Muro

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Prá começar Indico os seguintes livros O Garoto de Ipanema, sobre Vinícius (Alex Solnik) e Por Trás das Canções (Carlos Minuano) e Não Diga que Minha História Está Perdida (Jotabê Medeiros), ambos sobre Raul.
Estava pensando no muro e na frase “meu reino não é desse mundo”, parte do evangelho tratado essa semana na Casa de Oração André Luís. Muro, qualquer um, daqueles que dividem o lado de cá do lado de lá. Meu reino não é desse mundo tem a ver com o muro pelo qual passo diariamente há quase 50 anos: o muro azul do Hospital São Vicente, construído num ano qualquer entre os anos 1930-40. Passo, na maioria das vezes, sem olha-lo, sem prestar-lhe a devida atenção. Em 1982, doutorando que era, serviu-me, decididamente para que, mesmo em breves momentos, percebesse minha missão, a que foi outorgada a mim no imenso sacrifício de meus humildes pais. Bem, estava num angustiante plantão de domingo e observava o movimento da rua; domingo, temperatura agradável, sol convidativo. Para lá do muro, tudo de bom: casais de namorados, crianças com bicicletas, idosos de mãos dadas, o sujeito com o rádio de pilhas tomando cerveja; para cá: as dores, o desespero, antibióticos, curativos...Pensei por breves instantes que bastaria um lance de coragem para transpor o muro e meu destino estaria selado. Não nasci para conviver com as dores do mundo, pensei; nasci para alegrias e alto astral; minha vida era ligada ao lado positivo da existência, coisas leves, tipo sopinha de isopor. Então lembrei das circunstantes vezes em que meu pai esteve pai endividado pelo fato de ter gerado 6 filhos, pelas vezes que minha mãe deixou de se alimentar em benefício dos filhos. Fiquei envergonhado porque minhas limitações e lamentos íntimos diante dos sofrimentos alheios embotavam meus pensamentos. Estava, naqueles momentos, pensando em minhas dificuldades pessoais e esquecendo da missão profissional a mim destinada. Não, o sacrifício e expectativas de quem me gerou não poderiam merecer minha desistência. Então, meus responsáveis pensamentos sublimaram e voltei para o lado correto; precisava, médico, devolver os pacientes em suas plenitudes para o lado de lá, para suas famílias e para o lado de lá. A gente escolheu viver do lado de cá...misturado aos sangramentos, às noites insones de plantões...os pacientes merecem voltar as suas vidas.
Quando entendemos as missões que o Criador dispôs ao presentear a vida a nós, quando entendemos que devemos suplantar nossas comezinhas individuais, quando sublimamos a existência com a superação das nossas limitações entendemos claramente que podemos, talvez, fazer ficha para passar a eternidade na Cidade de Deus, aquela em que moram nossos pais e um monte de gente superbacana; aqui na Cidade dos Homens mora toda a canalhice, egoísmo, indiferenças e desumanidade...o passaporte para o reino que não é desse mundo, o da cidade de Deus, exige solidariedade, humildade, despojamento; e o melhor de tudo...depende somente da gente as ações que podem fazer com que olhem nossos currículos para deixarem a gente viver na Casa do Pai.

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