Um trono esperando por um(a) rei(rainha)

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Goste você ou não, o assunto  do final de semana será o episódio final de Game of Thrones da HBO – bem como deverá ser o assunto principal ao longo de toda a semana. A HBO exibe o último  episódio a partir das 22h do domingo, encerrando oito temporadas de uma série que começou tateando um espaço a partir da adaptação de livros que muita gente não conhecia, mas que a partir de sua metade passou a ganhar mais público è medida que os livros que a originaram ganharam impulso de vendas, até chegar a uma reta final com problemas e pontos positivos. 

A história criada por George R. R. Martin (Impossível não pensar já no nome em J. R. R. Tolkien) em um mundo fictício inspirado na Europa Medieval conquistou seu público em temporadas marcadas por um lento desenvolvimento de inúmeros núcleos dramáticos, episódios bombásticos – usualmente o penúltimo de cada temporada – e mortes inesperadas para um público pouco acostumado a ver personagens queridos serem mortos em meio ao espetáculo. 

O que pouca gente se dá conta é que a morte de certos personagens não é vazia na construção narrativa do escritor. São personagens que têm uma função, cumprem-na e deixam a história seguir para o rumo que Martin visualiza. E quem acompanha a série pode perceber: ao longo das temporadas, a guerra pelo trono de Westeros vai eliminando todos aqueles que estariam minimamente preparados para ocupá-lo, deixando em sua reta final um conflito entre personagens que ou não querem o trono ou, vitoriosos, se tornariam déspotas despreparados. Não é por acaso.

Desde a sexta temporada, as temporadas televisivas ultrapassaram os livros. Sem as novas obras publicadas, os roteiristas passaram a seguir instruções gerais dadas pelo escritor, também  co-produtor executivo da série (ou seja, quase nenhum poder de interferência) mas obviamente com liberdades para conduzir a série da forma que julgavam adequada. E a partir desse desmembramento, a crítica dos fãs é pelo excesso do que se chama “fan service” (entregar aos fãs o que eles querem, em detrimento de escolhas mais dolorosas ou difíceis narrativamente, como a série fazia). As últimas duas temporadas, com menos episódios (com episódios maiores, na contrapartida) aceleraram a trama, mudando radicalmente o ritmo da série. Sobraram críticas.

Mas é fato que a série precisa acabar, e tendo um prazo para seu final – também por pressões do elenco, ávido por se livrar do compromisso para assumir outros papéis e seguir suas carreiras – é uma decisão quase inadiável acelerar as inúmeras tramas e e deixar de lado a preocupação por trabalhar os personagens para direcioná-los a um final. Não há muito o que reclamar disso, por mais que o resultado desagrade pela mudança de tom da série. Mas nem tudo precisa ser visto como ruim.

Uma das maiores reclamações dos fãs seria uma suposta “mudança” de comportamento de Daenerys, a senhora dos Dragões que invade Westeros atrás do trono de ferro e, no episódio passado, promove uma das cenas mais impactantes de toda a série. Faltou a atenção ao público, gostei muito da condução feita à personagem. Ao longo de todas as temporadas, ela protagonizou atos de execução individual ou em massa, e só não fez mais porque foi demovida pelos personagens que estavam a seu lado (seu primeiro instinto sempre era o de punir, revidar ou matar). Tyrion, Missandei e Jorah mantiveram a loira no caminho, apesar dela sempre se mostrar em dúvida. Na reta final, sem dois desses personagens, tragicamente mortos, e com o terceiro revelando-se uma decepção e pouco confiável, e tendo no sangue a herança de loucura da família, o que acontece com ela no final é algo que vem sendo ensaiado desde a primeira temporada. O fã radical que reclama precisa lembrar com mais calma ou rever sua trajetória.

Dificilmente dará tempo de fazer isso antes do domingo à noite – e por mais que eu desconfie do que acontecerá (partes do roteiro já teriam vazado) a dica continua sendo simples: veja o episódio. Termine a série. Xingue se quiser – será a tônica da semana nas redes. Mas seja coerente: tem muita coisa em GoT que o público não prestou atenção ou que foi eclipsado pelas vontades individuais, coisa que todo fã costuma colocar acima da razão: a morte da tirana Cersei é um bom exemplo que acontecimento que segue uma lógica (fugir do enfrentamento, se esconder e chorar feito criança ao  lado do único personagem que dedicou a ela algum tipo de preocupação).  Os melhores episódios dessa temporada ainda foram o segundo e o terceiro. A série apresenta vários problemas nesse final, sim, mas também há muita coisa boa acontecendo.  Só é preciso deixar a poeira da devoção cega baixar para olhar com calma.

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