OPINIÃO

Editora de Província

Por
· 3 min de leitura

Notamos que você gosta de ler nossas matérias.

Você já leu várias nas últimas horas, para continuar lendo gratuitamente, crie sua conta.

Ter uma Conta ON te da várias vantagens como:

  • Ler matérias sem limite;
  • Marcar matérias como lida;
  • Conteúdo inteligente.
Criar contaAcessar
Você prefere ouvir essa matéria?

 
Em tempos que a maior das editoras brasileiras foi comprada por grupos estrangeiros, permanecendo no mercado, não raro, apenas como selo das subsidiárias do exterior. Ou, no caso das gaúchas, incorporadas por grupos do centro do País, a exemplo da L&PM, cuja compra de 50% pela editora carioca Sextante foi recentemente anunciada, vale rememorar a história da Livraria do Globo, de Porto Alegre, cuja história de sucesso, no século 20, marcou indelevelmente o mercado editorial de livros no Brasil. Para isso, uma boa fonte é um texto pouco conhecido de Erico Verissimo, denominado Breve Crônica duma Editora de Província, que foi descoberto, por acaso, na biblioteca do bibliófilo José Mindlin, quando da organização de um livro comemorativo aos cinquenta anos do primeiro volume de O Tempo e o Vento. Essa obra, há pouco mais de 10 anos, foi republicada e teve edição de dez mil exemplares distribuída gratuitamente pela Editora da Universidade Federal de Santa Maria.
Erico Verissimo conta em detalhes a história da Livraria do Globo (livraria, papelaria e tipografia), que começou, em 1883, como uma casa de negócios de propriedade de um certo Sr. Laudelino P. Barcellos, com sede na Rua da Praia, no centro de Porto Alegre.
Passados uns 40 anos, o velho Laudelino havia morrido e a razão social da firma chamava-se Barcellos, Bertaso & Cia. Esse Bertaso que começou na firma como varredor, aos 12 anos, tornou-se gerente de uma empresa que, após a primeira Guerra Mundial, ganhou um impulso fabuloso, graça aos livros que publicava.
Na década de 1920, o homem forte da editora era Mansueto Bernardi. Um italiano de Treviso, que veio menino para o Brasil e teve o sonho de transformar a Globo numa editora de importância nacional. Foi nessa época que, em 1929, por sugestão de Getúlio Vargas, criou-se a Revista do Globo. A Revista do Globo rivalizava com a Querida, anos 1950. A Querida era a concorrente da revista gaúcha e dirigida por ninguém menos que Roberto Marinho, do grupo O Globo, do Rio de Janeiro.
Segundo o texto de Erico Verissimo: Henrique Bertaso entrou em cena em 1931, quando, com a saída de Mansueto Bernardi, que foi para o Rio de Janeiro, a convite de Getúlio Vargas, dirigir a Casa da Moeda, passou a tomar conta da editora. O ano de 1931 também marca a chegada de Erico Verissimo a Porto Alegre. Ele, por acaso, acabou contratado para trabalhar na Revista do Globo.
A Revista do Globo, na visão de Erico, era provinciana, mal impressa e insossa. Publicava retratos dos assinantes: "a bela senhorita", "o galante menino". Fazia "coberturas do carnaval em Cacimbinhas", etc. E como dizia a direção para Erico: "Gente, meu caro, que precisamos agradar ... ". Nada muito diferente dos dias atuais, diga-se de passagem, em algumas publicações.
A Coleção Amarela, com livros policiais (Agatha Christie, Edgar Wallace, Sax Rohmer etc.), foi um dos êxitos (sucesso de público) da casa editorial de Henrique Bertaso. Buscava ele, com isso, formar um fundo que lhe permitisse editar obras de escritores de maior importância literária. Foi quando convidou Erico para ajudá-lo na editora, como assessor literário. Começava a crescer a amizade entre Erico e Bertaso, que passou a editar também os livros de Verissimo (fracassos de venda entre 1932 e 1938).
Bertaso criou a Coleção Nobel, com o melhor da literatura mundial na época, e Erico escolheu os autores, gente como: Thomas Mann, G.K. Chesterton, Aldous Huxley, James Joyce, Willian Faulkner, etc., cujos livros alcançaram grande sucesso no Brasil. Mas foi Erico quem confessou ter deixado escapar um dos maiores bestsellers de todos os tempos, opinando que ninguém iria se interessar por ele no Brasil": Gone with the Wind (E o Vento Levou).
As traduções da Editora Globo eram impecáveis (tradutor, revisor da tradução, linha por linha, e especialista em estilística). Nesse ambiente, Maurício Rosemblat trabalhou na edição completa da Comédia Humana de Balzac (17 volumes). Também, com o apoio de Erico, sugeriu a publicação de À la Recherche du Temps Perdu, de Marcel Proust, que contou com tradutores como Drurnmond e Quintana.
A Editora Globo cresceu, cresceu, e um dia .... De qualquer forma, como bem destacou em texto L.F. Verissimo: "Hoje parece mentira. Aquela editora lá embaixo, naquela última gota do Brasil, criada quase que como um capricho, fazer tudo o que fez. E no entanto, fez".

* Pesquisador do Laboratório de Meteorologia Aplicada à Agricultura
Embrapa Trigo
 

 

Gostou? Compartilhe