Time to die

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Essa é a frase do replicante Roy Batty (Rutger Hauer), em Blade Runner - filme de Ridley Scott, 1982; dita para significar despedida, momento mágico sob chuva, em que a música de Vangelis ressoava. Esse mês marca minha despedida da docência da UPF, algo em que participei desde 1986. Nesse tempo, vivi de tudo ou quase tudo que pode ser vivido por um cirurgião geral que se especializou em atendimento ao paciente politraumatizado. Comecei em plantões da Unimed, ambulatórios de bairros, cirurgias de urgências, atendimento pré-hospitalar, intensivismo por 10 anos e medicina legal por 3 anos. Nessa trajetória convivi com alunos e residentes e fui testemunha da transformação da medicina epidérmica ou transcutânea, sem a tecnologia de hoje, na atual: midiática, lépida e inconstante. A medicina de hoje é repleta de alunos nas 337 escolas médicas e que formam 35 mil novos médicos a cada ano e que parece ter se adaptado ao novo. Mas, não eu, velhote e reverberativo ao romântico; em outros tempos, em menor número de alunos fazíamos de tudo, passávamos a morar dentro do hospital a partir do terceiro-quarto ano e conhecíamos os pacientes pelos seus nomes. O São Vicente tem 101 anos e fiz parte dele nos últimos 40, desde 1979 quando fui estagiário voluntário do Dr Alaour Duarte e após do também extraordinário professor e mestre Carlos Madalosso. Dr Madalosso enfrenta doença em si mesmo, aquela mesma que enfrentou com denodo em seus milhares e agradecidos pacientes; Dr Carlos sempre me tratou com fidalguia de quem trata um filho. Dr Carlos tem um enorme séquito de admiradores e tem papel educador e social intransferível para nossa região. Não é eterno, fez-se assim. Fez-se por ser denso, participativo e potencialmente influenciador. Vamos lá, doutor, a gente está aí, seus alunos-filhos-discípulos estão por toda a parte. Obrigado, mais uma vez.
Time to die - não em tom tão dramático assim, apenas uma retomada de caminho e quer dizer abrir espaço ao novo, abrir espaço ao professor mais entusiasmado, mais afeito às exigências do público jovem. Não que não tenha me adaptado, os tempos mudam, mas o carinho e respeito aos pacientes não mudam ou não deveriam mudar. É que meu pai me ensinou que a gente tem que aprender sem ser obrigado a assistir as aulas; que a gente tem que buscar porque é bom para o paciente e para a sociedade. Nesses anos de docência pretendemos oferecer mais do que médicos; pretendemos oferecer à sociedade cidadãos com formação humanística tão boa quanto a formação técnica. Sempre sonhei com aulas gratuitas dos grandes mestres e, o mais importante, sem listas de chamada ou presenças. Imagine um artista tocando violão e que descobre que seus assistentes foram obrigados a assistir sob o risco de serem reprovados. É quase o mesmo desapontamento a uma personalidade em que quando é apresentado ao público o apresentador manifesta a sórdida frase: vamos aplaudir. Pedir aplauso? Mas, ele não merece ser aplaudido espontaneamente? Tem que solicitar isso? Vexame total a presença por obrigação ou ameaças.


Time to die não é necessariamente morrer, é renascer, é permitir-se a novos desafios. O que resta? Resta agradecer ao convívio e...querem saber? Nunca gostei de ser chamado de professor; professor é quem tudo sabe e eu...debato-me diariamente com minha ignorância...quanto mais leio mais percebo não saber. Sócrates e Platão tinham uma dinâmica vertical pela maiêutica e por tentar tirar o sujeito das sombras da caverna ou da ignorância nem que fosse a forceps, em outras palavras: o professor ensina e o aluno aprende. Sou mais o seguido por Paulo Freire: o professor e aluno, em plano horizontal, aprendem juntos, crescem na convivência. Por isso, minha últimas palavras são para os meus dedicados alunos-residentes: obrigado por terem me iluminado, obrigado pela convivência, obrigado pela paciência. Até mais.

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