OPINIÃO

O horror que habita em nós

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Finalmente assisti "Nós" (US, 2019), de Jordan Peele, na semana que passou. Peele é um sopro de criatividade em um cinema regido por fórmulas prontas no seu circuito. Em "Nós", o diretor mais uma vez constrói um filme de terror baseado menos no clássico "jump scare", a técnica de surpreender o espectador com sustos baseados no som (que aparecem, também, aqui) e mais em uma construção de clima que prende o espectador a partir de um medo muito mais subjetivo. Tensão, acima do susto. Peele está assustando seu espectador, mas mais do que isso, está entregando um manifesto. Se em "Corra" tínhamos uma clara abordagem social sobre o racismo incrustrado na sociedade norte-americana, aqui o furo é mais embaixo. Não é sequer um manifesto, realmente. É uma dissertação – embalada, aqui, por uma trilha sonora que ressoa a todo instante no espectador e está entre as melhores coisas do filme.

A partir de uma cena inicial que serve de base para todo o roteiro e para o plot twist final, temos uma menina negra se perdendo dos pais em uma parque de diversões nos anos 80 e vivendo um momento de terror em uma sala de espelhos: ela encontra um duplo, não um reflexo, mas outra menina idêntica a ela - e Peele já começa aqui a fazer uso de reflexos no ambiente como uma ferramenta interessante, já que em certos momentos do filme temos os protagonistas estáticos enquanto seus reflexos e sombras parecem se mover. Pulando trinta anos até os tempos atuais, a menina, crescida, vive um outro pesadelo com sua família: em sua casa de férias, durante a noite, seu filho diz que há uma família parada do lado de fora da casa. De longe, tudo o que eles visualizam são quatro vultos contra a luz. Logo eles descobrem que são cópias exatas deles próprios, que invadem a casa para iniciar um jogo assustador de contronto entre cada personagem e sua cópia.

"Nós" se constrói sobre uma série de metáforas e analogias para capturar um pouco de tudo o que Peele enxerga de errado em seu país, mas a ideia, assustadora, é que tudo o que Peele vê no seu país tem, por extensão, uma ramificação em nosso meio. Há um pouco de tudo aqui, desde a construção metafórica sobre os imigrantes nos Estados Unidos - na própria ideia de que os Estados Unidos estão assentados sobre uma série de túneis (e o que vive nesses túneis dialoga com a ideia de uma nação construída sobre o trabalho de seus imigrantes) até pequenos momentos cômicos, como a protagonista dizendo que eles precisam "fugir para o México" para escapar daquele pesadelo.

Uma das chaves para abraçar o filme de Peele é compreender que o diretor trabalha com alegorias, e não com literalidades. Ao buscar sentido prático para muitas ideias do filme, o espectador inevitavelmente vai bater contra a parede e achar que o filme é incompleto ou absurdo. A ideia central de "Corra" já era inverossímil, e aqui não é diferente. Se essa "barreira" for ultrapassada, "Nós" constrói uma trama rica em assuntos que problematizam a realidade do nosso mundo. Denuncia a hipocrisia de um mundo regido pelas aparências, onde agressores frequentam a missa do final de semana e por trás da aparência e da opulência se esconde um lado sombrio. Pessoas que expressam uma falsa aparência no dia a dia e atrás da tela de um computador descarregam todo seu preconceito sem nenhum tipo de filtro. De pessoas "comuns" que evitam a violência em seu cotidiano mas, quando atingidas por ela, a enxergam como algo corriqueiro (a transformação da própria família protagonista é um exemplo).

Em "Nós" aparece a metáfora da rebelião daqueles que sustentam o país (literalmente vivendo abaixo nas camadas sociais) e que, literalmente, não têm voz. Se sxpõe o lado sombrio do americano médio, mostrando que todos temos, dentro de nós, uma segunda persona que somente surge em momentos extremos, e com a qual convivemos. Na personagem central Lupita N'yongo, séria candidata ao segundo oscar da carreira - Peele expõe uma outra metáfora, ao fazer com que sua roupa, branca, aos poucos vá encharcando-se do sangue de outros "americanos" à medida que o filme se desenvolve. E tudo a partir de uma passagem bíblica, Jeremias 11:11 , ue diz, literalmente, que Deus, tão caro a uma sociedade "devota" e hipócrita como a americana, os abandonou e os deixou à própria sorte. E o que aparece, então, é o lado selvagem da sociedade americana.

Por fim, em termos de roteiro, traz a sacada genial de mostrar como o cinema nos manipula. Quem, afinal, nós consideramos "bons"? Nossa visão de certo e errado, no fundo, se trata apenas de uma questão de ponto de vista, fechando com os momentos finais um discurso repleto de significados. Nenhum, talvez, tão sintomático quanto o título original, "Us", que remete não apenas a quem assiste ao filme mas à própria abreviação de “United States” na língua inglesa. 

Jordan Peele estava certo ao dizer, literalmente, que vive em um país/mundo assustador, ao escrever no Twitter, na semana de lançamento, que "US é um filme de terror".....

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