Rancor fundamentalista

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A onda de destempero das opiniões caracteriza um momento dos relacionamentos sociais em grau de crueldade devastador, nas redes de comunicação. A sensação de impunidade desnuda o caráter pusilânime de pessoas que sempre se mantiveram acobertadas pela falta de coragem perante um apelo de solidariedade. E mentem a si mesmos que agem em nome da moral! Procuram, quase sempre, atuar de forma que imaginam velada, mas com força desmedida e alucinação buscando ferir ou matar o semelhante na sua existência psicológica. Gravíssimo, também, é vermos que este rancor fundamentalista recebe estranhos estímulos de mentes que cultuam desejos de destruir a paz alheia, sem qualquer razão. É perceptível nas redes sociais, em comentários sobre a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes, o quanto o ímpeto destruidor pode tornar o bojo de um canal cibernético em verdadeira cloaca a céu aberto. A degeneração do ser humano na via do preconceito volta-se justamente contra uma das mais nobres conquistas que é a Declaração dos Direitos Humanos. Esse desrespeito à pessoa e à memória familiar torna-se vilania contra todos os que defendem o estado civilizatório humano.

 

Elite marginal

Essa conduta que atentou cruelmente contra a causa de Marielle, sua vida pessoal e ideológica, teve o despudor de agentes notáveis de elite. Todos alegam que cometeram o ato de difamação e injúria à memória de Marielle, sem a devida reflexão. A declaração da desembargadora Marília de Castro Neves, o pastor (evangélico) Marcos Carvalho e o deputado Alberto Fraga (DEM) estão repletos de iniqüidade. As numerosas manifestações de rancor e desrespeito desconheceram o milenar preceito “parce sepulti”, (respeite-se os mortos!) É bom que se diga também deploráveis todas as manifestações de oportunismo e desdouro a adversários políticos, praticadas por militância dita de esquerda, quando se excede e despreza a reflexão responsável.

 

Bandeiras em sangue
A juíza Patrícia Acioli foi assassinada de forma semelhante ao caso Marielle, em 2011. Observadores da segurança estão preocupados, ao analisarem as circunstâncias momentosas dos fatos recentes, considerando que a magistrada atuou com rigor contra o crime organizado de extermínio. Mandou prender 70 policiais envolvidos. Sua ousadia era em defesa da paz social e justiça dos direitos humanos. Seria aberração alguém dizer que ela fosse culpada de se contrapor ao crime, expondo-se ao ódio mortal dos delinqüentes. É claro que o gesto dessas mulheres, mais do que coragem era a justiça. Marielle, em seu mandato não se omitia em ajudar familiares de policiais mortos na luta pelo bem. Lutou contra toda a iniqüidade que aflige as pessoas de bem, ricos ou pobres. Isso lhe custou o sangue.

 

Apartheid social
O mal cada vez mais irreconciliável remonta da catástrofe histórica do Brasil na escravidão. A prolongada perversidade, agravada por leis espúrias durante 300 anos, tem ainda suas seqüelas, na sucessão de gerações que insistem em manter trabalhadores pobres sob jugo da submissão. O débito escravocrata perpetua-se impagável e inapagável na intenção dos prepotentes. O apartheid social das favelas, que exige a luta para superar o luto dos humildes de todos os matizes, resulta em heróis e heroínas, muitos anônimos. Diante da possibilidade de mudança dessa desgraça secular surgem mentalidades carcomidas que tentam reduzir a importância e até escarnecer do holocausto da maioria vulnerável. É muito triste ver mediocridades sonegando direitos sagrados.

 

Oprimidos
O desatino dos arrogantes que desprezam o lado pobre da cidade leva-os a supor que nunca morrerão. Nisso, o desprezo pela morte dos oprimidos. A morte de quem luta pela bandeira da igualdade social deve ser ouvida como grito no estertor dos que sofrem mais.

 

Na cruz

Basta refletirmos sobre a condenação de Cristo, levado à morte por representar postura vista como insidiosa pelos donos da opinião popular. Ele era mal visto pelos dominadores, unicamente porque se compadecia de seu povo sofrido.

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