O destino de Octavio de Oliveira Cruz

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Sobre Octavio de Oliveira Cruz e a revista “Estrellas - Conjunto de colaborações de intelectuais de Passo Fundo”, que foram temas dessa coluna na semana passada (05/07/2019), algumas coisas que conseguimos apurar, com o auxílio do historiador Fernando Miranda, elucidam melhor a história dessa publicação e o destino do seu editor. 


Octavio de Oliveira Cruz iniciou a sua carreira no comércio local na Casa Nöthen. Nesse estabelecimento, de propriedade do senhor João Baptista Nöthen Sobrinho, mais conhecido como João Café, trabalhou dos 13 aos 19 anos de idade. E conforme atestado, de 25 de julho de 1935, assinado pelo senhor João Baptista Nöthen Sobrinho, a sua exoneração deu-se por livre e espontânea vontade. Além de ter desempenhado com inteligência e critério todos os serviços que lhe eram afetos, demonstrando ser um moço trabalhador e honesto.


A Casa Nöthen, localizada na atual Avenida Brasil Leste, no número 70 da antiga Rua Capitão Jovino, a mais ou menos uns 100 metros da Praça Tochetto, no lado esquerdo, rumo à ponte do Rio Passo Fundo, onde Octavio Cruz tornou-se conhecido dos clientes, entrou para a história do comércio local pelos anúncios de capas de chuva e galochas de borracha, pelos famosos baratilhos (liquidação), pelas filas na calçada e pelas fichas de atendimento, além das placas que denunciavam as manias do proprietário: “Proibida a entrada de cachorros (nem nos braços)”, “Nervos e manias se deixa em casa” e “Entre, pegue a ficha, sente e espere a sua vez”.


O Nacional, em 10 de junho de 1935, noticiava que Octavio Cruz perdeu a visão em 1931. Depois de temporada em Porto Alegre, esgotados os recursos, estava de volta a Passo Fundo para angariar fundos visando a continuar o tratamento. Falou da sua esperança em recuperar a visão e que estava organizando um livro com contribuições de intelectuais passo-fundentes, cuja renda obtida com a venda de exemplares reverteria em prol do seu tratamento. E assim, pelo selo da Livraria Nacional, em janeiro de 1936, a primeira edição ficou pronta. A segunda edição sairia em 1937.


Estrellas chama à atenção, pela forma que os intelectuais passo-fundenses trataram o caso Octavio Cruz. Na abertura da segunda edição, datada de 14 de julho de 1937, Octavio Cruz manifesta a sua gratidão aos que foram acessíveis ao seu apelo e a sua esperança de que a luz fosse restituída aos seus olhos. Romulo Teixeira instiga o leitor a comprar a revista, seja pelo sentimento de piedade para ajudar o moço cego que não pede esmola ou apenas pela sua utilidade. A professora Cacilda Habekost apela para o sentimentalismo do leitor, ao destacar que “Octavio, teus olhos já não vem mais a luz.... mas a tua alma é iluminada”. A escritora Helena Rodriguez realça que pela caridade pode um cego reaver a luz perdida. Odalgiro Corrêa escreveu o soneto O ceguinho da aldeia, que não guarda qualquer relação com Octavio Cruz, mas cujos versos apelativos realçam um ceguinho cantor que habitava um misero ranchinho, aonde, toda semana, vinha gente do povinho trazer a sua esmola, escutar os acordes de sua viola e aplaudir seus cantos. Complementam a publicação, transcrições da Constituição Federal e do Regulamento do Serviço Militar, além de odes a Hitler e a Mussolini, com a reprodução, em alemão e em italiano, dos hinos do Nazismo e do Fascismo. Outros tempos, outra Passo Fundo, não se precipitem em julgamentos!


Mas, e o destino de Octavio de Oliveira Cruz, deve estar se perguntando o impaciente leitor? Essa história, alvissaras, teve um final feliz. Tudo indica que Octavio Cruz recuperou a visão, mudou-se para Taquara, onde continuou a editar a sua Seleções Estrellas. Em 1947, conforme noticiou O Nacional, edição de 5 de maio, esteve em Passo Fundo, em visita às sedes do III/8º R. I. e do 3º R.C.B.M., palestrando com os comandos e a oficialidade desses regimentos, e depois rumou para a região missioneira. A última publicação de Seleções Estrellas – Civil e Militar, editada por Octavio Cruz, que conseguimos localizar, foi de 1951, sobre Duque de Caxias.

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