorizei a operação. Roque Gonzales passou uma demão de ácido nas pranchas de madeira. Ele não sabia o que procurar. Ele não conhecia a pintura original. Eis que, num final de tarde, ele me chamou para ver o que estava acontecendo, pois, em uma das pranchas, apareceram uns riscos estranhos, umas linhas diferentes. Levei a única foto que eu tinha do Edifício Irma Helena, tirada em 25 de novembro de 2000, e a partir dela passamos a identificar aqueles que seriam os traços remanescentes da pintura original. Removida a camada de tinta, procuramos a autora da obra, Klenia Sanches, para ver a possibilidade de restauração.


Desnecessário dizer que Klenia Sanchez, que não havia se conformado com o destino que havia sido dado a sua obra, resolveu restaurar e, ao mesmo tempo, recriar a peça original, que fora totalmente desfigurada pela cobertura de tinta e pelos anos de deterioração das placas de madeira.


Os painéis de madeira foram levados para a Academia Passo-Fundense de Letras, onde Klenia Sanches, com o apoio do marceneiro Roque Gonzales, passou a trabalhar intensivamente na restauração/recriação da antiga pintura do edifício Irma Helena.
Alguns meses depois, o resultado foi materializado num magnifico mural de 4 m x 2m, pesando quase 200 kg, que, no último domingo (20/10/2019), com o apoio de 12 voluntários, foi colocado no auditório da Academia Passo-Fundense de Letras, onde permanecerá, supõe-se eternamente, à disposição do público que visitar o sodalício das letras locais.
A civilização venceu a barbárie!

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