Vertigo

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Um Corpo Que Cai (Vertigo), de Hitchcock, ano 1958. Notáveis performances de James Stewart e Kim Novak. Uma das obras de tantos diretores-atores performáticos daquela época de ouro do cinema. Não somente nas telas havia o dourado; a música italiana e francesa embalou romances, a voz aveludada dos americanos Tony Benett e Andy Williams, também.


Vertigo, vertigem, vida vertiginosa, rapidez tonitruante em que tudo parece ter passado rápido demais. Observa o filósofo Clovis de Barros Filho (disponível na internet) que ao entrar no primário (6 anos, se somarmos o pré) alguém dissera que era preparação para o ginásio; o filé da existência estaria no futuro, no ginásio. Durante o ginásio, disseram que era uma preparação para o científico, que era uma preparação para o vestibular, que era uma preparação para a faculdade e que era uma preparação para uma escolha profissional. Então, somando todas as preparações e expectativas ao devir, a partir dos 6 anos de idade passaram-se 19 anos em que o filé, a vida boa não estava no vivido, estava no que viria a ser; não estava no presente, estaria no futuro.


Se o camarada escolheu a Medicina, como eu, haveria uma continuação, uma especialização, ao que chamamos de residência médica e aí se vão mais 2-3-5 anos. Finalmente formado começa a vida profissional que dizem ser para constituir família e criar os filhos; filhos criados + patrimônio adquirido = filé da existência, a paz e a realização. No entanto, há obrigação (por que não?) de ajudar nossos amados dependentes a iniciar suas vidas profissionais. E, de repente, estamos com 65 anos e o filé da vida ainda não chegou a nossas mesas. Aí, começamos a ser desativados profissionalmente, trocados por gente mais jovem e mais condicionada aos novos tempos e, então, no refúgio da igreja e da fé dizem que o reino dos céus não é deste mundo, que em outra dimensão habita o filé, a vida plena de paz e luz, enfim o filé da existência. E tudo passou tão vertigo, vertiginoso e tonitruante.


O funcionário diz-me a frase, exatamente às 13:15 (ele que chegou às 13): “não vejo a hora de ir embora”. Trabalhar no que trabalha e que lhe rouba 8 horas de vida diariamente é um peso indescritível. Ele sonha como dia 5, o dia do pagamento e no dia 10 já está pensando no próximo dia 5; nada mais é tão prazeroso quanto quitar um carnê; ele adora o happy-hour das sextas as 18 horas; 18 horas de sexta é o único momento em que se sente pleno e feliz; o único mês do ano que é do caralho é o das férias porque os outros são uma bosta. Há para ele um mês em que a vida vale, o mês de férias: há um dia, o dia 5 e há uma hora boa da semana, o happy-hour.


A felicidade e o gozo da vida deve ser outra coisa. A gente deveria sentar nas praças, tomar sol, jogar conversa fora, rir das desgraças pessoais, assistir a bons filmes, fazer caminhadas, encontrar prazer nas coisas simples, encher nossos dias de luz. Deveríamos ser mais solidários e exercer as virtudes que ganhamos gratuitamente do criador. A vida é agora, absolutamente agora. Dizem por aí que o destino final nem é tão importante e que a viagem é que é interessante. O essencial é invisível aos olhos, segundo o pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (1943). É, se não encontramos no cotidiano inspirações para a vida boa, quem sabe num bom filme ou bom livro.
 

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