O vidiota

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Do livro com o título acima Peter Sellers exercitou sua imensa habilidade dramática e interpretou Chance, um personagem patético, tipo a maioria de nós, em Being There (no Brasil conhecido como Muito Além do Jardim) em 1970. Claro que todos assistiram porque é arte que sobrenada. Percebi, com Peter Sellers, que sou um autêntico idiota (como atestam meus amigos) e que minha idiotice tem forte carga genética. Meu avô, Antonio também era, a ponto de confiar no fio de bigode e ter perdido algumas áreas de terra lá no início do século passado. Meu pai, Jorge, era um idiota, a ponto de acreditar que todos os homens eram bons. Claro, era militar e milico tem a certeza de que compromisso firmado era cláusula pétrea, se o cara prometeu é porque vai fazer. Eu, idiota por pensar coisas idiotas e por escrever crônicas com essas tolices. Meu filho Ramon será um idiota, ensinei-o bem. É humanista, acredita nos compromissos, acredita no amor. Ainda bem que minha filha é mais esperta.


Domingo à noite recebi o plantão e uma tragédia: um garoto de 27 anos estava com morte cerebral por um ferimento por arma de fogo após ter assassinado sua ex-esposa. Olhei-o, barba bem aparada, aspecto jovem, trabalhador e imaginei a imensa dor de seus pais ao perceberem que seu jovem filho tirou a vida de outra pessoa e sua própria. Então, espiritualista como sou, descobri seu braço e toquei com minha mão e recebi como resposta uma imensa dor que absorvi a tal ponto de sentir necessidade de sentar. É como se tivesse aberto um portal de comunicação entre nós, é como se houvesse a oportunidade de comunicação e ele dissesse: cara, fiz uma merda, estou arrependido, foi mal. A impressão é que me adonei de sua imensa dor. Depois, voltei a tocá-lo novamente, agora sem dor e disse-lhe, em pensamento: vá em paz, garoto, se for possível que assim seja. Quem sabe da vida? Quem sabe dos desígnios? Quem sabe das circusntâncias? Todos - menos os idiotas como eu.


Os escravos de Jó jogavam caxangá – a gente cantava “os cravos” de Jó ao invés de escravos. Não sabíamos quem era Jó e nem caxangá (siri, que os escravos de Jó capturavam) mas, cantávamos. Cantávamos atirei o pau no gato e não percebíamos a atrocidade. Mulata bossa nova caiu no hully-gully, que é hully-gully? Certa feita andava de lenço vermelho, maragato sem saber o que vinha a ser isso. Outra vez aceitei uma hena com a estampa de Che Guevara, talvez pelo saudosismo de infância, talvez pelo passado trabalhista que foi emoldurado por Getúlio e Jango e que marcou minha família. Depois do que li sobre as intimidades dos ditadores da Ilha senti vergonha da estampa. Só me desculpei por ser idiota. Quem canta ou coloca estampas sobre o que não sabe direito deve ser por distração ou idiotice, ou ambos.


Agora estamos aí, dirigentes políticos de todas as plumagens presos por locupletação, investigados até a alma. Tem gente querendo lançar candidatura de presidiário para a presidência. Bem, para um país que abraçou Ronald Biggs (o ladrão do seculo XX, roubou o trem pagador entre Glasgow e Londres em 1963 e que foi até jurado do Chacrinha) e Cesare Battisti, comunista-terrorista condenado em 1987 na Itália à prisão perpétua por assassinatos e que foi recebido e bem tratado no país), lançar candidatura de preso é café pequeno. Vou lançar Fernandinho Beira-Mar, Vou lançar Bruno e Suzane Richtoffen em dobradinha com os irmãos Cravinhos.


Pensando bem, sou idiota assumido mas, talvez não seja o único.

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