Um homem ortodoxo e católico

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GilbertKeith Chesterton (1874-1936) foi mais que um poeta, mais que um romancista, mais que um ensaísta e mais que um jornalista - expressões que comumente aparecem em suas biografias. Este escritor britânico, que viveu intensamente o final da Era Vitoriana (1837-1901) e as primeiras décadas do século XX, personificou, como poucos, na prática, que é ser “ortodoxo” (ter uma visão correta das coisas) e que é ser “católico” (ser universal), conforme significado original destas palavras de origem grega. E, pela tradição ocidental, aquele que se empenha em ter uma visão ortodoxa e católica das coisas é (ou era) denominado de filósofo. É com base nesta argumentação que o professor Scott RandallPaine, no livro “Chesterton e o Universo” (Editora da UnB, 2008), mesmo que outros não aceitem, não hesita em classificá-lo como filósofo. Afinal, dá ênfase Scott RandallPaine, a filosofia e o cristianismo são afins, pois ambos falam do “logos” (o verbo). A primeira considera o “logos” por que o mundo foi feito e o segundo acredita no “Logos” por quem o mundo foi salvo.


A obra de Chesterton, dependendo do título e do tema, pode ser enquadrada como reflexão social, crítica literária eteologia e religião. São exemplos de cada um destes tipos:Heretics (1905), Charles Dickens (1906) e Orthodoxy (1908), respectivamente. Foi um mestre no uso do paradoxo e do humor, criando o estilo chestertoniano de escrever, dotado de uma singularidade especial. A série do Padre Brown, que tem como protagonista um sacerdote detetive, envolvido com a solução de questões policiais, denota o talento de G.K.C. para criar um mundo fantástico e bizarro, em que os personagens dão voz às opiniões metafísicas do autor.


No livro Heretics, publicado em 1905, Chesterton expôs aquilo que chamou de irracionalidades dos “hereges da virada do século” e incluiu neste grupo Bernard Shaw, H.G. Wells e RudyardKipling. Desnecessário dizer que Shaw, Wells e Kipling eram inimigos intelectuais de Chesterton.Talvez não existisse ninguém tão contra tudo aquilo que Chesterton defendia quanto H.G.Wells.Mas, até mesmo Wells, possivelmente ironizando, considerou a terrível chance de que a fé cristãpudesse ser, no final das contas, verdadeira. Em 1933, numa carta para Chesterton, Wells assim se expressou: “Se depois de todo meu ateísmo tudo der errado e sua teologia estiver certa, sinto que poderei ser capaz de ingressar no Céu (se eu quiser) como amigo de G.K.C. Deus o abençoe”.


Orthodoxy, de 1908, é um livro sobre a apologética cristã. Segundo alguns, essa obra levaria Chesterton aabraçar de vez a causa da Igreja de Roma, convertendo-se, em 1922, ao catolicismo, quando então se revelou um dos mais ardentes defensores da fé católica.E, não sepode ignorar, que ser católico na Inglaterra, naquela época (e ainda hoje), era pertencer a uma minoria religiosa e de oposição.


O ensaio sobre Santo Tomás de Aquino (St. Thomas Aquinas, de 1932) é considerado, por alguns tomistas, como um dos melhores livros já escritos sobre esse ícone medieval da Igreja Católica. Chesterton conseguiu interpretar e dar voz ao Doutor Angélico do único modo que ele poderia de ser lido e interpretado no século XX. Ou seja, a partir docontexto da cultura cristã, na qual ele escreveu a “Suma Teológica” e a “Suma contra os Gentios”, e da qual alimentava a sua vida imaginativa e mítica.


A pedra de toque de toda reflexão filosófica é o universo. E poucos escritores foram tão universais quanto Gilbert Keith Chesterton. Em razão disso, uns, conforme expressão do professor Scott RandallPaine, cederam candidamente à tentação de chamar Chesterton de filósofo. Outros ainda objetam, não sem razão, alegando que os filósofos se dedicam à filosofia e não à literatura, a escrever tratados e não poemas, romances e ensaios, bem como publicam seus trabalhos em periódicos eruditos e não em jornais diários. Com estes últimos,Chesterton, possivelmente, não se importaria, pois nunca quis ser mais que jornalista e porta-voz do homem comum.

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