OPINIÃO

Fim de festa

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Assim como acabou a farra das promessas eleitorais fáceis, findou-se também o período do Carnaval. Com isso, a constatação de uma triste realidade: o Brasil está muito diferente do apresentado e propagandeado pelo governo e seus seguidores e mais distante ainda do luxo das fantasias e desfiles apresentados ao grande público. Respondendo a críticas, o cantor e compositor Neguinho da Beija-Flor, da Escola de Samba campeã do carnaval do Rio de Janeiro neste ano, declarou que “se não fosse a contravenção meter a mão no bolso, organizar, estaríamos ainda naquele negócio de arquibancada caindo, desfile terminando duas horas da tarde, cada escola desfilando duas, três horas e a hora que quer. E a coisa se organizou". Em seguida, falou em tom irônico: "Se hoje temos o maior espetáculo audiovisual do planeta, agradeça à contravenção".

A declaração do cantor e compositor, mesmo que verdadeira, soou como meia verdade aos olhos de boa parte do povo brasileiro. Parcela da população que acredita na ilusão que fantasias luxuosas brotam em árvores, que para ter gasolina barata e ser uma potência energética, basta a Petrobras retirar petróleo do pré-sal, e que, milagres econômicos realmente são possíveis e funcionam muito bem.

Milagre econômico é uma crença que alimenta o povo brasileiro de tempos em tempos. Tanto que a equipe econômica liderada por Guido Mantega e Arno Augustin criou um novo conceito de contabilidade, chamada de “contabilidade criativa”. Só que o milagre acabou e a fatura dele chegou no formato de herança: o atual Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, juntamente com sua equipe, recebeu uma dívida de mais de R$15 bilhões em atrasos com o Banco do Brasil. Valores que não foram pagos nos últimos anos pelo Tesouro Nacional ao banco estatal com o objetivo de melhorar as contas públicas. A dívida refere-se, principalmente, aos subsídios para financiamentos rurais com juros abaixo do custo de mercado. Essa diferença foi bancada pelo Tesouro Nacional, que se comprometeu a repassar recursos regulares para as instituições públicas.

Parte da “contabilidade criativa”, diz respeito ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), responsável por vários programas de empréstimos subsidiados. Pesa sobre o caixa do Tesouro Nacional, cerca de R$24 bilhões até setembro de 2014, praticamente o dobro dos valores verificados no final de 2012. Além das dívidas com os bancos estatais, o governo tem pagamentos atrasados em várias áreas, incluindo fundos com recursos de trabalhadores como o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Quanto ao FGTS, chegou-se a um acordo para pagamento de R$10 bilhões em 30 meses. O governo ainda deve R$7 bilhões ao fundo referente aos subsídios do programa habitacional, Minha Casa, Minha Vida.

Quem arquitetou tais milagres? Quem prometeu que as festas à fantasia nunca acabariam? Quem afirmou que medidas, como o ajuste fiscal proposto, não aconteceriam “nem que a vaca tossisse”? Sem dúvidas, foi a Presidente Dilma, que esbanjou confiança no ano eleitoral e agora nos deixa uma grande conta a pagar. E onde está aquele personagem da campanha eleitoral, que acusava a oposição de tentar massacrar os pobres e jurava não mexer na legislação trabalhista sob hipótese alguma? O Carnaval passou e é hora de guardar as fantasias. Mas deveras, o público não esquecesse a grandiosidade de tal desfile.

Com a fantasia criada do ente incorruptível, o Partido dos Trabalhadores (PT), que teve a imagem arranhada, primeiro pelo mensalão e agora pelos escândalos da Petrobrás e pelo governo Dilma, só pensa então em manter seu carro alegórico na avenida. Com Lula e o partido fortes, obtinham facilidade para aprovar todas suas artimanhas no Congresso. Com Dilma e o partido ladeira abaixo, fica difícil convencer a opinião pública, a Câmara e o Senado, até mesmo acerca da necessidade de repensar alguns direitos (que configuram hoje, muito mais um modo fácil de conseguir as coisas do que um direito necessário) de trabalhadores e pensionistas. Enfim, a bateria da escola parou de tocar, o fim da festa chegou e com isso, é hora de voltarmos ao mundo real: aprendemos assim que milagres econômicos não existem, que deslumbrantes fantasias são sim, em sua maioria, propiciadas pela contravenção e que, o sonho de sermos uma potência petrolífera está dando lugar a um escândalo de corrupção como nunca visto na história do Brasil. Sobre a realidade do pós Carnaval, lembro a música de Martinho da Vila, “sonho de rei, de pirata e jardineira, pra tudo se acabar na quarta-feira”. É um banho de realidade.

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