Travessia de Lawrence

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Lawrence da Arábia, fielmente retratado pelo diretor de cinema inglês David Lean, decidiu atacar a cidade de Aqaba (Jordania), junto ao Mar Vermelho, em 06 de julho de 1917, durante a primeira grande guerra. Aqaba tinha seus canhões apontados para o mar e estava sob domínio dos turcos. À retaguarda, desprotegida havia o deserto, o impenetrável, afinal chegar até Aqaba pelo deserto era impossível. E assim o era até que Lawrence resolvesse o contrário. Os camelos não aguentam mais de 20 dias sem beber água, seria uma jornada suicida. Lawrence juntou 50 voluntários e fez a travessia; se Moisés atravessou o deserto a gente pode, também.
Travessia...foi como passei a encarar a vida já aos 7 anos, quando assisti a esse filme em Cruz Alta, no Cine Rio. Sim, a vida era uma travessia pelo imenso deserto de calor e frio, de solidões, com poços de água aqui e ali. A vida era para os fortes e adaptados, como meus e assim deveria ser para seus filhos. Era a vida metaforicamente representada na tela grande, era uma mensagem do diretor de cinema, era o que ele queria repassar. Tem gente que nem prestou atenção, tem gente que nem lembra, tem gente que acha que essa passagem do filme não tem a menor importância. O deserto e a travessia dele.

Milton Nascimento, conhecido como Bituca, escreveu Travessia em 1966 e fala que pensou em morrer ou desistir quando ela (a amada) foi embora. Estava em um imenso deserto de dor, mas decidiu amar de novo e se não desse, tudo bem. Fez a sua travessia, assim como tantas que já fizemos e haveremos de fazer. Paul Simon na estonteante Brigde Over Troubled Water, 1970, cantada por Art Garfunkel, retrata a todos a travessia em águas problemáticas ou turbulentas. Na verdade, estavam dissolvendo a dupla e era doloroso aceitar isso. Assim também quando Erasmo compôs Sentado à Beira do Caminho (1969). Percebera que Roberto Carlos voltara diferente do Festival de San Remo, que a Jovem Guarda havia acabado, que o público envelhecera um pouco, que não queriam somente Twist and Shout, que queriam falar da vida, dos amores, das desilusões. Erasmo retratou que “preciso acabar logo com isso, preciso lembrar que eu existo”; então, foi tocar sua vida, foi fazer sua travessia assim com Paul Simon e Garfunkel.
Se pudéssemos todos, e todos podem, é claro, escreveríamos sobre nossos desertos e como foram enfrentados. De algumas coisas sentimos orgulhos, de outra nem tanto. Quem sabe, se não fomos brilhantes em outras épocas, se não poderíamos brilhar intensamente nos desertos ali da frente, que serão apresentados pela vida? Quem sabe nesse deserto que cada um passa em sua intimidade a gente não brinca de herói tal qual Lawrence? Lawrence é um personagem tão legal quanto nós, superou diversidades, assim como a gente faz todos os dias. Afinal, se Moisés fez, por que não podemos fazer?

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