O escritor de números

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Não foi em prosa nem em verso, mas em números, que se notabilizou a obra de um dos fundadores do Grêmio Passo-Fundense de Letras (atual Academia Passo-Fundense de Letras). Oscar Kneipp, cujo nome consta na relação dos intelectuais que assinaram a ata de fundação dessa agremiação, datada de 7 de abril de 1938, sob a presidência de Arthur Ferreira Filho, bem como a de restruturação dessa entidade, um ano depois, sob a direção de Antonino Xavier e Oliveira. Por mais que se busque nos documentos e atas de reuniões do Grêmio Passo-Fundense de Letras, não se encontra nada além de uma mera presença “discreta” de Oscar Kneipp, no dia a dia do sodalício das letras locais. E, quando, em 7 de abril de 1961, o Grêmio Passo-Fundense de Letras, sob o comando de Celso da Cunha Fiori, assumiu a personalidade da atual Academia Passo-Fundense de Letras, Oscar Kneipp não mais integrava os seus quadros. Tanto é assim que o seu nome não consta nas primeiras obras sobre a história da instituição, escritas pelo professor Sabino Santos: Os Imortais de Passo Fundo (1963) e Academia Passo-Fundense de Letras (1965). No entanto, nos registros das observações meteorológicas em nossa cidade, o nome de Oscar Kneipp se sobressai como um dos mais importantes protagonistas da história da meteorologia local.


Oscar Kneipp nasceu em Itaqui, em 1905, e morreu em Passo Fundo, em 1984. Em 1930, deixou Uruguaiana para completa os estudos no Instituto Educacional (IE), em Passo Fundo. Por influência do Professor Schisler, diretor do IE, conseguiu uma colocação de observador na estação meteorológica que funcionava junto a esse estabelecimento de ensino. Acabaria, oficialmente, admitido na função, em 5 de agosto de 1942, tendo se aposentado no cargo de auxiliar de meteorologia, em 21 de outubro de 1974. Foram mais de 35 de trabalho como observador meteorológico. Uma função que exige responsabilidade, seguindo uma rotina de leituras em instrumentos e de preparação e envio de mensagens meteorológicas três vezes ao dia (9h, 15h e 21h), independentemente de condições de tempo (chuva ou sol), dia da semana ou feriados. Por dever de ofício, posso dizer que “li toda a obra” de Oscar Kneipp. Quando, em setembro de 1978, iniciei a trabalhar no Instituto de Pesquisas Agronômicas, em Porto Alegre, coube a eu digitar a série histórica de dados meteorológicos do Rio Grande do Sul, visando à preparação do Atlas Agroclimático do Rio Grande do Sul, que seria publicado em 1989. Nessa época sequer imaginava que um dia eu viria viver em Passo Fundo, e que muitos anos depois iria fazer parte dos quadros da Academia Passo-Fundense de Letras e, menos ainda, que, tomado de surpresa, nos documentos da entidade, encontraria o nome de Oscar Kneipp na relação dos fundadores. Assim, sou testemunha da obra monumental “escrita em números” por Oscar Kneipp. Estou me referindo aos números por ele anotados, ao longo de mais de 35 anos de trabalho, descrevendo as condições meteorológicas ocorridas em Passo Fundo.


A ligação com os metodistas talvez explique, pela proximidade com SanteUberto Barbieri, o seu ingresso no Grêmio Passo-Fundense de Letras, em 1938. No educandário metodista de Passo Fundo,Kneipp foi professor de Geografia (35 anos), diretor do internato (por 45 anos) e presidente do Grêmio Literário Castro Alves ao longo de 17 anos, além de se envolver com a biblioteca da escola.
Oscar Kneipp foicasado com a também professora Cecília Borges Kneipp. Tiveram dois filhos: Oscar e Leda. Oscar, arquiteto, em 1962, foi para Brasília. Leda, casou com o advogado Atílio Giaretta e ficou em Passo Fundo, onde, como professora, seguiria a carreira dos pais.


Os familiares descrevem Oscar Kneip como um homem calmo, diplomático, religioso, dedicado à família e apreciador das lides literárias e educacionais. Eu complementaria dizendo que Oscar Kneipp, com o seu trabalho de observador meteorológico e prática de vida, dignificou, como poucos, o compromisso que assumiu ao assinar a ata de fundação do Grêmio Passo-Fundense de Letras, em 1938.

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